25 de setembro de 2014 | Artes, Literatura | Texto: | Ilustração:
Entrevista com a artista: Clara Averbuck
Ilustração por Jordana Andrade.

Ilustração por Jordana Andrade.

Paraty, 2014. Eu andava pelas curtas ruas de paralelepípedos dessa cidadezinha cheia de leitores atordoados (era o último dia da FLIP, a Feira Literária Internacional de Paraty), quando vi uma figura singular parada dentro de uma loja singular: era Clara Averbuck, mulher, feminista, escritora, editora, blogueira e mãe, sentada na entrada do que me pareceu uma alfaiataria.

Fiquei espreitando aquele rosto não-totalmente-desconhecido para saber de onde era e, claro, em meio segundo o identifiquei. Afinal, como é que não poderia me lembrar de uma das fundadoras do Lugar de Mulher, um site que, diferente de muita coisa que a gente vê por aí, lança matérias super legais para dar força para mulherada e estimulá-las a ser quem realmente são e se tornarem minas empoderadas (do mesmo jeitinho que a Capitolina faz e pretende fazer pra sempre).

Naquele dia, em Paraty, não falei com a Clara. Segui meu caminho e deixei a tietagem de lado para que ela pudesse seguir, sem maiores transtornos, o dela também. Mas fiquei muito feliz em reconhecer, na rua, uma mulher que por meio de suas palavras, de seu trabalho, leva tanto conforto e libertação para todas aquelas outras mulheres que me cercavam e que as necessitam tanto quanto eu, para que nos inspire a lutar contra essa opressão que nos ronda dia e noite, noite e dia. Fica por aqui, portanto, nessa entrevista, todas aquelas perguntas que eu gostaria de ter feito para a Clara durante aquele breve encontro, para que vocês, leitoras da Capitolina, também a conheçam melhor, se inspirem e respirem também. Livres.

O que te levou a querer escrever o Eu quero ser eu, um romance infanto-juvenil, diferente da linha dos teus livros anteriores?

Na verdade a ideia partiu de um editor, há muito tempo. Ele estava cuidando do infanto-juvenil da Cosac e me deu essa ideia. Eu demorei anos pra terminar esse livro porque ainda não estava pronta pra falar com esse público.

Como foi escrever um livro sobre algo tão próprio da adolescência, reestabelecer contato com essa etapa da vida? Você usou tua própria experiência de adolescente como base?

Foi um longo processo, e eu já sabia como terminava a história, só que a voz da personagem, no começo, era outra. Quando eu era adolescente ainda não tinha nenhuma noção feminista, rivalizava com as outras meninas, me sentia superior, muito diferente da Ira, minha personagem, que questiona padrões de comportamento. A Ira é o que eu gostaria de ter sido. Tem, claro, alguma vivência minha ali, mas acho que observei muito mais a interação da minha filha do que a minha própria memória.

Você falou em algumas entrevistas sobre querer fazer uma série, uma continuação para o livro. Acha que isso vai rolar? Quer contar pra gente o que você acha que a Ira [personagem de Eu quero ser eu] tem pela frente?

Sim, eu pretendo escrever uma continuação. Acho que pode ser muito bacana fazer uma série com o amadurecimento da Ira, dos 15 aos 18… Eu e minha sócia, a Letícia Simões, temos esse plano de fazer uma websérie também. Ainda não é nada concreto, mas a vontade é grande.

Qual você acha que é a maior dificuldade nesse processo de crescimento, de adolescência?

Tudo é complicado, né? A relação com o corpo, a vontade de independência que ainda não existe plenamente, pois dependemos dos pais, a aprovação do grupo… É um combo que gera bastante angústia. Mas passa!

E, pelo outro lado, qual é a maior dificuldade de ser mãe de adolescente, de tentar guiar outra pessoa passando por essa fase?

Me fazer ouvir. É engraçado como muitas adolescentes me leem e me escutam, mas minha filha rejeita muita coisa que eu digo, às vezes nem quer escutar. Talvez ela escute e só finja que não pra me desafiar, não sei. Acho que só saberei disso no futuro, mesmo. Mas é duro e bastante frustrante.

Que livros (e/ou filmes/discos) você recomendaria como boas leituras para garotas adolescentes?

Vish. Eu gosto bastante da Demi Lovato, acho que ela tem um discurso bacana e empoderador para as meninas. Não sei muito de livros para adolescentes, mas minha filha ama a Bruna Vieira, que escreve bem mesmo, é novinha e entende dessas angústias de adolescente. Eu gostava muito dos livros do Pedro Bandeira, aquela série dos Karas.

O que você gostaria que alguém tivesse te dito quando você estava nessa idade?

Que eu não precisava me enquadrar em padrão nenhum e que “as outras” não eram nem inimigas, nem rivais, nem inferiores e que estamos todas no mesmo barco.

Por último, como foi se dar conta de que queria ser escritora “de profissão”? Você sempre sentiu vontade, veio naturalmente, teve alguma inspiração específica?

Eu comecei a escrever bem novinha, criança mesmo. Sempre escrevi. Comecei a publicar com 17, foi uma trajetória natural pra mim. Meus pais tiveram um papel importante nisso, pois sempre me incentivaram muito. Meu pai criou a Secretaria de Cultura da Casa e, em vez de me dar mesada, me pagava quando eu entregava algum texto, então sempre tive apoio. O resto foi vindo. Mas também não foi fácil, pois ser escritorA é diferente de ser escritor. Sempre vão tentar te encaixar no subgênero “literatura feminina”. Estou batendo bastante nessa tecla e espero que esse mercado mude.

Má Dias
  • Coordenadora de Social Media
  • Coordenadora de Literatura
  • Colaboradora de Artes

Má Dias, 21 anos. Mora em um Rio de Janeiro, mas ama uma São Paulo. Estuda Comunicação Social na UFRJ, aceitou o árduo (e feliz) caminho de ser jornalista e foi parar no incrível mundo das redes sociais. Adora uma bagunça, ler, criar e inserir livros novos na sua estante: tudo culpa do Aquário com ascendente em Capricórnio. Segue firme e forte encarando o 7x1 de cada dia.

Sobre

A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

Arquivos