1 de maio de 2014 | Sem categoria | Texto: | Ilustração:
Entrevista com Jarid Arraes
Entrevista com Jarid Arraes

Helena Zelic: Jarid! tás aí?
Jarid Arraes:oi, linda, estou aqui

e tudo bem contigo?
Tudo bem, querida. E por aí?

por aqui tudo ótimo! posso te mandar então umas perguntinhas?
Pode sim! :)

então… comecemos! 😀
Você já lançou dois cordéis – eu só pude ler um deles. Conta um pouco sobre eles, sobre a ideia de criá-los. Sua família, seus parentes, tem tradição na literatura de cordel?

Lancei meu primeiro cordel em Janeiro desse ano e todo o processo para publicá-lo foi bem interessante: em uma noite estava conversando com meu pai sobre minha vontade de escrever literatura de cordel e na manhã seguinte já estava com o primeiro pronto. Depois de uma madrugada de inspiração, “nasceu” o “Dora: A Negra e Feminista”.
Meu pai e meu avô são cordelistas, e através deles eu aprendi tudo o que sei sobre poesia e cordel, mas apesar do meu pai em especial ter posturas políticas de esquerda, eu sentia falta de personagens femininas com as quais eu pudesse me identificar. Por isso decidi que só escreveria cordéis feministas, falando contra o racismo e outros tipos de preconceito, sempre com protagonistas femininas.
Depois do “Dora”, veio o cordel “A Luta da Mulher Contra o Lobisomem”, que conta a história de uma terra igualitária que se transforma em machista depois que um lobisomem toma o poder; nele eu falo sobre estupro, que é um tema pesado, mas a leitura em poesia torna o assunto mais acessível. Além desses dois, vou lançar agora em Abril o cordel “A Menina Que Não Queria Ser Princesa” – que é voltado para jovens garotas e seus pais – e também o “Nêga Braba”, que diz muito sobre mim.

Você disse que seu pai e seu avô são cordelistas (o que é demais!), mas eu queria saber: qual o perfil geral da maioria dos cordelistas? Quem são, de onde são?
A maioria dos cordelistas que conheço são homens, especialmente do nordeste brasileiro. Muitos são sertanejos, com poucos recursos financeiros. Isso é importante de salientar porque o cordel é uma literatura muito acessível, super baratinha. É uma literatura, de fato, popular.
Hoje sei que há cordelistas em todas as regiões do país, mas ainda é predominante a presença masculina. Não tenho dados estatísticos acadêmicos ou oficiais, mas essa é a perspectiva que tenho vendo os eventos e publicações por aí.

Aqui no centro de São Paulo, que é onde vivo, vejo às vezes homens repentistas declamando na rua, no centro da cidade. Claro, repente e cordel definitivamente não são a mesma coisa mas, fazendo uma ponte, qual a frequência dessas manifestações populares onde você mora?
Temos muitas manifestações de cultura popular por aqui, o problema mesmo é que poucas pessoas valorizam os artistas e poetas locais, sobretudo os que não são das elites ou de áreas consideradas “intelectuais”.
Aqui tem Maracatu, Reizado, embolada, repente, literatura de cordel, xilogravura, côco, entre tantos outros exemplos que fazem a identidade do povo nordestino se manter viva. Quem se interessa e respeita, com certeza acha.

Você acha então que o cordel e as demais culturas populares ainda precisa ser mais conhecido e universalizado? Como? Quem compõe os meios literários, os meios artísticos, os meios de expressão do povo?
Acho que sim, precisamos valorizar a cultura popular, o folclore. Porque, veja bem, se as novas gerações não se interessarem e não se orgulharem dessas “heranças”, infelizmente muita coisa pode se perder.
Eu decidi me tornar cordelista porque percebi essa necessidade de manter a tradição livre, mas dando o toque de “novo mundo” que se faz urgente em todas as esferas da nossa sociedade. É muito bonito que o povo viva a cultura popular livremente, sabe? Aqui no Cariri famílias inteiras participam dos reizados. Acho que precisamos garantir que isso tudo continue existindo, mas que transformemos o que precisa de reparos, como essas questões de gênero, raça e sexualidade.

Então essa escolha do cordel para tratar da pauta das mulheres negras é por uma questão também de resistência cultural? Qual a importância da literatura tratar de questões de gênero e de raça?
Com certeza é resistência cultural. Quando a gente lê uma fábula, um conto, um livro – e, claro, um cordel – a gente pode se identificar ou não com os personagens, com o que está acontecendo ali. Essa identificação é muito importante, é também por causa da falta de personagens femininas e negras que tantas garotas acham que só podem ser uma única coisa na vida, que acabam não entendendo que podem ter muitas escolhas, que não estão limitadas a certos papéis. Toda garota tem que ter o direito de ler um livro que fale coisas positivas sobre mulheres, que gere inspiração.
Essas obras podem mudar toda a visão que a garota tem de si mesma, sabe? E também podem ser o empurrão que ela precisa para decidir que também vai escrever e se expressar livremente. Acho isso maravilhoso e forte, é pura resistência e transformação. Por isso o cordel é tão importante, por ser algo tão acessível, tão barato, tão fácil de ler.
Também acho que os garotos e homens precisam entrar em contato com essas visões, porque elas geram conscientização. :)

Concordo muito com você! A representatividade é crucial para crescermos, ampliarmos nossas perspectivas, nossos espelhos. Outra dúvida que me bateu aqui: você disse que um de seus próximos cordéis terá um tom “meio autobiográfico”. Tem muito de Jarid na personagem Dora?
Tem demais! A Dora foi a melhor personagem para começar minha trajetória no cordel porque ela tem muito da minha experiência e das experiências de milhares de outras mulheres negras brasileiras. Ela foi inspirada nos incontáveis relatos que acompanho no movimento Feminista Negro.
O que mais amo na Dora é que, apesar do início sofrido, ela conseguiu se libertar de tudo e se transformou numa mulher maravilhosa. Fico feliz em ver que esse “final feliz” é o meu e também pode ser de todas as pretas. Especialmente levando em consideração a parte em que ela encontra outras similares, que ajudam, dão força e lutam junto. Até hoje não há nenhuma garota ou mulher negra que tenha lido o cordel da Dora e não tenha me mandado uma mensagem falando que se identificou com a personagem. É lindo.

Olha só, você falou dessa parte em que ela se liberta de tudo e se fortalece com sua identidade, e eu queria contar que essa foi justamente a parte que mais me tocou! Posso colocar meu trecho preferido no site da Capitolina, para as meninas lerem?
Claro, pode sim! 😀 Espero que inspire as meninas.

É esse trecho aqui, até tirei foto de tão bonito que achei! Você manda muito :)
10327237_784012221612008_20140881_n
Ah que linda! Muito obrigada

Magina! E queria saber, pra aumentar o repertório – meu e de muitas meninas que não conhecem tanto assim esse universo – quem é sua cordelista preferida?
Ah, acho que vale a pena conhecer os cordéis da Salete Maria. Ela é feminista e tem um blog, o “Cordelirando”, onde ela publica várias de suas obras.

Que outras manifestações artísticas e culturais você recomenda às nossas leitoras? O que você tem lido, assistido, presenciado ultimamente?
Recomendo sempre que busquem por autoras, diretoras, músicas, etc., mulheres. Infelizmente a gente tem que cavar um pouco por conta própria, mas vale a pena. Se você curte o gênero “fantasia”, por exemplo, não deixe de pesquisar por mulheres que criam nessa área. O mesmo vale pra todos os tipos de arte. Também me animo muito em aconselhar que busquem conhecer suas raízes, saber de onde sua família veio e o que aquele lugar tem de interessante. Pode ser que você vá parar no interior do Ceará e descubra o que é uma banda cabaçal…
Eu ando muito misturada entre cultura pop e séries dos EUA, e a cultura popular daqui. Tenho relido os cordéis do meu pai, Hamurábi Batista, e do meu avô, Abraão Batista. Também acabei recentemente um livro curioso com uma pegada de fantasia, o “Ritos de Passagem” do Fábio Kabral, só que com histórias que acontecem na África! E super recomendo que leiam o livro novo da Clara Averbuck, o “Eu quero ser eu”. De música, recomendo que procurem por Yzalú e Ilê Ayê. Mas não deixem de pesquisar por conta própria e dar chance para coisas novas.
E o mais importante: procurem um grupo feminista na sua cidade ou na internet. Leiam blogs, sigam páginas, e nunca se esqueçam que vocês sempre podem ser muito mais. 😉

Conheço algumas e alguns que você citou aí, mas ainda assim é sempre importante buscarmos mais, mais, mais e mais… inclusive buscar cordéis de Jarid Arraes. Quem quiser adquirir seus cordéis, como faz?
É só entrar no meu site pessoal, o www.jaridarraes.com, que lá tem todos os meios de contato. Pode adicionar no Facebook também, que o contato fica mais aproximado. :)

A vontade que dá é de trocar ideia contigo eternamente, Jarid, mas acho que desta vez vamos parar por aqui :( vida longa à mulher, à negra, à cordelista!
Super obrigada pelo convite, querida. Estamos juntas nessas e em muitas outras. Qualquer coisa é só chamar. <3

eu que agradeço! foi uma conversa muito especial. beijocas <3
Beijão! <3

Helena Zelic
  • Coordenadora de Literatura
  • Ilustradora
  • Colaboradora de Relacionamentos & Sexo

Helena tem 20 anos e mora em São Paulo. É estudante de Letras, comunicadora, ilustradora, escritora e militante feminista. Na Capitolina, coordena a coluna de Literatura. Gosta de ver caixas de fotografias antigas e de fazer bolos de aniversário fora de época. Não gosta de chuva, nem de balada e nem do Michel Temer (ugh).

Sobre

A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

Arquivos