19 de janeiro de 2015 | Cinema & TV | Texto: | Ilustração:
Entrevista: Eliza Capai

Foi num processo de redescoberta de mim mesma que conheci o trabalho da Eliza Capai.

Em 2013, no CachoeiraDoc, o festival de documentários da cidade do recôncavo baiano, Cachoeira.
O nome do filme é Tão longe é aqui.
O que me chamou atenção inicialmente foi a coragem. Uma mulher, sozinha, rodando a África com uma câmera na mão, em busca de histórias de outras mulheres tão inspiradoras quanto, para entender a si própria.
O timing de ter assistido este filme naquela época não poderia ter sido mais certeiro. A coragem de Eliza me deu gás. A primeira coisa que fiz quando cheguei da exibição, foi uma lista de objetivos que me acompanha até hoje. Muitos já foram ticados, e eu agradeço a ela por ter me dado o empurrão.

Eliza Capai é documentarista premiada e já produziu em mais de 25 países. Formada em Jornalismo pela ECA-USP, dirige documentários com temáticas de gênero e sociais. Aqui na Capitolina conversamos um pouco sobre ser mulher num mercado dominado por homens, sobre suas andanças pelo mundo e sobre a sua carreira.

Untitled(Fonte: http://omenelick2ato.com/africa/eliza-capai/)

Capitolina – Você se formou em jornalismo, certo? Como é que funciona essa relação entre o seu trabalho como jornalista e como documentarista? Como foi a migração pro cinema?

Eliza – Eu entrei na faculdade de jornalismo com a curiosidade de vivenciar e observar outras histórias e transformar elas em histórias que outras pessoas pudessem ter acesso. O começo da faculdade foi muito frustrante, eu comecei a aprender sobre o lead, que eu tinha que começar o texto falando como, onde, quando e por que, e o que eu escrevia e curtia, as pessoas falavam que eu tinha que cortar, porque eu não estava falando do que importava. (…) Eu fui me desligando do texto, passei por editoria de foto, até que veio a aula de vídeo e eu pirei, amei as aulas e comecei a migrar. (…) Por sorte eu fiz ECA-USP, então a gente tinha que fazer muitas matérias para cumprir os créditos e eu fui fazendo várias de cinema, e com isso eu comecei a ver outros tipos possíveis de cinema e fui amando. Quando eu me formei estava acontecendo o boom da internet, o que abriu espaços para vídeo, que não apenas na TV. Isso me deu liberdade pra naturalmente ir migrando, eu comecei a fazer reportagens para TV, e por mais que eu tentasse fazer num formato jornalístico, eu fazia um pouco diferente, eu curtia ter sobe som e a emoção das pessoas, do que ser uma matéria muito rápida. Eu fui sacando que o meu lugar não era ali, no dia a dia do jornalismo. (…) Eu acho que foi natural o distanciamento do jornalismo, que são matérias de três minutos, vai dando vontade de se aprofundar mais nas temáticas. O produto do cinema permite um tempo maior de estudo, de gravação, de pensar no roteiro, de edição. Então foi uma migração lenta e muito gostosa.

Capitolina – Quais as maiores dificuldades que você, enquanto mulher documentarista, encontra na hora de levar um projeto pra frente?

Eliza – Meu trabalho é muito focado numa questão de gênero porque é uma questão pessoal de não aceitar que mulheres com a mesma formação, mesma capacidade e a mesma dedicação de horas de trabalho ganhem menos que homens, e que mulheres sofrem mais violência pelo fato de serem mulheres, e que na própria indústria cinematográfica, acho que 30% das diretoras são mulheres, e li recentemente que em 2013, dos filmes de maior êxito comercial, apenas seis eram de mulheres na direção. Mas a gente vive um momento no país que é uma tentativa, eu acho, de igualar esse mercado. Certamente temos muito chão pela frente, mas há editais focados para mulheres. Infelizmente eu ainda não consegui ganhar com nenhum filme, mas eu sempre inscrevo projeto. Mas por um lado eu me sinto um pouco privilegiada porque eu acho que é por ser mulher que a gente consegue ter olhares menos óbvios, porque não estamos no lugar do poder principal. Quando eu viajo como documentarista sozinha, eu sinto que se por um lado tem a questão da fragilidade e do não me colocar em certas situações por medo de violência, por estar sozinha e ser mulher, eu tento me proteger nesses momentos e colocar em foco outro sentido, que por ser mulher, há uma abertura maior das pessoas, dos interlocutores, que se sentem mais confortáveis pra conversar comigo ou pra abrir a porta da casa deles pra falar, talvez por essa mesma fragilidade visível, apresentar menos perigo. Então se por um lado eu tenho certeza que o nosso mercado dá menos chance para mulheres, eu tento tirar proveito do fato de como ser mulher documentarista tem mais portas abertas, mais pessoas que se abrem de uma forma mais verdadeira.

Capitolina – Você fez muitos trabalhos pelo canal Futura, GNT e também para o Wikileaks. Qual a diferença entre fazer um projeto encomendado e um projeto de iniciativa própria?

Eliza – O Futura e o GNT, das vezes que eu fiz, foram projetos de minha iniciativa. Eu acho que quando a gente propõe, ou pelo menos quando eu proponho, são temas que me são muito caros, são questões pessoais que eu preciso entender. (…) Para o GNT eu fiz a viagem da América Central e a viagem da África, e eram viagens que eu tinha o desejo de realizar. Quando viajo, eu tenho vontade de buscar assunto para desenvolver, então essa é a forma de conseguir viajar por mais tempo, ter dinheiro para rodar por mais tempo e entrar em lugares que eu não entraria como uma turista. (…) Para o Wikileaks não foram assuntos que eu propus, mas eram temas que eu tinha muita curiosidade, e poder conviver com pessoas que estavam fazendo coisas que eu achava absurdamente interessantes para o momento que estávamos vivendo, era genial. (…) Ano passado eu fiz um vídeo institucional (https://www.facebook.com/video.php?v=538850572912634&set=vb.419788051485554&type=2&theater) pequeno para a ABONG, Associação Brasileira de Organizações Não Governamentais, que falava da sociedade civil, mas me chamaram porque o exemplo eram as creches, a organização das mães para ter creches nas periferias. Era um trampo, mas eu fiquei absolutamente apaixonada pela temática. De alguma forma eles acabam virando projetos pessoais. (…) Se eu pudesse dar um conselho pra quem está começando é: acredite nas paixões e vá fazendo, porque pode ser que um dia, naturalmente, você será chamada e paga para fazer o que você gosta.

Capitolina Tão longe é aqui é um filme de cenas muito fortes, qual o momento mais marcante que você viveu nesse processo de filmagem do documentário?

ElizaTão longe é aqui foi pra mim um ritual de passagem de uma juventude tardia pra uma maturidade adulta profissional. Eu sempre tive muita vontade de ir para a África. Na minha família tem muito italiano, muito português, só que eu sempre tive um certo fetiche pelo avô da minha avó, que dizem que era o filho de um escravo e de uma índia, que foi abandonado numa fazenda. Não falam muito disso na família, então eu tinha curiosidade. (…) Quando foi o ano da Copa do Mundo, eu consegui vender um projeto para o GNT, a ideia era brincar com o estereótipo africana e mulheres que não tivessem nada a ver uma com a outra. Não falavam a mesma língua, não tinham a mesma cor, não tinham a mesma religião… eram pessoas completamente diferentes. Eu fui um pouco romântica achando que eu ia me identificar e que eu seria identificada com aquelas culturas, mas o que rolou foi o avesso. Quando eu fui para o interior de países em que a TV estava mais distante e que não tinha turismo brasileiro, eu era rapidamente identificada com o colonizador. Eu me lembro de chegar no interior do Mali e falavam “França!” e eu falava “Não! Brasil! Colonizado! Tamo junto!”. Eu era colonizadora, e quando eu me vi no lugar do meu inimigo histórico, foi muito forte, porque foi o oposto do que eu buscava na viagem. (…) Ser identificada como a colonizadora e não ter diálogo, lugares que eram tão diferentes que eu não conseguia entender nem ser entendida. Eu lembro que perguntei “Qual é a maior diferença entre eu e você?” e a mulher falou “Ah, você é branca e eu sou negra.”. E ri e aí ela falou “As mulheres da cidade não trabalham porque elas têm tudo, elas já têm água, elas já têm luz.”, e o que ela falava era absolutamente correto, mas ao mesmo tempo eu não me sentia à vontade de falar “Putz! Mas o meu trabalho não é carregar água e fazer comida. É num outro lugar, eu trabalho muito, só que fazendo outras coisas.” Eu não me senti no direito de discutir aquilo ali, eram mundos tão distantes que eu me calei e aí esse abismo que se abriu em várias dessas conversas, pra mim, foi muito forte. Eu não consegui me colocar no lugar daquelas outras mulheres. Como eu não conseguia ter um conceito, eu parava no preconceito, e desfazer esses preconceitos e me reconhecer primeiro como preconceituosa, e tentar entender a angústia e a raiva que essas situações me trouxeram foi o mais marcante na viagem da África.

Capitolina – E sobre os temas dos seus documentários, como que você faz a escolha dos temas e de onde vem a ideia inicial?

Eliza – Em geral são curiosidades. Quando eu morava em Barcelona, eu tinha curiosidade em entender a questão da imigracão lá. Eu propus para o Futura um documentário sobre o assunto e uma das coisas que eu foquei mais foi como Portugal muda de direito de sangue e terra para somente direito de sangue. Quando começa a descolonização da África, ele fecha a porta pros africanos das ex-colônias para imigração. Na mesma época eu propus falar sobre anti-islâmismo, ainda mais agora, com o evento do Charlie Hebdo, é algo muito atual na Europa. Já faz algum tempo que essa onda anti-islâmica, desde o 11 de setembro, ganha força e eu queria entender o que era aquilo. Foi uma forma de estudar o assunto e entrevistar pessoas que vivem ou que estudam o assunto, e assim eu consegui entender mais. O Tão longe era pra entender esses encontros e desencontros com aquelas mulheres e entender a questão da maternidade, que realmente virou um tema depois que eu fiz 30 anos. Eu tenho um projeto sobre o amor. É uma questão que eu tenho de tentar entender que sentimento é esse e como e por que a gente dá tanta importância pras nossas histórias amorosas. (…) São curiosidades minhas que faço virar propostas de documentário, – para poder ter tempo, dinheiro e a obrigação de me debruçar sobre os temas que eu sou apaixonada. Quando eu tenho a vivência emocional, a leitura, a pesquisa e a pesquisa de campo são muito fascinantes. (…)

Capitolina – Quais seus próximos projetos?

Eliza – Meu sonho agora é cada vez ter mais tempo pra me dedicar aos projetos, ter mais tempo pra estudar, pesquisar e pensar na linguagem. Ter tempo de fazer e desfazer, parar um pouco e depois rever e ver se faz sentido. Eu estou escrevendo, tentando parcerias, encontrando parcerias pra escrever projetos de mais fôlego via edital, que é uma coisa que eu nunca aprendi a fazer. Eu faço projetos mais na raça ou com pequenos incentivos direto de TV. Agora eu escrevo junto com a minha sócia, Juliana Borges, um projeto que está mais desenvolvido e que se chama A vida e as vidas de Munir, um longa sobre um africano refugiado no Brasil. A nossa ideia é discutir sobre as tantas possibilidades que uma vida tem, que ela é encarnada com mais força no imigrante. Quando você chega em outro país ninguém tem uma referência sua, então é a hora que se pode afirmar, desarfirmar, se reinventar. (…) No final do ano passado, fiz com o Greenpeace o projeto Linhas (http://linhas.minisserie.org.br/) que era sobre energia. Estudamos agora a possibilidade de fazer um longa com esse material, que é incrível. Pensar as energias e pensar como a gente entende essas energias e as nossas necessidades como pessoas de consumo e tudo mais. É uma questão complexa e que o Brasil está vivendo de uma forma muito forte agora. Tenho o projeto do amor, um road movie que eu estou escrevendo junto com a Cora, que é uma nova produtora de duas grandes amigas, um projeto que busca entender o lugar do amor na vida de várias pessoas pelos dentro do nosso país. Também vai ser um longa. Tenho um projeto que eu ainda não posso falar muito, mas se der certo, será com um canal de televisão, sobre direitos humanos e sobre exemplos positivos de políticas públicas no mundo. Vai ser importante para nos inspirarmos um pouco em exemplos positivos de gente que se uniu em prol de lutas e conseguiu que isso realmente virasse políticas públicas e afetasse a vida de todo mundo positivamente. É a vida de independente, tem que estar com um projeto na mão e outros dez, cinco na cabeça e cinco no papel. Espero que eu consiga ficar bastante tempo em cada um desses projetos, para aprofundar e ter material que dialogue com muita gente, do ponto de vista emocional e humano, que a gente consiga se colocar no lugar de outras pessoas, pensar e repensar os outros e nossas relações. No fundo esse é o meu grande tesão. Que quando a gente entende o outro e se coloca no lugar do outro fica muito mais difícil querer guerra ou querer ter discursos de ódio.

Para conhecer um pouco mais a Eliza: http://www.elizacapai.org/

Ana Gabriela
  • Colaboradora de Cinema & TV
  • Audiovisual

Ana nasceu na Bahia em 1992. Ainda não descobriu o que vai ser quando crescer, mas aprendeu que isso não é motivo pra preocupação. Quanto mais tempo se descobrindo melhor. Gosta de ler a internet, escrever listas sobre tudo, de gatinhos e da sua cama.

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