3 de dezembro de 2014 | Tech & Games | Texto: | Ilustração: Dora Leroy
Entre eReaders e livros: uma relação de paixão e receio

Quando o primeiro eReader saiu no mercado a minha postura foi extremamente conservadora.

O livro, para mim, não era apenas um objeto que abrigava histórias. O livro tinha cheiro próprio – quem nunca enfiou o nariz entre as páginas e deu aquela fungada maravilhosa? O livro tem seu peso próprio. Por isso, durante muito tempo, leitura de férias significava pegar aquele livro gigante que eu tinha comprado havia séculos, mas não tinha tido oportunidade para ler porque deixava a mochila muito pesada. O livro tem idade: comprar em sebos te possibilitava achar aquela capa, aquele formato, de anos atrás; comprar em sebo significava poder encontrar o livro com a sua capa original e não aquelas horríveis que traziam imagens do filme recém-produzido (um pouquinho de mim morreu quando a capa de A Bússola de Ouro foi substituída); e comprar em sebo possibilitava achar, entre as páginas, algumas mensagens de uma pessoa que pegou naquele livro um dia, leu algo e achou interessante ou deu de presente para alguém amado (ou odiado, ou indiferente – o livro é, afinal, o presente perfeito para qualquer um).

A chegada do eReader significava a destruição de todas essas ideias românticas que nós tínhamos sobre os livros. Eu o romantizava (romantizo) muito como objeto e olhe lá quem ousasse destruir esse pequeno prazer da vida.

Mas isso tudo foi para dizer que, hoje em dia, eu leio em eReader, e muito.

Diferente de um tablet, que tem as suas 1001 incríveis utilidades, o propósito do eReader não é ser multifuncional: a sua função é a leitura, é substituir o nosso querido e trágico (quanto mais livros, mais papel, quanto mais papel, menos árvores) livro-objeto.

A grande magia do eReader, que o diferencia de computadores, celulares e tablets, é a sua tela feita de papel eletrônico. E o que raios é esse papel eletrônico? Bom, diferentemente das telas que nós estamos acostumados, os eReaders utilizam da tecnologia para tentar imitar a aparência de tinta no papel. Ao invés de emitir luz, essa tela especial reflete luz, igualzinho a um livro de verdade. Graças a isso, ler não se torna uma atividade cansativa e exaustiva; nossos olhos agradecem.

Para auxiliar na leitura, os eReaders possuem alguns mecanismos práticos e úteis. A maioria deles garante algum tipo de medidor de páginas, geralmente uma barrinha indicando a quantidade (em porcentagem) que falta para o livro acabar. Então, se você é ansiosa igual a mim, e deixa o ritmo de leitura ser influenciado pelo número de páginas que faltam para acabar, não fique aflita.

Muitos deles também possuem uma ferramenta para alterar a fonte: se a Times New Roman te incomoda ou a letra está pequena demais, um clique e tudo isso é livremente manipulável. Em um mundo em que o número de pessoas que precisam de óculos para ler sobe e o tamanho da fonte em livros impressos diminui, manipular as condições de leitura para o seu conforto individual é uma grande salvação.

Alguns possuem uma ferramenta para grifar partes do texto, logo, nada de riscar aquele livro querido e sujá-lo todo de grafite. E, por fim, alguns tem dicionários grátis (ou bem baratinhos) para download, então tá liberado ler livro em alemão, em inglês, em espanhol e em português sem carregar o mundo nas costas.

Decidir se vale a pena comprar um eReader é uma questão de ideologia. Por um lado, nós temos o livro-objeto: capas maravilhosas, edições maravilhosas, cheiros gostosos, poder sentir o número de páginas; ou… capas horríveis, edições horríveis, uns cheiros péssimos, livros realmente superpesados, ter que escolher o que levar na mochila, além de ser uma ameaça à carteira alheia. Por outro lado, nós temos os eReaders: fontes facilmente manipuláveis, praticidade mil, peso zero, risco nenhum de capas ou edições feias, o aparelho é uma graninha mas os eBooks são bem mais baratos (além de muitos serem gratuitos); por outro lado, eles não têm capa, não têm cheiro, não têm estantes navegáveis e livros folheados.

Escolher entre o livro e o eReader é escolher entre a tradição e a modernidade. A tradição é cheia de história e sentimento. A modernidade é bem mais prática. As duas são conciliáveis. Eu nunca perdi essa ideia romantizada do livro, mas eu cedi ao eReader por questões práticas. Pessoalmente, acho que ficar preso à tradição nunca é saudável, mas se modernizar demais e perder a essência das coisas é igualmente ruim. Nesse caso especifico, um não é melhor que o outro. O medo da destruição do livro-objeto está em um futuro muito, mas muito, distante; por enquanto, as pessoas ainda não se transformaram em robôs e os pequenos prazeres que o livro nos traz (além do conteúdo em si), ainda reinam pelo mundo editorial.

 

Dora Leroy
  • Coordenadora de Quadrinhos
  • Ilustradora

Dora Leroy tem 21 anos e acredita que o universo é grande demais para não existir outras formas de vida inteligente por aí. E, enquanto espera uma invasão alienígena acontecer, gosta de ler livros que se passam em universos mágicos e zerar séries do Netflix.

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A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

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