17 de julho de 2015 | Ano 2, Edição #16 | Texto: | Ilustração: Lila Cruz
Entre contar ou esconder tudo, escolha fugir da falsa dualidade

Por mais oversharing que você pratique e por mais aberta que seja, todo mundo gosta de privacidade em determinados momentos e para tratar de certos assuntos da própria vida. Mas, mesmo que quase todo mundo no planeta concorde sobre a importância da privacidade, ela é geralmente negada para adolescentes, principalmente para meninas.

É só prestar atenção para o fato de que quase todas nós já tivemos que pensar em mil formas de não lerem nossos diários, de esconder nossas conversas no facebook e no whatsapp (na minha época, no saudoso MSN), de arranjar um lugar improvável para guardar as cartas de amigos e amores que recebemos de vez em quando. E a gente faz tudo isso com uma certa culpa, como se tivéssemos uma vida dupla, como se não pudéssemos fazer essas coisas escondidas dos nossos pais e que, portanto, se fazemos mesmo assim, só podemos ser pessoas horríveis. A gente esquece que todo mundo já passou por essa fase, quando se descobre os sentimentos, a sexualidade e a cumplicidade. Que pai, mãe, irmão e vó já tiveram um primeiro amor, piadas internas com amigas, saídas clandestinas escondidas dos pais, e que, então, por mais que você possa sim esconder essas coisas se quiser, é no mínimo bem hipócrita da parte deles nos fazer sentir vergonha de estar vivendo-as, quando decidimos vivê-las abertamente, e que geralmente eles querem que nós sintamos vergonhas porque essa é uma boa forma de fazer com que nós viremos “mulheres que se dão ao respeito”.

Sempre achei estranho que algumas amigas minhas contassem tudo (t-u-d-o) para as mães delas. Na minha casa era meio que uma regra geral que cada um vive sua vida e ninguém mete o bedelho na do outro, meio que um “não sei e não quero saber”, que funcionava pra gente, ainda que tenha causado um sentimento de abandono em todos nós, assim como as outras formas de conviver também têm suas desvantagens. Considerando isso, eu me pergunto: minhas amigas foram mais felizes do que eu? elas tiveram uma adolescência mais plena? o fato de os pais delas quererem saber mais sobre a vida delas do que os meus faz deles pais melhores? E refletindo sobre isso eu só consigo pensar em chegar em um certeiro e sonoro NÃO.

Famílias funcionam de formas diferentes. Pais têm diferentes ideais na criação dos filhos. Pais tem diferentes cargas de trabalho e, portanto, mais ou menos tempo livre. Filhos podem ser extrovertidos ou introvertidos. Filhos podem ter coisas mais ou menos espinhosas para dividir. É diferente para uma menina dizer para os seus pais que está gostando de um menino ou se de uma menina. É mais difícil falar sobre o seu dia quando se tem depressão e medo de parecer louca, porque é isso que foi construído no imaginário das pessoas: a ideia de que quem tem a cabeça funcionando de um outro jeito que não o considerado “normal” é louca, e que ser louca é uma coisa ruim.

Ou seja: o ato da comunicação não é pura e simplesmente o ato da comunicação, ele depende de mil variáveis que permitem ou não que ele ocorra de forma tranquila. Por isso eu acho tão bizarro quando as pessoas dizem que temos que contar tudo para os nossos pais. Não, não temos! Temos que contar o que nos sentimos confortáveis para contar, o que temos pelo menos um pouco de certeza que vai ser razoavelmente bem recebido, o que não vai deixar uma situação que talvez já esteja ruim, pior ainda. Não precisamos nos agredir e nos colocar em situações constrangedoras gratuitamente em nome de uma suposta necessidade de ser um livro aberto. Não precisamos ser livros abertos. Temos direito à nossa privacidade e ao nosso tempo de amadurecer coisas em nossas cabeças antes de sair espalhando-as aos quatro ventos. Temos direito de decidir viver da melhor forma possível.

Contudo, ter o direito de não contar certas coisas não quer dizer que a gente não precisa contar nada para os nossos pais. Acho que um equilíbrio saudável está na linha entre 1) o que achamos que pode gerar um problema familiar, e 2) o que deixa nossos pais preocupados por não saberem. Por exemplo: Você está ficando com um garoto e, quando sai com ele, costuma voltar bem tarde. Isso faz com que a sua mãe fique preocupada, por não saber com que você está até tão tarde. Vale a pena pensar se não é melhor contar logo que você está saindo com esse menino, para que ela fique despreocupada, ainda que isso possa gerar algumas perguntinhas chatas nos jantares de família. Por outro lado, a situação mudaria um pouco se você estivesse saindo com uma menina e seus pais fossem pessoas que não aceitariam essa ideia muito bem. Nessa situação, e eu insisto muito nisso, vale a pena sim inventar alguma desculpa e se poupar de um caos desnecessário gerado graças a uma intolerância injustificada e preconceituosa.

Basicamente, o que eu acredito é que nós não devemos tentar nos encaixar na caixinha da “garota que é totalmente um livro aberto”, o que pode gerar consequências ruins desnecessárias, nem na caixinha “garota misteriosa que não conta nada sobre a vida dela”, que pode gerar uma barreira que dificulta o estreitamento de laços afetivos, e gera insegurança nas pessoas próximas. Ninguém se encaixa totalmente em nenhuma dessas categorias porque nós não somos personagens mal construídas de um filme meia boca. Nós nos sentimos confortáveis para tratar de certos assuntos com certas pessoas, e não nos sentimos bem tratando de outros assuntos com as mesmas pessoas. E é assim que tem que ser. Nós somos humanas, e tudo vai ficar mais fácil quando abraçarmos nossa humanidade, o que significa abraçar nossos erros, virtudes e medos, e entender que podemos sempre quebrar barreiras, mas que isso não acontece de uma hora para outra e nem deve ser imposto de fora para dentro.

Finalmente, a Tais já disse aqui muito do que eu gostaria de dizer. É só quando entendermos que, para sermos inteiras, não precisamos nos encaixar em papéis criados por uma sociedade que pensa que mulheres vêm de formas prontas de fábrica, e que não existe mais que cinco ou seis tipos de forma, que conseguiremos encarar nossos conflitos de uma forma mais serena e sábia, com a certeza de que o nosso bem-estar é muito importante sim, e que todas temos o direito a uma vida vivida com a nossa personalidade, seja como ela for.

“O problema se torna insuportável quando nós, garotas, romantizamos nossas próprias existências tentando caber em determinados papéis. Eu já fiz isso. É assustador sofrer crises de ansiedade e depressão por muitos motivos. No meu caso, um deles é porque eu pensava que, se alguém realmente soubesse como eu me sentia, nunca poderia me amar. Não achava que era possível alguém me querer inteira, então tentava transformar a parte que doía em acessórios. Eu encarava meus conflitos como algo que precisava dissimular e, quando não conseguia fugir de mim mesma, sentia que seria sempre dominada pela minha pior parte. Só consegui começar a ser inteira quando entendi que não preciso ser uma mulher adorável e interessante, porque eu sou uma pessoa e posso ter falhas e limites psíquicos – que dizem respeito exclusivamente a mim e a mais ninguém.”
Tais Bravo

Natália Lobo
  • Coordenadora de Ciência
  • Colaboradora de Culinária & FVM

Natália tem 20 anos, casa em dois lugares (ou em lugar nenhum, depende do ponto de vista), gosta de fazer e de falar sobre comida, é feminista desde que se entende por gente.

Sobre

A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

Arquivos