25 de abril de 2015 | Relacionamentos & Sexo | Texto: | Ilustração: Beatriz Leite
“Entre quatro paredes vale tudo” pra quem?

As nossas relações são sempre influenciadas por uma construção social que cria um padrão do que cada pessoa deve ser e fazer. Para relacionamentos heterossexuais, a mulher deve ser e agir de um jeito, o homem de outro. Em relacionamentos não heterossexuais, tentam nos encaixar nesses tais padrões homem-mulher. Não é raro ouvir a pergunta inconveniente: “Mas quem é o homem/a mulher da relação?” Fato é que não dá pra criar padrões nas relações humanas. Somos únicos e vamos agir de forma única, sempre. Mas e na hora do sexo? “Entre quatro paredes vale tudo”, dizem por aí. Vale tudo pra quem? A forma como lidamos com o sexo também é construída pela nossa sociedade, uma sociedade baseada no sistema patriarcal, e é influenciada diretamente por aqueles papéis de gênero nas nossas relações. A mídia, os filmes pornô e o que nos ensinam desde a adolescência são elementos externos que constroem como vivemos a sexualidade.

Quando começamos a descobrir a sexualidade e o prazer, já se inicia a diferença entre os gêneros. Os meninos falam sobre sexo abertamente e são totalmente incentivados à masturbação. Por outro lado, saiam da sala as meninas que estiverem quando o assunto for sexo! Para elas, se tocar e sentir prazer é algo totalmente condenado. Mesmo com o tempo passando e tendo uma vida sexual ativa, a masturbação feminina continua sendo um tabu. Em vez de incentivar a mulher a conhecer o seu próprio corpo, a saber como sentir e como se dar prazer, a sociedade lhe diz que seu corpo é proibido para ela mesma. Pois eu diria: meninas, se toquem, se descubram, se conheçam e se deem prazer! Só assim as nossas relações com outras pessoas e com nós mesmas serão melhores, se nos conhecermos também.

Para escrever esta matéria, conversei com diversas amigas e focamos o assunto no sexo heterossexual e cisgênero, entendendo que é neste tipo de relação que aparece de forma mais forte e explícita a influência do machismo (e porque é o tipo de relação que tínhamos mais experiência). Vamos, então, às situações machistas relacionadas ao sexo mais citadas por nós nessa conversa:

SEXO NÃO É SÓ PENETRAÇÃO!
A gente pode até não perceber, mas o ato sexual é, sim, muito machista. Antes de tudo, o senso comum diz que esse momento deve ser focado no prazer do homem. Como a excitação e o ápice do prazer para eles são muito mais explícitos, são utilizados como parâmetro para o que deve rolar no sexo. A penetração acaba sendo o momento principal e só termina com o orgasmo masculino. O prazer da mulher se dá de forma diferente, não são tantas as mulheres que atingem o orgasmo com a penetração, sendo o estímulo no clitóris essencial, mas muitas vezes ignorado pelos parceiros. Além do foco na penetração, a posição também nem sempre é determinada e acordada pela mulher, o que não faz muito sentido, já que a posição do ato da penetração tem que dar prazer a ambos. Quando se fala de sexo oral, está quase sempre subentendido que a mulher precisa fazer sexo oral no homem, mas eles nem sempre se dedicam muito no contrário. E sobre sexo anal? A grande maioria dos homens pede ou tenta com a mulher, mas o estímulo ao ânus do homem quase nunca é bem-vindo. É claro que cada um(a) sente tesão de uma certa forma, mas é importante a gente pensar nos fatores que influenciam e/ou determinam esse tesão ou a falta dele, nas ideias criadas sobre como a gente deve sentir o sexo. E abrir os nossos olhos para as mil possibilidades que o sexo nos proporciona além da penetração.

MULHER NÃO É FETICHE!
Cria-se uma imagem de que a mulher — e, essencialmente, o seu corpo — estão sempre relacionados com o sexo. Isso se demonstra em várias escalas: mais intensamente na mídia e nos filmes pornô, produtores dos maiores fetiches com o corpo das mulheres e muito responsáveis por uma ideia de como deve ser o sexo, sempre centrado no homem e no seu prazer, fazendo com que os meninos vejam e achem que as relações devem ser assim. E se demonstra, também, nas pequenas coisas durante a relação. Se o cara está excitado e pressiona de alguma forma, mesmo que subjetivamente, a mulher a fazer sexo sem considerar a vontade dela, se aceita ou propõe um ménage (sexo a três) só se for com uma segunda mulher, nunca com um segundo homem, se diz que topa um relacionamento aberto mas limitando a namorada a relações exclusivamente com outras mulheres… Essas atitudes não respeitam a mulher enquanto ser com poder de decisão na hora do sexo, suas vontades e prazeres e a sua falta de vontade e de prazer também. O sexo tem que ser sempre algo consensual e consentido, assim como tudo na relação. Fazer sexo porque o cara está a fim mas você nem tanto não é legal e não é saudável. Quando não tiver com vontade, fale, e se ele te respeitar, vai respeitar também esse momento.

A RESPONSABILIDADE É NOSSA!
Pra fazer sexo tem que ter responsabilidade, e ela tem que ser mútua. A prevenção de doenças sexualmente transmissíveis e da gravidez precisa ser feita pelo casal. O que vemos é que muitas vezes a camisinha fica na responsabilidade dos homens e, para muitos deles, o sexo sem camisinha dá mais prazer. Isso deixa a mulher em uma situação totalmente vulnerável. Não preciso dizer que camisinha não é opção, camisinha tem de ser usada sempre, e passar pela situação de insistência do cara a não usar a camisinha porque ele ganha sensibilidade é um tanto quanto desgastante e constrangedor. Nessa insistência, muitas vezes, há a sugestão dele de a menina usar o anticoncepcional, o que é ruim duas vezes, visto que a pílula não previne qualquer tipo de doença e que a decisão de tomar esse tipo de hormônio precisa ser da mulher. Portanto, camisinha sempre e, na dúvida, leve uma com você também; precisamos nos prevenir e não depender deles pra isso. Se o cara continuar insistindo em não usar, só uma dica: cai fora!

O CORPO É MEU!
Mas o sexo não diz respeito só ao ato sexual, né? Muita coisa gira em torno deste momento e as pressões sociais colocadas na mente das mulheres também fazem parte de como encaramos o sexo nas nossas vidas. Como eu falei lá no início, somos inibidas a falar de sexo desde a infância. Não é à toa, portanto, que podemos ter dificuldades de falar abertamente com nossos parceiros sobre o que gostamos ou não gostamos, não é à toa também que, muitas vezes, sabemos pouco sobre o nosso corpo, não somos incentivadas a descobri-lo, muito pelo contrário. O julgamento das pessoas sobre a vida sexual alheia segue bem essa lógica. Se a mulher faz sexo casual e tem uma vida sexual ativa solteira, ela é julgada, mas para os homens, quanto mais sexo ele fizer, mais bem-visto. Ao marcar um encontro, espera-se que você siga o padrão de beleza: depilação, lingerie sensual, corpo magro e roupas impecáveis. Durante o sexo, pode rolar aquela preocupação: “Meu corpo está feio assim?” “Aquela gordurinha tá aparecendo?” “Me depilei?” Pois nosso corpo não deveria ser da forma como nos faz mais felizes?

Todas essas situações nos mostram o quanto o sexo e tudo o que se pensa, fala e faz sobre ele é ou dá poder ao homem a certo ponto. Muitas vezes, assim como em diversas outras situações nas nossas vidas, não percebemos a influência do machismo porque já está naturalizado assim, mas, ao parar pra pensar mais profundamente sobre elas, quase sempre a forma como aquilo acontece se inicia ou termina com algum privilégio masculino. Enxergar e falar sobre tudo isso é um passo pra que a gente consiga desconstruir e nos empoderar no momento do sexo. Não se sentir coagida a dizer sim, colocar as condições, abrir o jogo sobre o que se gosta ou não nem sempre é fácil pelo contexto em que vivemos. Esse texto é um alerta um incentivo e uma dose de força e coragem a você, mulher. Empodere-se do seu próprio corpo e dos seus próprios desejos! E viva cada um deles da forma que você se sentir melhor. Sexo é pra ser feito com prazer para todas as pessoas envolvidas!

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Isabela Peccini
  • Colaboradora de Relacionamentos & Sexo
  • Coordenadora de Escola, Vestibular & Profissão

O nome é Isabela, mas os apelidos são variados, sintam-se à vontade. Quase arquiteta e urbanista pela UFRJ. Mas não se engane, não vou fazer a sua casa ou a decoração da sala. Objeto de estudo: cidade, sempre pelos olhos da mulher. A minha cidade? Rio de Janeiro, uma relação de amor e ódio. Militante no movimento estudantil desde que me lembro e feminista porque não dá pra não ser, o feminismo te liberta!

  • http://www.comabocanomundo.com Guilherme William

    Por que as meninas ainda leem Capricho quando se tem Capitolina?

    Meus parabéns pelo texto!

  • roberto quintas

    excelente texto! eu fico até com vergonha de ser homem quando vejo os chamados pick up artists [chamados “carinhosamente” de mascus pela Lola]

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A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

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