26 de junho de 2016 | Ano 3, Edição #27 | Texto: | Ilustração: Marina Sader
Então, quem quer namorar a gorda?
Pauta26-MarinaSader

Outro dia, conversando com uma amiga gorda sobre adolescência e namoricos, confessei algo que hoje acho terrível: antes, quando eu gostava de alguém, me imaginava com a pessoa, criava cenas e situações de nós juntos, ou seja, sonhava acordada, assim como todo mundo fazia, né. Até aí tudo ótimo. Só que em todas essas fantasias eu não era eu; eu era uma versão magra de mim. A fantasia nunca acontecia no presente, mas dali a alguns meses, que seria o tempo de eu emagrecer. Toda vez que lembro disso tenho vontade de voltar no passado e abraçar a minha eu adolescente. Para minha surpresa, a minha amiga disse que fazia a mesma coisa. Conversei com outras amigas gordas e elas admitiram o mesmo. Aí concluí que nem na nossa imaginação, nós, mulheres gordas, somos livres para amar e sermos amadas.

Primeiro de tudo: namorar, achar um par, a cara metade e essa coisa toda que crescemos acreditando, não é necessariamente a verdade absoluta. Namorar não é sinônimo de felicidade. A única pessoa que pode validar você, que “te completa”, “que pode salvar você” e que tem obrigação de te amar é você mesma. O amor próprio é o mais importante de tudo e um dos mais difíceis, ainda mais quando você é gorda ou fora de qualquer padrão. A gordofobia agride a gente todos os dias, ela está ao nosso redor o tempo todo, e se manter acima disso, conseguir passar por cima e ser feliz com você mesma do seu jeito é muito difícil, porém, fundamental. Dito isso, podemos, sim, ter desejos, vontades e sentimentos. Temos todo o direito de querer afeto. Independentemente da ideologia romântica que nos é enfiada goela abaixo, afeto é bom, é gostoso e se você quer ter isso, você tem todo o direito do mundo de alcançar esse objetivo, não importando o tamanho do seu corpo. Mas aí surge a pergunta: quem quer namorar a gorda?

Eu já ouvi mais vezes do que eu gostaria, inclusive da boca de amigos, a seguinte frase: “nada contra, mas eu não curto ficar com gordas, é uma questão de gosto, sabe?”. Galera que fala isso, deixa eu explicar uma coisa: o seu gosto não vem do nada, ele não é natural. Você não nasce só com vontade de pegar gente no padrão, esse padrão é construído. Crescemos achando o corpo gordo feio, indesejável, tendo uma neurose absurda de sê-lo. Isso é tão naturalizado que vocês falam “ai, não posso engordar”, “estou tão gorda, que péssimo” na frente de pessoas que de fato são gordas como se isso não fosse uma ofensa; como se falar “olha que bosta, meu corpo está ficando igual ao seu, quero morrer” fosse tranquilo e não vá afetar de modo algum quem está te ouvindo. Aí você quer virar pra mim e falar que não pega gente gorda por uma questão de gosto? Faça-me o favor.

Mais uma questão para refletirmos: vamos supor que o sujeito magro seja descontruído e passe por cima disso, mas ainda existem as pessoas em volta de vocês, a piada dos amigos, a reclamação da família, o preconceito nos olhares, e por aí vai. É bem impressionante como o amor é condicionado. Ele só é válido se for de uma tal forma, de um tal jeito, e a felicidade que é constantemente associada ao amor só alguns merecem ter. Porque, no fim das contas, essa é sempre a raiz do problema: os gordos não podem ser felizes nunca. Isso invalida a ordem das coisas no caminho para o pote de ouro da felicidade: só pode magra. Uma gorda feliz consigo mesma? Não pode, a gente vai oprimir até ela voltar a se odiar e querer entrar na fila da felicidade dos magros de novo. Demorou muito tempo para eu entender por que eu não conseguia transar com ninguém; por que tirar a roupa e ficar nua na frente do outro era tão assustador; por que ficar vulnerável era um risco diferente para mim; por que ir em uma boate e ficar sozinha em um canto enquanto todos os meus amigos estão com alguém não é minha culpa; por que não ter ninguém igual a mim em lugares assim não é coincidência; e, principalmente, por que eu mereço mais do que alguém que tenha vergonha de mim, e por que um relacionamento maduro e saudável é o mínimo aceitável. Migalhas nunca mais.

É importante lembrar que mesmo nós, gordos, não estamos imunes à visão gordofóbica das coisas. Ela é muito forte no mundo em que crescemos e vivemos. Até conhecer e me apaixonar por um gordo, eu de certa forma também torcia o nariz e me sentia nadando na hipocrisia. Óbvio que as atrações existem e não conseguimos criar uma onde não tem, mas dá para abrir a cabeça um pouquinho, cogitar pessoas e não as mandar direto para a pilha de pessoas impossíveis. É só dar uma chance para as coisas acontecerem; eu fiz isso e tive um relacionamento ótimo, até descobri que me sinto muito mais à vontade e confortável me relacionando com pessoas gordas.

Para mim, o amor é tão maior do que achar ou não uma pessoa bonita. Se apaixonar por alguém não é só se apaixonar pelo seu corpo, é se apaixonar pelo seu jeito, sua visão de mundo, seus pensamentos, sua risada. É tão mais coisa, e nós, gordas, não somos só o nosso corpo, somos pessoas completas e interessantes com muito a oferecer para os nossos companheiros. Porém, é sempre bom lembrar que não somos interessantes “apesar” de sermos gordas. Ser gorda faz parte do pacote e é lindo, porque isso faz da gente a gente. Para fechar, vamos recapitular que a primeira coisa mais importante de tudo é a gente se amar; a segunda é a gente se amar, e a terceira é sim, nós merecemos o amor que a gente quer e que nos faz bem, felizes e saudáveis, porque o amor é livre e é para qualquer um.

Ilustração por Marina Sader a partir de foto do Projeto Cada Uma da modelo Jacqueline Jordão.

Dani Feno
  • Coordenadora de Audiovisual
  • Colaboradora de Cinema & TV
  • Colaboradora de Música

Dani Feno, 26 anos. Quando era criança foi ao cinema ver Rei Leão a primeira vez e se apaixonou por essa coisa de ver filmes. Mais velha viu um seriado chamado Clarissa e pronto, a paixão passou para seriados também. Foi tão forte que agora trabalha em uma finalizadora de filmes e programas de TV, mas o que gosta mesmo é de editar vídeos para Capitolina. Gorda e feminista desde criança também (apesar de só saber que é esse o nome há pouco tempo). Acha que a melhor banda do universo é Arcade Fire e pode ficar horas te convencendo disso. Em Hogwarts é 70% Corvinal e 30% Grifinória.

  • Luíza Lacerda

    Me senti abraçadinha ♥

  • Camila Lopes

    Passei por isso na adolescência e as migalhas são quase um prêmio. Mas o mais triste foi me ver retratada no texto na posição de quem ainda se odeia. Mesmo sentindo atração por homens gordos, quando tive um namorado “no padrão” me sentia mais integrada socialmente, embora a química física estivesse longe de ser a melhor de todas. Acho que, quando se é “fora do padrão”, especialmente na adolescência, as marcas são profundas demais e os distúrbios de autoimagem são difíceis de vencer. Gostei muito de ler e de levar esse tapa pra aprender a respeitar as pessoas ao meu redor.

  • Fernanda Gomes

    Olha, vou confessar: até hj fantasio não sendo eu mesma. Na adolescência eu era magérrima mas negra e pobre. Fantasiava que eu era branca, rica e linda e todos os garotos me amavam. Envelheci, passei dos 30, engordei horrores e fantasio que sou magra, lindona com o cabelão crespo mas magra! Eh tipo, o amor só virá se eu for uma versão muito legal de mim mesma. Um horror mas eh um padrão tão difícil de quebrar!

  • Fernanda Meleiro

    A primeira parte do texto, que diz que se imaginava com alguém, mas se imaginava magra isso aconteceu muito comigo, e só me dei conta nesse exato momento em que li isso. Nunca nos meus pensamentos de adolescente eu me imaginava com alguém sendo quem sou, mas sim magra, aceita… é meio estranho sentir isso, mas se eu pudesse voltaria no tempo e me abraçaria.

  • Hellen

    Tenho 25 anos, funcionária pública, bem sucedida, feliz com o meu corpo e feminista desde crianca, descobri o termo bem cedo pelas mulheres incríveis da minha família. Sou casada a menos de 1 anos e quando as pessoas o conhecem a espantam, já chegaram a falar comigo que não acreditava que ele se casou comigo porque ele é magro… lastimável certas pessoas possuírem uma amendoa no lugar do cérebro, rs. O importante é o amor próprio, e sim minha saúde está excelente!!!

  • Shade Andréa

    Duas considerações:

    Além dos “caras desconstruídos”, existe um outro espécime que adora gordas.. É aquele que bate horas de papo com a gorda, troca mensagens, diz que ela é linda, divertida, que quer sair com ela.. e essas saídas são sempre “venha na minha casa”, vamos ali no motel, bora dar uns amassos no carro. O problema pra esse cara não é o desejo, mas sim sair de casa, segurar na mão da mina e dizer pra todo o mundo “sim, eu to com ela mesmo e não é só como amigo”.

    Ahhh, será mesmo que gordas só seram felizes e completas com gordos!? Acho q rola uma certa “auto-defesa” aí. Bom mesmo seria a gente se relacionar sem olhar isso.

  • Eduardo Dias

    Primeiramente não quero pagar de “desconstruído”, quero apenas relatar a minha experiência pessoal.
    Tive alguns relacionamentos sérios em minha vida e os que eu mais pude guardar boas lembranças foram os com garotas gordas, igual a mim. Como em todos os meus relacionamentos as coisas simplesmente aconteciam. Nunca me preocupei com o que os outros diriam, mas sempre escutava piadas sobre o fato delas serem gordas e não seguirem um certo padrão de beleza. Cada uma delas me fez imensamente feliz no tempo que estivemos juntos.
    Acredito que a maior falha das pessoas é buscar um relacionamento e começar a ficar com as pessoas apenas pela aparência. De fato isso possui uma certa importância, mas não chega a ser 10% quando se trata de escolher alguém para deixar que ela entre em sua vida.

  • Marina Vieira

    Na sua imaginação e na das demais, os seus parceiros (homens ou mulheres) eram magros tb? Já ouvi de amigas gordas que, “Deus me livre”, jamais pegariam um gordinho! Queria saber como funciona isso pra vocês.

    (espero não ter ofendido ninguém com minha pergunta)

  • Pingback: “Então, quem quer namorar a gorda?” – Frente Feminista de Porto Velho()

  • Patrícia Nobre

    Imagine como é ser feia e magrela, mas magrela mesmo? Sem bunda e com buço? E pobre? Você é invisível, acaba invisível até para si mesmo. Tanto quando gordofobia, existe feiofobia. Quem não nasceu próximo a um padrão mediano de aparência tem um longo caminho a percorrer para se aceitar e achar uma forma de expressar beleza, a sua beleza, que nunca será igual a massificada. Pode acabar sofrendo de dismorfofobia, que é horrível, sei de cadeira.

  • Nathália Alcântara

    Gostei! <3

  • http://www.toad.com.br/ Matheus Gonçalves

    Falando do ponto de vista de quem vive brigando com a balança e que já foi muito magro e muito gordo: sempre me senti atraído por mulheres gordinhas. E sempre fui criticado por isso pelos meus conhecidos por ser assim. Nada contra garotas magras, é bom que fique claro. Hoje em dia pra mim o que importa é a pessoa, sua personalidade, seus gostos, muito mais do que seu físico.

    Ainda assim, por ter sido gordo a maior parte da minha vida, ja pensando nesse assunto por muito tempo. Por exemplo: será que esse padrão é única e exclusivamente social? E, mesmo se for, qual a origem desse traço social?

    Do ponto de vista científico, existem alguns estudos que indicam que a preferência se dá por um fator evolutivo, no qual pessoas magras, em geral, representarem pessoas mais saudáveis, jovens e férteis.

    Tá em inglês, mas vale a leitura: https://www.abdn.ac.uk/news/8098/

    Obviamente isso variava bastante em sociedades na qual a fome era algo presente no dia a dia das pessoas, e assim uma pessoa mais corpulenta representava alguém socialmente mais saudável, ou rica, ou atraente. Mas existe um padrão estético cujas origens datam de muito, mas muito tempo atrás, e esses fatores precisam ser levados em consideração.

    Nunca “culpei” as garotas magras que me deram fora, afinal apesar disso incomodar bastante, só elas podem argumentar sobre os próprios gostos, tenha isso a origem que tiver.

    Acredito que uma sociedade menos machista e com menos objetificação da mulher já ajudaria bastante a quebrar essa ideia de que “mulher precisa ser magra pra ser bonita”.

  • Antonella Fioroni

    Hello Dani!
    My name is Antonella. I´m sorry I´m choosing to write in english, I read portuguesse but I´m terrible writing it.
    First of all, your article really touched me.
    I´d like to ask ypur permission to translate this article into spanish and share it in a blog about different perspectives, linking it to the original source. PLease let me know, I´d be really grateful!!

  • Pingback: Y entonces ¿Quién quiere salir con la gorda? – Tan distintos e iguales()

  • Kcal GorDiva

    Parabéns Dani! Mais um texto maravilhoso que necessito compartilhar. Foi emocionante e inspirador e empoderador!
    Bjs gordos!

  • HeyGabu

    Puts, eu sempre me imagino magro. =/ … Meio cabeludo também… um pouco mais alto…
    Ok, estou ficando deprimido, haha.

    Eu sempre achei gordinhas lindas, por sinal! Uma menina que dá vontade de sair pra comer, que é divertida, carinhosa, apaixonada, os melhores amores que eu já tive foram com gordinhas e provavelmente os piores foram com pessoas magrelas.
    Não que eu ache que gordura influencia personalidade, mas ficar a margem influencia sim, a baixa auto estima influencia SIM, e falo isso como alguém que viveu isso durante toda a vida. Aprendi a ser mais respeitoso com os outros, mais empático as dores alheias e dar mais valor aos amores que cruzei acho que, principalmente, por ter sido um menino gordinho quando jovem – e ainda sou um tanto, rs.

    Bom, otimo texto! Um beijão!

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A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

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