24 de janeiro de 2015 | Sem categoria | Texto: | Ilustração:
Entrevista com as meninas do coletivo feminista da FGV do Rio
Entrevista com as meninas do coletivo feminista da FGV do Rio

Capitolina: O que fez vocês sentirem a necessidade de criar o Coletivo?

Luciana: Começamos a perceber que era necessário e como ninguém havia tentado, resolvemos dar o primeiro passo. O nosso curso tem uma característica interessante que é a de ter alunos e alunas que mesmo antes de entrar, já possuem algum tipo de inserção em movimentos estudantis, fora da FGV. Eu mesma vim da UERJ e logo de início fiquei perdida em meio a quantidade de regras e restrições. Um exemplo: quase não consegui me matricular pois no último dia, fui até lá de bermuda (eu não fazia ideia de que homens e mulheres não podem entrar de bermuda na faculdade) em pleno verão carioca e ao me aproximar da catraca, fui barrada pelo segurança. Fiquei perplexa. O Coletivo, se já estivesse consolidado na época, podia ter atuado aí. Já do lado de fora do prédio e chorando, caminhei pela rua da praia de Botafogo e bati o olho em uma lavanderia. Foi a ideia mais doida e mais sortuda que tive. Juntei tudo o que tinha de coragem e ainda com cara de choro, entrei perguntando para a moça se não teria uma saia para me emprestar. “Que sorte a sua, esqueceram uma saia aqui e está comigo faz tempo. Só não sei se cabe em você”, ela disse. Coube perfeitamente. Agradeci mil vezes e corri de volta para a FGV. O mesmo segurança me reconheceu, liberou a catraca e entrei com todo orgulho para me matricular. Hoje repenso a situação e imagino: eu poderia não ter conseguido a saia, perdido a matrícula e em função de uma regra altamente questionável, poderia nem estar escrevendo este texto.

A partir de minha entrada no curso, tinha um grupo de amigas com as quais conversava sobre temas ligados a preconceito, machismo, homofobia, estereótipos, dentre outros. Estas conversas precederam a criação do Coletivo, pois sempre conversávamos informalmente, entre nós, sobre comportamentos e atitudes que víamos de perto e que nos causavam desconforto. Discutíamos sobre como, especificamente em alguns cursos, as alunas eram muito menos ouvidas do que os alunos; sobre como vivemos em um mundo no qual alguns cursos ainda são vistos como “mais para mulheres” e outros “mais para homens”, etc. Algo que nos espantava era o fato de que colegas, talvez por viverem em uma sociedade na qual estes discursos soam quase como “naturais”, não só assimilam tais falas, como as reproduziam constantemente. Durante uma conversa no Facebook, então, decidimos pela criação do grupo (que ainda não sabíamos bem como seria). Éramos três alunas do Curso de Graduação em Ciências Sociais e História e uma do Curso de Direito. Na primeira reunião, já ampliamos e de quatro nos tornamos oito alunas. Nossa ideia é sempre ampliar.

Camilla: Assim que começamos a divulgar a ideia, ela foi imediatamente abraçada por muitas das alunas do curso de Ciências Sociais e História, além de professores e professoras que se mostraram realmente empolgados com a iniciativa. Estamos nos expandindo aos poucos.

Luciana: Meu exemplo da saia, que na época eu vi como sorte, hoje olho para trás e vejo como um episódio lamentável poderia ter selado a minha exclusão do curso, que tantas alegrias me trouxe. Mostra como uma instituição que conta com tantas mulheres ainda se norteia por regras e padrões que existem na mentalidade de uma sociedade que se forjou sob a égide do patriarcado.

Camilla: Nós também nos inspiramos muito em Coletivos como o Coletivo de Mulheres da UFRJ e o da UERJ, que estão nessa estrada há muito mais tempo e têm iniciativas e projetos incríveis. Na hora de pensar em como o nosso Coletivo funcionaria na prática, recorremos muito à forma como esses Coletivos são administrados, através de amigas que fazem parte deles.

Aline: O Coletivo é uma forma de externalizar suas idéias e indignações também, e descobrir que as compartilha com alguém. A partir daí, podemos nos unir e ser mais fortes e efetivas.

Capitolina: O que o Coletivo permite vocês fazerem/desenvolverem que se estivessem sozinhas não fariam?

Camilla: Com o Coletivo, a gente se sentiu mais a vontade para expressar opiniões que sabemos que não são populares na nossa faculdade. Quando o Rodrigo Constantino e o Bernardo Santoro vieram dar palestras, por exemplo, e são pessoas reconhecidamente machistas – entre outras coisas – e que já foram alvos de críticas legítimas por parte de outros Coletivos, nos sentimos a vontade para, juntas, escrever uma carta de repúdio. Não acho que teríamos feito isso sozinhas. O peso de uma carta de repúdio assinada por um Coletivo organizado tem muito mais peso do que uma carta de repúdio escrita por uma aluna ou duas.

Fernanda: A participação no Coletivo estimula a reflexão sobre determinadas pautas, faz a gente pensar mais sobre o assunto e consequentemente se engajar mais, ser mais ativas e não naturalizar algumas atitudes. É uma forma de protesto.

Aline: Um protesto cotidiano.

Camilla: Além disso, passamos a conhecer mais gente de outros cursos também. Na FGV, os alunos não tem muito espaço de socialibidade e troca de experiências, então acontece dos cursos não conversarem muito entre si. Com o Coletivo, a gente conseguiu alcançar homens e mulheres de outros cursos e mobilizar essas pessoas a nos mandarem material pra página, a comparecerem aos eventos… E muita gente se mostrou interessada em participar ativamente do projeto, o que é bacana em qualquer espaço universitário.

Capitolina: Como funciona o Coletivo? Tem mais atuação política ou é mais como um grupo de estudos?

Camilla: O Coletivo ainda está começando e se estruturando – isso é importante destacar. Surgimos no fim de 2014, então, até agora, tivemos pouco tempo para nos organizar, mas o Coletivo funciona principalmente como plataforma de debate sobre questões de gênero pautadas em ideias feministas. Um dos nossos principais objetivos é organizar palestras e debates, começando pelo nosso evento inaugural que aconteceu no dia 14 de novembro do ano passado, intitulado “Olhares Sobre o Movimento Feminista”, com a presença da Lúcia Xavier, feminista militante da ONG CRIOLA, a Cíntia SanMartin da UERJ e a Valéria Lourenço da UFRRJ; além de manter a página no Facebook sempre ativa com notícias e artigos acadêmicos sobre os temas que nos tocam e, por fim, servir como portal de denúncia e apoio a qualquer mulher que tenha sofrido qualquer tipo de abuso dentro e fora das dependências da FGV.

Luciana: É importante dizer que o Coletivo contou com o apoio do Núcleo Pedagógico e de grande parte do corpo docente do nosso e dos outros curso desde o início, e eles nos fortalecem para atuar de forma mais institucionalizada para realizar esse tipo de evento na própria FGV.

Aline: A instituição em que estamos não apresenta histórico de mobilização política estudantil, então, a necessidade já era algo latente, tanto que surgiu outro coletivo de esquerda, chamado Utopia. Esses coletivos são importantes para estimular debates, palestras e difundir informações. No nosso caso, a questão da mulher e de seu lugar na sociedade é o aspecto central.

Luciana: Respondendo a sua pergunta, não acho que a atuação política e o estudo se dissociem e defendo muito que esses dois aspectos andem juntos.

Camilla: Acho que podemos dizer que o Coletivo é uma combinação dos dois: a gente tem atuação política a partir do momento em que nos mobilizamos para lutar por aquilo que acreditamos num espaço de inicialmente pouco diálogo, mas também trocamos muito material acadêmico e divulgamos muitos projetos de estudo bacanas na página. No mais, nos reunimos sempre que possível para discutir a dinâmica do Coletivo e pensar no melhor jeito de fazer com que ele funcione e alcançar a quem mais precisa.

Luciana: É um processo contínuo de diálogo entre nós, entre aqueles e aquelas que se afinam com a ideia e com quem discorda. Temos buscado estabelecer vínculos com outros Coletivos para trocar informações e ideias. Tivemos várias conversas pessoalmente e pela Internet até definir coisas como logotipo, administração da página, como faríamos divulgação, se seriam reuniões abertas ou fechadas… enfim, tudo o que fazemos é organizado internamente e sentimos a necessidade de dividir tarefas para que as coisas pudessem se tornar mais efetivas.

Camilla: Acho que se a gente conseguir mostrar aos outros alunos, de dentro e de fora da FGV, que é possível, sim, se juntar com um grupo de pessoas que dividam as mesmas opiniões que você, se organizar e agir em prol daquilo que se acredita, importando pouco se o espaço onde você atua é aberto a esse tipo de coisa ou não, já valeu a pena.

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Debora Albu
  • Colaboradora de Escola, Vestibular & Profissão

Debora é mestra em Estudos de Gênero e é formada em Relações Internacionais. É carioca, apesar de ter passado uma temporada da vida em Paris e todo mundo a chamar de "francesinha" - por vezes acredita ser verdade. Faz parte da gestão da Agora Juntas, um rede de coletivos feministas no Rio de Janeiro. É ciberativista e feminista antes mesmo de entender o que essas palavras significam.

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A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

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