12 de abril de 2014 | Edição #1 | Texto: and | Ilustração: Clara Browne
Entre escola e faculdade: o que muda?

No Brasil, o Ensino Fundamental é um direito constitucional. Só que nós sabemos que todo mundo espera que sejam completos, além dos 9 anos do Ensino Fundamental, também os 3 do Ensino Médio e, se tudo der certo, pelo menos mais uns 4 de um curso superior. E, nos três últimos anos antes da faculdade, somos bombardeadas de informações sobre o que é e o que não é esse novo mundo, como alcançá-lo e o que esperar quando chegarmos lá. Mas o que difere tanto a faculdade da escola?

Pra começo de conversa, somos nós quem fazemos a maior parte das escolhas. É o ponto em que nos separamos de um ensino padronizado – em que temos uma visão geral de diversas áreas do conhecimento, igual ao de todos os nossos colegas – para um ensino mais particular, focado em uma área específica. Isso significa o começo de uma fase em que a maioria das decisões está exclusivamente em suas mãos. Na faculdade é você quem escolhe parte das disciplinas nas quais irá se matricular e também é quem resolve qualquer problema que possa acontecer. É uma estrutura completamente distinta do colegial, pois a grade de matérias não é totalmente fixa, o material das aulas não está disponível em um livro definido, mas são vários textos (que, na maioria das vezes, você vai precisar procurar por conta própria) e os professores são menos acessíveis do que no colégio. Por conta disso, de sermos independentes nessas escolhas, acaba que a transição entre escola e Ensino Superior se torna também uma transição entre ser tratado como o filho de seus pais e como um indivíduo por si só.

Algumas mudanças que parecem sutis fazem toda a diferença. Por exemplo, na faculdade você não precisa usar um uniforme. Esse tipo de liberdade é maravilhosa, pois assim você pode usar as suas roupas, o que te deixa mais confortável e feliz consigo mesma – sem dúvida um marco de independência. Porém, não deixa de ser uma responsabilidade e, em alguns dias de preguiça ou pressa, você pode sentir saudades da simplicidade de um uniforme definido.

Também há novidades que são mais transformadoras. A maioria de nós estuda ou estudou em colégios que ficam próximos às nossas casas, de forma que, muitas vezes, começar a faculdade pode significar atravessar toda a cidade e conhecer novas áreas. Isso sem contar quem resolve estudar em outra cidade em busca de melhores faculdades! Nestes casos, é o início de uma vida completamente nova, pois é preciso lidar com os desafios de morar sozinha e longe da sua cidade natal. É um outro nível de independência e responsabilidade, mas sem dúvida é o tipo de experiência enriquecedora que te ajuda a amadurecer rapidamente.

Para não se sentir muito desamparada em meio a tantas mudanças é preciso aproveitar as oportunidades do ambiente universitário e fazer novos laços. Neste momento, os veteranos de seu curso podem ajudar bastante. Eles já passaram exatamente pela mesma situação que você e por isso podem dar bons conselhos. A Mônica Vargas, que tem 17 anos e é caloura de Psicologia na UFMG, diz que socializar é extremamente importante. Ser amiga de seus veteranos significa ter alguém pra mostrar, na prática, que o desespero de ser calouro é algo passageiro e que logo você se habitua! Os veteranos podem te apresentar o campus e seus arredores, repassar as xeroxes de textos que não vão mais usar, além de dar dicas de como cada professor se comporta. Por outro lado, seus novos colegas dividem com você o mesmo status de recém-chegado, o que já é, além do curso, mais uma coisa em comum. Vocês vão passar mais tempo juntos, e encarar os mesmos desafios. Quem sabe não surge uma amizade ao se estudar para uma prova particularmente difícil ou tentar descobrir onde fica determinada sala?
Fazer novos amigos na faculdade é importante não só por essas questões práticas, mas principalmente pela oportunidade de entrar em contato com realidades diversas. É importante ressaltar que nem todas as pessoas do seu curso serão parecidas. Os motivos que levaram cada um a escolher aquela graduação podem ser extremamente variados, o que significa que nem todo mundo terá a mesma opinião sobre os mesmos problemas, se vestirá do mesmo jeito, ouvirá as mesmas músicas e lerá os mesmos livros (bem, tirando os do curso). Além disso, como as disciplinas são abertas para alunos de outras graduações, o trânsito de pessoas é muito mais intenso do que na escola. Isto possibilita muitas novas amizades, e muitas opiniões interessantes durante as discussões em sala de aula. E, exatamente por conta desse tipo de troca de experiências que é muito importante circular e conhecer pessoas em seu novo ambiente de estudo.

Isto não significa que tudo o que você viveu até o momento de adentrar os portões da faculdade vai ser esquecido. A partir de então, alguns amigos antigos continuam, outros vão embora, e você pode se surpreender com quem fica na sua vida ou não. Vocês não vão se ver mais todo dia, mas quando se encontrarem vão ter experiências completamente diferentes para compartilhar. Isto pode ser bom: aumenta o repertório de vivências de cada um, e quem sabe não influencia seus antigos e novos colegas a se tornarem amigos também? Mas pode ser ruim, à medida que envolve lidar com realidades que agora são completamente diferentes da sua.
A vida universitária está longe do ideal que os filmes e séries nos contam, pois também envolve responsabilidades e desafios. No entanto, isso faz parte de seu extremo poder transformador e não diminui todas as novas possibilidades de diversão e amizades. Um exemplo disso é a Maria Clara Rapozo, que acabou de entrar no curso de Biomedicina na UFRJ e contou para a Capitolina como tem sido a sua experiência:

“Depois de um ano desgastante e intenso, não há nada mais gratificante do que falar: passei. Depois dos finais de semana perdidos fazendo simulados, depois dos longos dias no colégio, ver que todo seu esforço valeu a pena é algo sem preço. Tenho 17 anos e sou caloura de Biomedicina na UFRJ. A faculdade é totalmente diferente da escola. Não tem o porteiro do bom dia nem o inspetor que fica enchendo o saco quando você demora pra entrar em sala. Muito menos professores chamando atenção ou colocando aluno pra fora de sala, apesar de que os que já tive, até então, foram super atenciosos para fazer com que a turma entendesse a matéria (sempre me falaram que isso não acontecia com os professores da faculdade). Além disso, não tem material/apostila e os livros são, na maioria, bem caros. Então, tem que correr atrás de pdfs ou tirar Xerox de livros na biblioteca. Confesso que isso não foi problema no meu caso, pois os veteranos disponibilizaram grande parte do material e sempre estão dando dicas de como são as provas, os professores e tudo mais. Falando nisso, antes de entrar na faculdade tinha uma certo receio dessa relação veterano-calouro, por sempre ter ouvido em jornais sobre trotes violentos e essas coisas. Mas, felizmente, me surpreendi nesse sentido, e o trote foi muito divertido e eu ganhei muito mais do que apenas veteranos. Outra mudança que ocorreu foi em relação ao deslocamento. Era habituada a ir e voltar andando pra escola, o que agora não tem a mínima condição de acontecer. Pegar dois ônibus lotados, um trânsito infernal pra ir e voltar… Acho que essa, até então, foi a pior parte: se acostumar com essa rotina cansativa de um turno integral com o trânsito do Rio de Janeiro. Chegar em casa querendo descansar e ter que virar a noite pra conseguir estudar pra prova do dia seguinte, sabendo que vai ter que acordar cedo e enfrentar mais um dia de correria. Entretanto, saber andar por outros lugares e sair do mundo que antes baseava-se no seu bairro é algo que está me proporcionando um grande crescimento. Começar a se tornar independente, se tornar mais madura e ter mais responsabilidade – por bem ou por mal – sabendo que se você deixar de fazer algo a única pessoa que sofre com as consequências é você – e seu futuro. A partir da graduação você começa a estudar o que gosta, ver na prática para trabalhar naquilo que sempre sonhou, além de formar grandes amizades que parecem que existem há anos. Sempre vi as pessoas se formando no ensino médio, entrando na faculdade e isso sempre pareceu tão distante. É estranho perceber que agora é a minha vez, que tudo mudou e só tende a ser diferente do que um dia já foi rotineiro. O futuro nunca foi tão próximo”.

Beatriz Rodrigues
  • Colaboradora de Ciências
  • Colaboradora de Estilo
  • Colaboradora de Saúde

Bia Rodrigues ou só Bea tem 19 anos, é mineira, estudante de Farmácia e adora fatos inúteis. Se tivesse que comer só uma coisa pelo resto da vida, escolheria batata. Ainda não acredita que conheceu outras meninas da Capitolina. É 60% Corvinal e 40% Sonserina.

Taís Bravo
  • Colaboradora de Escola, Vestibular & Profissão
  • Colaboradora de Artes
  • Vlogger

Taís tem 25 anos e passa os dias entre livros, nas horas vagas dá lições sobre selfies para Kim Kardashian e aprende sobre o que foi e não quer ser com Hannah Horvath. Feminista deboísta, acredita no poder das sonecas, das migas e do mar acima de todas as coisas.

  • Nathália Do Vale

    Amei o texto, Bia! Ainda não entrei pra faculdade ainda (2015, aí vou eu!), mas só de ter me mudado para uma escola que me obriga a usar o transporte público pra chegar lá já senti um pouco dessa “independência” que você menciona no texto. Sair daquela zona de conforto na qual você podia acordar em cima da hora e mesmo assim chegar a tempo, ligar pro pai/mãe/irmã para trazer aquele trabalho que você esqueceu… Fora as amizades novas que fiz, parece que conheço aquelas pessoas há anos. Se tudo isso aconteceu no último ano do EM, mal posso esperar pela faculdade!

    • http://nonsensewelike.tumblr.com Beatriz Rodrigues

      Ai, Nath, obrigada! Eu divido os créditos com a Taís Bravo, então parabenize-a também haha. Ficamos muito felizes de você ter gostado. E é uma correria, né? Você passa a depender de umas outras mil pessoas ao mesmo tempo em que só depende de si mesma, então é bem confuso haha! Espero que dê tudo certo pra você :3

  • Ananda Maciel

    Também sou caloura e meus amigos que ainda não entraram na facul costumam me perguntar se muda muita coisa, daí eu fiz uma lista mostrando as principais diferenças:

    http://www.anandamaciel.com/2015/05/diferencas-faculdade-x-escola.html

    Seu texto ficou bem completo mas o interessante é que você falou coisas diferentes do que tem na minha lista, então achei válido compartilhar. 🙂

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A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

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