6 de agosto de 2014 | Tech & Games | Texto: | Ilustração:
ENIAC e as pioneiras esquecidas da programação
Ilustração: Jordana Andrade

Ilustração: Jordana Andrade

Durante a Segunda Guerra Mundial, estava em andamento na Pensilvânia uma equipe de pesquisa com 80 mulheres, cujo trabalho era calcular (à mão!) trajetórias de mísseis e coisas assim. Dessas 80, seis foram selecionadas para fazer parte de um projeto experimental: programar o primeiro computador totalmente eletrônico e digital. Ele ficou conhecido como ENIAC – sigla em inglês para computador integrador e analisador numérico eletrônico. Elas, no entanto, foram esquecidas. Até a década de 1990, inclusive, era dito oficialmente que as mulheres que estavam em algumas fotos do experimento eram modelos, colocadas lá para “embelezar”, da mesma forma que moças apareciam em anúncios de geladeira.

As seis mulheres eram Kathleen McNulty, Mauchly Antonelli, Jean Jennings Bartik, Frances Synder Holber, Marlyn Wescoff Meltzer, Frances Bilas Spence e Ruth Lichterman Teitelbaum. Elas foram selecionadas para programar o ENIAC, mas tinha um problema: não havia linguagem de programação, software, sistema operacional, nada. Só o esqueleto do computador, projetado pelos engenheiros de hardware (que depois ficaram conhecidos como os únicos responsáveis pela criação da máquina). Tudo o que elas tinham eram diagramas, esquemas de como as coisas deveriam funcionar.

Então precisavam descobrir como interagir com aquele computador, o primeiro do tipo, e “quebrar” as equações diferenciais que ele deveria executar, de modo a conseguir programá-lo e colocá-lo em funcionamento.

O ENIAC não ficou pronto a tempo de ser usado para a Guerra, mas ainda assim foi uma sensação na mídia quando foi divulgado. Os cálculos, que levavam até 30 horas para ser calculados à mão, passaram a ser feitos em segundos! O computador era todo manual: um monte de interruptores representando 1 e 0 (ligado e desligado, respectivamente) precisavam ser apertados manualmente de acordo com o que se queria fazer, e essa era uma das funções dessas seis mulheres.

Depois da guerra, um monte de mulheres que tinham passado a trabalhar quando os homens estavam servindo (por conta da falta de mão de obra disponível mesmo) foram mandadas para casa, pois os homens precisavam dos seus postos de trabalho de volta (e o governo que incentivava isso!). Só que as moças do ENIAC eram as únicas que sabiam como fazê-lo funcionar, e muitos dos homens daquela geração não tinham conseguido se formar na faculdade. Então, o Exército (que era quem patrocinava o programa) as queria manter como programadoras da máquina. Muitas permaneceram e, trabalhando lá, continuaram a pesquisar e contribuíram para o desenvolvimento e inovações de tecnologias e ferramentas de software.

O ENIAC abriu caminho para o desenvolvimento dos computadores, que em 60 anos passaram de toneladas e um custo de 500 mil dólares (na época, o equivalente hoje seriam alguns milhões) a menos de 2 quilos e mil dólares. Parte importante disso foi o desenvolvimento dos transístores, que substituíram os tubos de vácuo e simplificaram o processo. Mas isso é coisa pra outra matéria.

Na década de 1990, houve uma celebração do aniversário de 50 anos do ENIAC. As seis moças responsáveis por colocar o bicho para funcionar e, até então, ignoradas pela História, não foram convidadas. Mas Kathy Kleiman, uma formanda da Universidade de Harvard, desestimulada com a falta de mulheres tanto dentro do curso como em seu futuro profissional, decidiu que iria achá-las e prestar a devida homenagem.

Esse ano, no Festival de Cinema Internacional de Toronto, foi exibido pela primeira vez o documentário The Computers, que tenta resgatar a história dessas mulheres incríveis que ficaram esquecidas todos esses anos. Foram 20 anos buscando e fazendo registros orais, desde os anos 1980, para chegar no resultado final. O nome, “as computadoras”, é uma referência a como aquelas primeiras 80 mulheres eram chamadas, visto que o trabalho delas era computar os dados de todas aquelas equações diferenciais.

As moças do ENIAC tiveram, eventualmente, algum reconhecimento pelo trabalho que fizeram, mesmo que não sejam tão citadas quanto deveriam. Hoje, nenhuma delas está mais entre nós, mas enquanto eu digito esse texto no meu pequeno e compacto computador, lembro da importância do trabalho delas, e acho que elas vão mesmo é viver pra sempre.

Verônica Montezuma
  • Colaboradora de Tech & Games
  • Audiovisual

Verônica, 24 anos, estuda cinema no Rio de Janeiro. Gosta de fazer bolos, biscoitos e doces, e é um unicórnio nas horas vagas.

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