18 de dezembro de 2015 | Ano 2, Edição #21 | Texto: | Ilustração: Isadora M.
Energia, ou a falta dela: como lidar com fases em que a gente não tem ânimo para fazer nada?
FaltaEnergia-IsadoraM

Sabe aquele dia em que você não consegue dormir a madrugada inteira, cai no sono com o sol raiando e só acorda às quatro da tarde? Aquele dia em que você simplesmente não tem forças pra levantar mais do que o dedo necessário pra dar o play no Netflix, muito menos pra trabalhar ou ver as pessoas? Bom, eu sei.

Eu tenho tido alguns dias assim. Eu não tenho depressão – pelo menos, nada oficialmente diagnosticado – e, na maior parte do tempo, eu consigo superar as minhas mágoas e decepções trabalhando (por sorte, o quadrinho e a ilustração tem bastante espaço pra desabafos), vendo um filme legal ou apenas racionalizando que a vida continua e nem tudo está perdido. Mas tem dias que não são bem assim.

Esse é um sentimento que eu associo um pouco a sair de casa e a me formar na faculdade. A partir de então, ninguém mais mostra os caminhos pra gente. Nós é que teremos que descobrir qual é o próximo passo no infinito de possibilidades que é o nosso futuro. E isso dá medo. Especialmente quando o passo que a gente finalmente decide dar não leva aonde a gente quer logo de cara. Junta esse desânimo existencial à falta de uma mãe exigente como a minha pra mandar levantar e fazer as coisas e PLEI! Temos uma garota vendo maratonas de How To Get Away With Murder com trabalho acumulado e sem sair do pijama há três dias.

Claro que nem todo mundo passa pelas mesmas coisas que eu na mesma época ou pelos mesmos motivos, mas eu suspeito que bastante gente conheça essa mesma sensação de inércia, de falta de ânimo. E ela vem acompanhada de culpa por estarmos deixando nossas tarefas de lado, de alimentação péssima (ou pior, falta de apetite) e afastamento dos amigos. Isso tudo só contribui pra gente se sentir pior e pior, e mais incapaz de sair dessa estagnação.

Vale ressaltar também que a gente vive em uma sociedade que relaciona a nossa produtividade ao nosso valor. Então quem não tá trabalhando é vagabundo, quem não ganha dinheiro é folgado e por aí vai. Também existe uma tendência de tentar padronizar as pessoas e os seus comportamentos. O Manual de Diagnóstico e Estatística dos Transtornos Mentais 5.ª edição, ou DSM-5, é o documento usado por médicos, psiquiatras e psicólogos pra diagnosticar transtornos mentais, e ele traz receitas bem específicas de como as pessoas devem se comportar pra serem consideradas “normais”: o luto só pode durar duas semanas, senão é depressão; mulheres que não demonstrarem interesse sexual por seis meses possuem algum distúrbio; crianças irritáveis ou com explosões de raiva frequentes podem ser diagnosticadas com Desregulagem Perturbadora de Humor.

Isso tudo não ajuda em nada a quem precisa de mais um tempinho pra se recuperar de algo ou pra decidir o rumo da vida. E também resulta em um aumento na dependência de remédios, como o Rivotril, remédio tarja preta pra ansiedade que é o segundo medicamento mais vendido do Brasil, superando até Tylenol e Hypoglós, que podem ser comprados sem receita.

É claro que não devemos deixar de ir no médico e no psicólogo ou de tomar remédios receitados. A depressão e outros transtornos são reais e sérios, e ninguém deve se sentir obrigado a superá-los sem ajuda profissional. Mas não devemos nos deixar pressionar pela rígida “normalidade” imposta pela sociedade.

Devemos nos permitir o luto e a tristeza, a dúvida e o desânimo SIM. E definitivamente devemos nos permitir dias de ócio, de sorvete com pizza e comédia romântica no Netflix. Nós não somos máquinas, com manuais e instruções específicas pro nosso melhor aproveitamento. A única pessoa a quem a gente deve alguma coisa somos nós mesmos, e isso significa viver de uma forma que equilibre produtividade, lazer e outros sentimentos humanos como a tristeza, o amor familiar e romântico e o orgulho próprio.

E é por isso que devemos aprender a lidar com os sentimentos negativos do nosso próprio jeito, e de forma a não comprometer outras coisas importantes como a nossa saúde ou nossos projetos pessoais. Não precisa necessariamente ser do mesmo jeito pra todo mundo; nem todos vão se sentir melhores com balada ou sexo (o famoso “you just need to get laid” – você só precisa transar – dos filmes americanos, em que o pênis do cara aparentemente fez um treinamento com o Dalai Lama no Tibet pra aprender o segredo milenar de afastar todos os males).

No meu caso, a fórmula é bem simples: levanta da cama e vai fazer algo! É claro que a vontade é de ficar no quarto de luz apagada e zerando todas as listas de filmes que eu puder encontrar na Internet, ignorando o celular e os trabalhos que se acumulam. A parte difícil é justamente escapar dessa bolha segura e confortável e sair pra andar ao sol, encontrar um amigo pra tomar sorvete, ir ao cinema ver um filme sem saber nada sobre ele. Todos esses estímulos novos, imagens, conversas, sabores, e até o esforço físico e aquele cansaço gostoso depois de uma caminhada me fazem um bem tremendo e tiram da minha cabeça aquela ideia negativa persistente que não me deixava fazer mais nada.

Eu sempre, sempre, sempre volto pra casa me sentindo melhor.

Laura Athayde
  • Ilustradora
  • Quadrinista

Laura Athayde é advogada por profissão e desenhista por teimosia. Após terminar a pós graduação em Direito Tributário, em 2014, passou a dedicar-se à ilustração e ao quadrinhos. Participou de diversas publicações coletivas como o Zine XXX, Zine MÊS (outubro/14), o livro Desnamorados, Zine Amendoim e Acerca Zine, dentre outros. Lançou também dois zines individuais, Delirium e O Mundo é Um Jogo e Eu Só Tenho Mais Uma Vida, que podem ser lidos online em http://issuu.com/lauraathayde. Atualmente, desenvolve uma HQ longa de sua própria autoria em parceria com a Editora Tribo.

  • Thayse Hoffmann

    que texto maravilhoso, me identifiquei totalmente, saí de casa esse ano e me formei na faculdade e me sinto igualzinha a ti :’) muito difícil sair da bolha e ver gente, pegar sol, conhecer coisas novas. não sei muito bem como sair dessa estagnação :(

  • Rebeca

    que lindo texto, amei. Confesso que estou nessa luta pra “levantar e fazer algo”, mas acredito que o caminho seja esse mesmo!

  • http://enlear.blogspot.com.br/ Bianca Batista

    Estou vivendo isso agora. A única coisa diferente é que ainda não estou na faculdade, porém deveria ir no ano que vem, e também a minha maratona é de Jessica Jones, mas também tenho vontade de assistir How to get away with murder. Sempre quando desenho ou escrevo, um pouco só, sobre como me sinto no momento alivia bastante. Ótimo post, parabéns!

  • Isadora Zeferino

    Muito maravilhosa, Laura! Obrigada por sentar, pensar e escrever esse texto. Tenho certeza que muitas pessoas, assim como eu, precisavam ler isso agora que o ano está fechando, já que nos encontramos numa necessidade mais urgente de nos perdoarmos pra começar 2016 com um padrão mental um pouquinho mais equilibrado!

  • Gabriella Sousa

    Texto muito bom, parabéns! Fiquei um uma dúvida apenas, quando você cita “mulheres que não demonstrarem interesse sexual por seis meses possuem algum distúrbio” não pode ser algo relacionado a assexualidade? Ou seria de uma mulher que antes tinha tal interesse mas que tem o perdeu? Sei que não é o foco do texto mas por um momento pareceu algo que realmente só remete quem a alguém que tem distúrbios e não uma pessoa que naturalmente nasceu sem interesse sexual. xP

    • Marilza

      Que colocao sensata e inteligente. Nao e o foco do texto, mais ajudaria muito mais informacao a respeito.

    • http://minhajubadeleao.tumblr.com/ Amanda Argilero

      Mulheres que usam anticoncepcional ou por trabalhar de mais e ter afazeres perdem a vontade de sexo. Vejo isso bem exemplificado na minha mãe. E a psicologia bem deveria saber disso e que não é distúrbio que deva ser tratado com remédio e sim tratado retirando-se remédios. E tem também as pessoas aromanticas e sem interesse sexual algum.

  • Diego Lopes

    Maravilhoso texto, parabéns!!

  • Eva Simone Tuma Chã

    Adorei Laura. Principalmente a parte que fala da falta de uma mãe exigente pra mandar levantar e fazer as coisas. E… tarammmm… eis a solução. Alguém que te cobre. Comigo funcionou desde sempre e olha que já vou pros sessentinha. Minha mãe me cobrava e eu cobro dos meus filhos até hoje. Acho que quando tem alguém cobrando é chato, mas a gente reage, mesmo a contragosto, e depois vê que foi bom, senão a gente iria amanhecer e adormecer com o mesmo pijama, com o dedinho no controle remoto e um pacotinho de biscoito com café com leite pra não morrer de fome.

  • https://serinquieto.wordpress.com/ Valquíria Bastos

    Que texto maravilhoso <3

  • https://plus.google.com/+FelipeMartinsKazumi Felipe Martins

    Nossa, excelente! Não acontece só com você.

  • http://minhajubadeleao.tumblr.com/ Amanda Argilero

    Eu me senti assim várias vezes esse ano e ficava 1 semana por aí pra mais sem fazer nada além de navegar na net e ficar pensando. Mas uma hora tem que levantar e agir.

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A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

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