16 de fevereiro de 2016 | Colunas, Educação, Estudo, Vestibular e Profissão | Texto: | Ilustração:
Entrevista com o coletivo Meninas Black Power
Coletivo Meninas Black Power

O coletivo Meninas Black Power é formado por Arielly Santos, Élida Aquino, Jaciana Melquiades, Jessyca Liris, Karina Vieira, Lais Reverte, Maria Fernanda Anchieta,  Suzane Santos e Tainá Almeida. Tivemos a felicidade de entrevistá-las e conhecer um pouco mais do trabalho de empoderamento do povo negro que elas têm feito, desde escolas até universidades com seminários internacionais, passando pelas redes sociais e a rua. Conheçam um pouco mais do projeto e dessas meninas poderosas com a entrevista abaixo:

Capitolina: Como e quando surgiu a ideia de criar um coletivo de meninas negras e crespas?

Meninas Black Power: Há três anos nos juntamos para colocar em prática a ideia de falar sobre empoderamento da mulher negra, valorização da identidade cultural negra e diálogos sobre diversidade além do universo das redes virtuais e influenciando diretamente a sociedade, principalmente negras e negros. A gente já fazia parte da comunidade Meninas Black Power na página e um dia fomos convidadas pela moderadora para fazer algo na “vida real”. Nosso grupo foi e continua sendo composto por mulheres negras com especialidade em alguma área de conhecimento que possa tornar nosso trabalho mais rico.

Capitolina: Sabemos que vocês realizam trabalhos de valorização de identidade, autoestima da mulher negra e beleza. Mas acredito que um dos principais trabalhos desenvolvidos pelo coletivo seja na área de educação com crianças. O que levou vocês a enxergarem isso como algo fundamental para o coletivo trabalhar?

Meninas Black Power: Crianças negras, especialmente no ambiente escolar, estiveram e estão expostas ao racismo e entendemos essa vulnerabilidade. É na infância e adolescência, principalmente dentro da escola, que os casos mais marcantes de interferência sobre a forma negativa como uma menina ou menino negrx passa a ver suas características acontecem. A gente percebe essas marcas nitidamente em nossos relatos de lembranças ruins — mas muito comuns — que nos levaram a alisar o cabelo para entrar no padrão, desejar mudar a cor de nossa pele etc. Por causa disso a gente decidiu priorizar crianças e adolescentes negrxs nas nossas ações. Tentamos falar também com a galera que está em espaços menos privilegiados, tipo periferia. São elxs que devem ter outros tipos de referência, perceber mulheres e homens como elxs que se amam e conquistaram sucesso na vida apesar das imposições sociais, aprender através do exemplo que é preciso se aceitar e se conhecer antes de tudo. Além disso também falamos com meninxs não negrxs. Racismo é conceito aprendido, principalmente em casa, e usar o ambiente da escola pra desconstruí-lo de alguma forma é importante. Escolhemos entrar em espaços educacionais por acreditarmos no poder do exemplo e na eficácia da ação conjunta. É educando que a gente vai conseguir reformar os pensamentos e a geração que está em crescimento.

Capitolina: Vocês trabalham com o desenvolvimento na área de educação tanto de crianças quanto de jovens e adultos. Em relação ao processo de resgate de identidade das crianças negras, vocês acreditam que o trabalho feito em escolas pode mudar a realidade da forma que uma criança negra se enxerga, por exemplo? Mesmo que essa criança sofra com a falta de representatividade e racismo fora do ambiente escolar?

Meninas Black Power: Como dissemos antes, acreditamos até o último fio de cabelo no poder que exemplos positivos, referências novas e inspiração têm. São ingredientes básicos na tarefa do encorajamento. Infelizmente não podemos acompanhar todos durante todo o tempo (e a gente adoraria fazer!), mas fazemos o possível para deixar ao menos uma “semente plantada”, um questionamento pulsando na cabeça e a certeza de que elxs podem tudo, podem ser tudo. Seria essencial e muito mais duradouro se conseguíssemos trabalhar por mais tempo, incluir os educadores e pais, mas é uma missão pesada e muitas vezes trabalhamos contrariando um monte de gente. Ainda assim acreditamos e vamos fazendo o melhor possível.

Capitolina: Acredito que, quando vocês fazem as oficinas em escolas ou espaços com crianças, não trabalham apenas com as crianças negras e pode ser muito positivo. Como acontece a receptividade das crianças brancas quando temas como a africanidade e a contação de histórias com personagens negros começa a acontecer nesses encontros?

Meninas Black Power: As reações são bastante diversas e variam com a idade. No início há um choque com nossa imagem (nossos cabelos, a forma como cada uma se veste, a segurança na nossa voz), na maioria dos casos a gente nota incômodo ou aquele ar de piada querendo surgir; durante as conversas elxs parecem ainda mais incomodadxs, chocadxs com as coisas que falamos; no fim raramente nos procuram pra trocar ideia.

Capitolina: E em relação ao racismo cometido por crianças e sofrido na infância, vocês acreditam que a realização desses trabalhos é uma forma de combate ao racismo na infância?

Meninas Black Power: Sim, principalmente por mostrar para meninas e meninos negros e negras que não precisam se calar para parecerem superiores; acreditar que precisam se moldar ao que outras pessoas acham interessante, escondendo suas características; também dando exemplos fortes da capacidade deles e de pessoas negras como eles, contrariando o conceito implícito de que a negritude torna alguém menos capaz de alguma forma. Nosso papel nessas atividades é potencializar, incentivar. Nós falamos pra eles através da nossa imagem, falamos através do nosso discurso. Somos incríveis, somos capazes, não precisamos nos esconder e quando tentam nos reprimir, devemos e podemos reclamar nosso direito de igualdade.

Capitolina: Além das crianças, no último ano vocês tiveram um grande alcance no ensino superior com a realização do I Seminário Internacional Encrespando na PUC-RIO. Como aconteceu o convite para a realização desse seminário?

Meninas Black Power: Foi uma surpresa boa da vida! A Carol, uma colaboradora que estuda na PUC, estava numa edição anterior do Encrespando e achou a ideia ótima. Ela já sabia do nosso desejo de fazer o Encrespando, nosso evento oficial, ter maiores desdobramentos. A Carol nos apresentou à Thula, professora de Direito na PUC. Juntas criamos o Seminário Encrespando e pretendemos fazer mais coisas incríveis a partir dele.

Capitolina: O tema do Seminário foi “Refletindo a Década Internacional dos Afrodescentes (ONU) 2015-2024″. Para vocês, o que esse tema significou? Como se preparam?

Meninas Black Power: Decidimos trabalhar esse tema por ser algo atual e que nos interessa muito. Além de sabermos que nossas questões são cada vez mais faladas entre nós, na nossa comunidade e na sociedade toda, por causa do alcance de nossa fala cada vez mais empoderada e empoderadora, há a tendência recorrente de distanciar negros do poder de falar por si. Foi assim que percebemos a oportunidade incrível que tínhamos nas mãos. Nada mais mágico que colocar mulheres negras de hoje, com a consciência que existe e é construída hoje, pra falar sobre elas e sobre nossa comunidade em geral, sobre o que estão fazendo no mundo científico e em como estão interferindo positivamente na academia. Teve um gosto melhor por ser dentro desse espaço elitista e segregador ao longo do tempo. Procuramos tornar o Seminário um espaço de encontro científico, onde todas as áreas pudessem se falar e se encontrar ao máximo, mas principalmente um lugar de trocas. Falamos de saúde, literatura, história, comunicação, artes, direito e tudo mais. Foi perfeito!

Capitolina: A PUC-RIO é uma das mais antigas instituições de ensino privado no Rio de Janeiro, é conhecida pela sua tradição e por ser uma instituição extremamente conservadora e elitizada. Como foi para vocês estarem naquele local?

Meninas Black Power: Indescritível. Dissemos entre nós que “construímos um quilombo lá”, em um dos prédios mais importantes e sobre o chão que muitas vezes marcou de jeito negativo a passagem de mulheres e homens negros no Ensino Superior. Pra gente foi mais um ato de resistência e uma maneira de mostrar que somos parte dos novos tempos. A maioria esmagadora de serventes no espaço da PUC-RJ é feita de negros. São essas mulheres e homens que limpam tudo diariamente, servem à comunidade da PUC das mais diversas formas. No entanto, essas mesmas negras e negros quase não estão entre alunos, provavelmente entre professores… Como se não bastasse essa diferença gritante entre extremos, sabemos constantemente de casos de racismo acontecidos por lá. Nossa passagem criou no mínimo reflexão e incômodo.

Capitolina: Como foi a receptividade dos estudantes de uma forma geral, mesmo os que não se interessavam pela temática durante aquela semana? Vocês têm alguma situação em específico para nos contar? Alguma situação positiva ou negativa marcou vocês naquela semana?

Meninas Black Power: Nós ficamos num andar distante da circulação comum e as pessoas que chegavam até nós já sabiam pra onde estavam indo. A maioria dos estudantes da PUC que foram até nós eram negros. Quem não era, estava querendo saber, mas a maior parte desse grupo foi só para cumprir alguma atividade especial que os professores pediam pra fazer no espaço do evento (um evento “afro” em novembro, “mês da consciência afro”, rende algum material “afro” pra contar como “consciente”) ou participar de alguma parte específica da programação. Muitas das nossas mesas contaram como aulas (ponto pra gente!) e eles tinham que ir. Mas no meio disso tudo foi marcante perceber que meninas negras, principalmente, estavam se sentindo acolhidas naquele espaço que foi se agigantando. Elas nos procuravam sempre com muita emoção, palavras doces e gratidão por estarmos de alguma forma criando algo novo. Aquela coisa de representação e representatividade, né? Sempre vai importar. Toda vez que tínhamos a oportunidade de trocar com uma dessas a experiência era emocional. Só a gente consegue entender o valor que um ato assim tem… É estar entre iguais, sentir pertencimento, perceber que não está sozinha dentro do mundo que muitas vezes sufoca. É impagável.

Capitolina: Quais são as perspectivas do Coletivo Meninas Black Power para esse ano de 2016? Terão alguma novidade, projeto ou parceria que poderiam nos adiantar? E, para além desse ano, o que vocês esperam do coletivo para o futuro?

Meninas Black Power: A gente tá acreditando muito nesse 2016, hein?! A expectativa é melhorar nossa participação nas redes sociais (onde nossos esforços se voltam para as questões da discussão e valorização da estética de mulheres negras), ampliar a participação em atividades socioeducativas e arrasar em eventos que vai balançar vários cabelos pelo Brasil. Conhecemos muita gente boa, como as bonitas da Capitolina, e vamos fazer o possível para que essas parcerias gerem coisas novas e cada vez mais interessantes.

Fotografia em destaque: Thales de Lima.

Fabiana Pinto
  • Colaboradora de FVM & Culinária

Fabiana Pinto, negra e carioca. Graduanda em Nutrição na Universidade Federal do Rio de Janeiro em tempo integral e, escritora de suas percepções e experimentações do mundo em seu tempo livre.

Sobre

A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

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