18 de junho de 2015 | Artes | Texto: | Ilustração: Isadora Carangi
Entrevista com a artista: Andrea Boller

Em abril de 2015, assisti à artista paulistana Andrea Boller realizar uma de quatro “reperformances” do trabalho Freeing the Body, da Marina Abramovic, executado pela primeira vez em 1976. Boller dançou, nua e com o rosto vendado, enquanto a percussionista Beth Beli tocava um tambor ritmado. Na performance, a proposta é que se dance até a exaustão — o que aconteceu depois de cinco horas e quinze minutos. No momento em que Boller cai, Beli coloca o tambor no chão, se aproxima da outra artista e segura sua mão. A conexão entre as duas artistas foi o momento mais emocionante que já vivi nas artes. A forma como o público interage parte da arte performática e, naquele momento, parecia que estávamos todos conectados pelo elo entre Boller e Beli.

Essa foi uma de três performances que Andrea Boller realizou no SESC Pompeia, MAI+Terra Comunal, entre os meses de março e abril de 2015. As performances foram incríveis, então fiquei muito animada quando um amigo disse que poderia me colocar em contato com a Andrea para que eu pudesse entrevistá-la para a Capitolina.

Foi mais incrível ainda descobrir que o outro foco de trabalho da artista são esculturas — e são todas maravilhosas.

Nos encontramos em São Paulo para que ela contasse um pouco sobre o caminho que fez para chegar até as esculturas como meio de arte e seu contato com arte performática.

“O cachorro vê a lua quando olha a poça d’água”, 2010. Espelhos/mirrors.  2~15 cm x 33 m.

“O cachorro vê a lua quando olha a poça d’água”, 2010. Espelhos/mirrors. 2~15 cm x 33 m.

Andrea Boller se formou em arquitetura e urbanismo pela FAU. Depois que terminou a faculdade, trabalhou meio período em um escritório enquanto também frequentava um ateliê — nessa época, focou principalmente em gravuras e desenho. Fluente em alemão, viu uma oportunidade com o DAAD (órgão alemão para intercâmbio acadêmico) para uma bolsa de especialização para artistas e decidiu ir para Berlim estudar escultura sob a orientação do professor Karsten Konrad. Quando terminou a especialização, permaneceu na cidade, trabalhando em um ateliê com outros artistas. Lá realizavam exposições a cada seis meses. Nesse período, entre a especialização e o ateliê, Andrea focou seu trabalho naquilo que foi para Alemanha estudar: esculturas.

RR: Você fez arquitetura, então imagino que você já tinha uma raiz nas artes.

AB: Na verdade foi um caminho um pouco diferente. Tinha dúvida entre arquitetura, cinema e artes plásticas. Eu sabia que era um dos três — entrei em cinema, fiz um ano de cinema. Era um curso muito técnico, muito voltado para a direção. E eu era muito nova! Tem essa coisa de sair do colegial e já escolher a faculdade. Eu fiz 18 anos quando entrei na faculdade. Acho que foi um pouco cedo, talvez, para decidir. Se tivesse esperado um ano, feito outras coisas, talvez soubesse melhor. Mas foi bom ao mesmo tempo! Foi nesse primeiro ano que percebi que gostava mais de direção de arte, sentia falta de uma coisa mais artística. Lá era mais técnico. Aí pensei em ir para a arquitetura, mas eu não sabia desenhar. Aprendi, na verdade, quando fui fazer um ano de intercâmbio em Portugal.

Horizonte variável”, 2014.  Aço, linha de poliéster, lâmpada. Dimensões variáveis.

Horizonte variável”, 2014. Aço, linha de poliéster, lâmpada. Dimensões variáveis.

RR: Você fez intercâmbio na graduação?

AB: Sim, tem esse intercâmbio entre a FAU e a Universidade do Porto. Lá, o desenho era o desenho da faculdade de artes plásticas, era o mesmo curso. Para eles, desenho é essencial para a arquitetura. Nesse curso que virou uma chave: não é muito arquitetura, eu gosto muito mais do desenho! Desenho é uma forma de pensar: ele abre uma outra porta, uma outra lógica.

RR: Parece que você soube usar a oportunidade que tinha para abrir outras portas.

AB: Penso muito nisso. Talvez tenha sido um caminho um pouco mais difícil, mas ao mesmo tempo me deu base; arquitetura, para mim, é essencial para minha produção. É aquela coisa de projetar. Hoje eu construo outras coisas, não prédio e casa, mas de alguma forma tem um projeto. Em artes acho que tem que ter um conceito, uma ideia para se desenvolver. No fim, as coisas vão se conectando e você vai construindo um caminho.

RR: É legal saber que o curso que escolhemos na faculdade não necessariamente vai ditar nossas profissões.

AB: É, tipo arquitetura: a faculdade é o máximo, mas você vai para o mercado de trabalho e aí já é diferente. E tem mesmo que lidar com isso e ir encontrando os caminhos possíveis. O importante é seguir o desejo: se você tem vontade de ser artista, vai em frente. Porque meu medo era não conseguir trabalho, não ganhar dinheiro. Mas agora eu vejo que, no fim, as coisas sempre funcionam: você tem que conhecer as pessoas (da área), elas vão te ajudar… tem trabalhos que artistas podem fazer e que são pagos. Eu não entendia tanto isso, ninguém da minha família tem ligação com artes.

RR: Então seu interesse em artes não veio de casa?

AB: Minha mãe era muito sensível. Acho que tem muita influência dela. Sabe, de viagem, das coisas que ela gostava, gostava muito de ler.

RR: Ela te levava em museus?

AB: Sim! Mas eu não tinha muita noção do que seria fazer uma faculdade de artes plásticas.

“Ciclo”, 2012 aço, performer, relógio, tecido / steel, performer, clock, fabric 1,95 x 1,70 x 1,70m, 60min.

“Ciclo”, 2012
aço, performer, relógio, tecido / steel, performer, clock, fabric
1,95 x 1,70 x 1,70m, 60min.

Aqui farei uma pausa para explicar, nas palavras da artista, uma das obras que mais gostei: “A performance consiste em uma volta de 360° extremamente lenta, não necessariamente percebida num primeiro olhar, durante o intervalo aproximado de uma hora. A intenção é reproduzir a velocidade de rotação do ponteiro do minuto do relógio, sem olhá-lo, tentando assim confrontar a sensação interna de tempo com o tempo do relógio propriamente dito. Quanto mais próximo do fim, mais a torção do vestido se aproxima do limite, ficando cada vez mais apertado, uma vez que ele está conectado à estrutura metálica. A performance termina no momento em que o movimento não é mais possível.”

Gostei de “Ciclo” pela genialidade de Andrea Boller para o encontro da performance com a escultura — “O corpo é uma escultura em movimento”, ela disse quando mencionei a genialidade da união entre a performance e a escultura nessa obra.

Seu trabalho, claramente influenciado pela arquitetura, parece materializar o imaterial: é uma reflexão sobre tempo, balanço e movimento.

Agora Andrea Boller está de volta em São Paulo, cidade onde planeja ter sua base para produção artística .  Vocês podem conferir mais sobre a artista e seu trabalho incrível aqui. 

Todas  as fotos  dos trabalhos da Andrea Boller estão no site da artista.

 

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Rebecca Raia
  • Coordenadora de Artes
  • Colaboradora de Relacionamentos & Sexo
  • Coordenadora Editorial

Rebecca Raia é uma das co-fundadoras da Revista Capitolina. Seu emprego dos sonhos seria viajar o mundo visitando todos museus possíveis e escrevendo a respeito. Ela gosta de séries de TV feita para adolescentes e de aconselhar desconhecidos sobre questões afetivas.

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A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

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