30 de junho de 2015 | Estudo, Vestibular e Profissão | Texto: | Ilustração: Isadora M.
Entrevista com Ana Rocha – Secretária de Políticas para Mulheres

Assim como existe uma Secretaria Nacional de Políticas para Mulheres, existem também algumas secretarias a nível municipal. Seus objetivos principais são a implementação de políticas públicas voltadas para as mulheres em diversas temáticas: violência, educação, saúde, trabalho, entre muitos outros. Tive a oportunidade de entrevistar a secretária de políticas para mulheres da Secretaria Especial de Políticas para Mulheres do Rio de Janeiro (SPM-Rio), Ana Maria Santos Rocha. Falamos sobre sua trajetória pessoal e política – muito interdependentes – sobre os projetos da Secretaria na cidade e sobre o novo projeto de lei aprovado em maio, que instaura uma Campanha Permanente de Combate ao machismo e valorização das mulheres nas escolas públicas do Rio de Janeiro.

Capitolina: Secretária Ana, poderia nos contar um pouco de sua trajetória pessoal/profissional/ativista até se tornar Secretária da SPM-Rio?

Secretária Ana Rocha: Eu comecei a atuar no movimento de mulheres em 1982, quando foram reinstauradas as eleições diretas no Brasil, após o período da ditadura militar. Nesse momento, houve algumas campanhas de mulheres para certos cargos e me envolvi diretamente com algumas delas, trazendo as questões das mulheres como pautas. Minha atuação começou em Porto Alegre e participei da criação da União Brasileira de Mulheres (UBM) da cidade.

Um segundo momento da minha atuação se deu a partir de 1986, quando me tornei editora da revista Presença da Mulher, da editora Liberdade e Mulher. A visão emancipacionista, tanto da editora quanto da revista, entendia que a luta das mulheres deveria culminar na criação de uma sociedade igualitária e muitas outras expoentes do movimento de mulheres começaram a compor o conselho editorial da revista. Realizamos alguns encontros nacionais pela revista, o que formou bases para criarmos um fórum de discussão das questões do movimento de mulheres. Em 1987, foi criada, então, a União Brasileira de Mulheres na Bahia e fui eleita vice-presidente.

Minha atuação política se uniu à minha trajetória acadêmica: sou mestre em Serviço Social pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), focando no tema “mulher e trabalho”, e tenho pós-graduação em Políticas Públicas pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Fui professora em Porto Alegre, à época que morava lá. Hoje, minha atuação como secretária me permite unir esse conhecimento teórico junto ao conhecimento prático de muitos anos de atuação política.

Capitolina: Muito interessante que você tenha atuado tanto tempo numa revista, assim como nós pretendemos! A Capitolina entende sua forma de atuação na medida em que buscamos abarcar as diversas realidades e diversidades das meninas e adolescentes no Brasil, mostrando não um “mundo aspiracional”, mas um mundo em que elas se reconheçam e sejam sujeitos de suas próprias experiências. Como a Secretaria entende as questões de gênero?

Secretaria Ana Rocha: O movimento evoluiu bastante desde o início da minha atuação. Hoje, um dos conceitos mais fundamentais dentro das políticas públicas é o da transversalidade. Questões de gênero perpassam todas as áreas e as ações, por isso, é necessário que todas as áreas do Estado considerem gênero como uma espécie de “lente” em suas políticas. Para enfrentar a discriminação de gênero, é necessário estar em toda a parte. O machismo perpassa homens e mulheres, mas afeta diretamente o elo oprimido, ou seja, as mulheres. Existe uma diferenciação de papéis resultante de uma construção histórico-social. Afirmar a visão das mulheres como sujeitos é algo que leva tempo, exige uma transformação cultural enorme, que una não só a mudança nas estruturas, mas também dos conceitos e dos estereótipos. Por isso é tão fundamental termos ações como a Campanha Permanente de Combate ao machismo e valorização das mulheres, é na educação que podemos atuar para mudar essa forma de pensar.

Capitolina: Existem programas e campanhas, sejam a nível municipal, estadual ou nacional, voltadas especificamente para meninas e adolescentes?

Secretária Ana Rocha: Existem, sim, mas são programas mais recentes. Há diversas mudanças sociais que trouxeram certas demandas para esse atendimento mais focado. Em termos de saúde, as doenças sexualmente transmissíveis e a gravidez na adolescência tornaram mais evidentes certas questões de discriminação de gênero nesse segmento etário. Um dos programas mais importantes nesse sentido é o programa de vacinação contra o vírus HPV em meninas a partir dos 13 anos. Para conscientizar as jovens, é necessário discutir com as famílias e com as comunidades sobre a importância disso, o que, em certa medida, é uma revolução na forma de pensar sobre meninas e adolescentes. Temos de deixar de fora o preconceito e os tabus e atuar em prol dessas jovens.

No Rio de Janeiro, a Secretaria tem um programa chamado SPM Itinerante, em que promovemos debates em escolas públicas municipais, especificamente com os professores e coordenadores, sobre o que é gênero, quais as questões de discriminação que afetam os alunos e como lidar com elas.

Capitolina: A Campanha Permanente de Combate ao machismo e valorização das mulheres nas escolas públicas surgiu de um projeto de lei do vereador Renato Cinco e foi aprovada pelo prefeito do Rio de Janeiro em maio de 2015. Você poderia nos contar um pouco sobre ela? Qual será a atuação da SPM-Rio?

Secretária Ana Rocha: A Campanha na escola é fundamental, pois é preventiva. É importante debater uma nova visão considerando os estereótipos e papéis de gênero e sua desconstrução. Dessa forma, os jovens podem crescer pensando de forma mais livre e menos atrelada a qualquer tipo de preconceito nesse sentido. A Campanha contará com equipes interdisciplinares, compostas de docentes, alunos, pais e voluntários, que promoverão rodas de conversa, atividades e eventos para a conscientização da discriminação de gênero e do machismo, culminando em uma semana de combate à opressão de gênero ao final do período letivo. A sensibilização deve ser feita a partir de abordagens mais criativas, que efetivamente cativem os alunos e a comunidade. A SPM-Rio atuará em parceria com a Secretaria da Educação para a implementação da Campanha.

Capitolina: Muito obrigada, secretária, pela sua conversa conosco!

Debora Albu
  • Colaboradora de Escola, Vestibular & Profissão

Debora é mestra em Estudos de Gênero e é formada em Relações Internacionais. É carioca, apesar de ter passado uma temporada da vida em Paris e todo mundo a chamar de "francesinha" - por vezes acredita ser verdade. Faz parte da gestão da Agora Juntas, um rede de coletivos feministas no Rio de Janeiro. É ciberativista e feminista antes mesmo de entender o que essas palavras significam.

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A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

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