1 de dezembro de 2015 | Colunas, Educação, Estudo, Vestibular e Profissão | Texto: and | Ilustração: Natália Schiavon
ENTREVISTA: CAMILA GERIA, MULHER E TAXISTA

Conheci Camila quando voltava de um show para casa. Pegar táxi sozinha é sempre um risco, né? A gente quase nunca se sente 100% segura até chegar em casa. Mas assim que eu entrei no carro, a primeira coisa que disse depois do meu destino foi “Nossa, muito bom pegar táxi com mulher!”. Ela riu, disse que toda passageira dizia isso e, daí pra frente, o papo fluiu deliciosamente e conversamos sobre tudo, como se nos conhecêssemos há anos! Cheguei em casa feliz e inspirada pela mulher maravilhosa que acabara de conhecer. Ficamos loucas pra conhecer mais da trajetória dela nesta profissão dominada por homens e achamos que vocês também vão adorar conhecê-la. <3

Como você chegou nesta profissão? Foi uma escolha?
Eu trabalhava em casa de video bingo. Quando foi proibido fiquei desempregada e minha mãe tinha um táxi mas nunca havia trabalhado porque ela alugava para um rapaz trabalhar pra ela, e foi aí que me despertou que eu poderia ser taxista.

E quais você acha que são as maiores dificuldades? É caro manter um táxi?
Acho que a maior dificuldade é a falta de segurança. Cada vez fica mais difícil trabalhar sem correr riscos. Manter um táxi é muito caro. Pagamos um seguro muito alto, impostos e uma manutenção altíssima.

Você já sofreu algum preconceito na profissão? Como lidar com a maioria masculina no mercado?
Nesses oito anos que sou taxista, fui discriminada apenas uma vez e por outra mulher. Ela me perguntou se eu sabia mesmo dirigir. Respondi que sim, quis até mostrar minha habilitação, mas mesmo assim ela não quis entrar no meu carro. A maioria dos homens taxistas nos respeitam, mas existe uma minoria que, sempre que pode, fala alguma piadinha e se o nosso carro for melhor do que o deles, aí que eles ficam mais irados de raiva!

Você se sente ameaçada por ser mulher e taxista?
Ameaçada não, de forma alguma. Só mais atenta e cautelosa!

Você já sofreu qualquer violência por ser mulher, seja por um passageiro ou por outras pessoas no trânsito?
Já peguei uma mulher bêbada que me deu um pouco de trabalho. Me agrediu verbalmente e o caso foi parar na delegacia. Ela que faltou respeito comigo e ainda foi na delegacia dar parte de mim. Mas, graças a Deus, não deu em nada. Ficou tudo resolvido a meu favor!

Quando nos conhecemos, você mencionou que evita pegar passageiros homens. Como foi que você resolveu tomar este tipo de cautela? Aconteceu algum episódio muito complicado ou foi só pelo acúmulo da vivência?
Evito muito pegar passageiros homens porque 99% deles adoram ficar fazendo piadinhas. Eles esquecem que estou ali trabalhando e não a fim de pegar ninguém! Já aconteceram vários episódios de azaração e eu sempre falo a mesma coisa pra eles: que sou casada e tenho dois filhos. Até mesmo quando eu estava grávida do meu filho, que hoje está com 4 anos, os homens ficavam de piadas. Felizmente, nunca tive nenhum problema, eles pedem desculpas e eu os levo no seu destino. Lógico que tem uns mais chatos que os outros, uns insistem mais, mas no final sempre deu tudo certo!

Você já convidou algum passageiro a se retirar por ter falado algo que te incomodou? Se sim, como foi?
Convidei apenas uma moça a se retirar porque estava completamente bêbada, não sabia para onde iria e, quando eu perguntei se ela já havia decidido para onde ia, começou a falar que tinha dinheiro e que eu era obrigada a levá-la a qualquer lugar. Com isso, ela começou a me agredir verbalmente. O caso parou na delegacia mas, felizmente, deu tudo certo. Foi apenas uma bêbada que resolveu encher o saco de uma trabalhadora!

O que você acha de criar companhias exclusivas e especializadas para transporte de mulheres? Você gostaria que houvesse uma rede de táxis (como o Easy Taxi, por exemplo) só de taxistas e passageiras mulheres?
Acho que seria super criativo e muito legal. Todas as passageiras sempre falam que adoram pegar taxista mulher e isso é muito bom para ambas as partes, tanto para a segurança da taxista como a da passageira. Parece que uma entende a outra. Elas passam maquiagem no carro, trocam de roupa, falam dos namorados, trocamos confidências. Isso sem contar que passamos mais seriedade pra elas.

Você tem uma opinião formada a respeito da recente polêmica do Uber?
Acho que essa Uber é modinha. Não tenho nada contra, só acho que deveriam pagar impostos, porque hoje eles rodam sem pagar imposto algum. Enquanto nós, que somos táxi legal, pagamos mil impostos e sempre sofremos com muita fiscalização e também sempre somos alvo de milhões de críticas. Mas ainda tem muito taxista honesto e, como em toda profissão, tem alguns que não trabalham corretamente, mas é a minoria!

  • Colaboradora de Relacionamentos & Sexo

Gabriella Beira
  • Coordenadora de Escola, Vestibular & Profissão
  • Colaboradora de Relacionamentos & Sexo

Gabriella Beira é formada em Relações Internacionais e, como qualquer "internacionalista" (é assim que se chama a pessoa que estuda RI), quer conhecer o mundo todo e, se possível, mudar o mundo. Gosta muito de falar sobre educação, cultura, sociedade e feminismo, mas seu hobby mesmo é jogar Plants vs Zombies. É impaciente, procrastinadora, irmã mais velha e aluna mediana.

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A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

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