12 de julho de 2014 | Ano 1, Edição #4 | Texto: | Ilustração:
Julia Jolie, Jana Rosa, Terezinha, Camila e Lilian: uma entrevista e quatro relatos
Ilustração: Dora Leroy.

Ilustração: Dora Leroy.

Entrevista por Bia Quadros, relatos compilados por Bárbara Carneiro.

Julia é uma jovem de 23 anos e tem um canal de vídeos em que normalmente fala de diferenças culturais, como aprender a falar uma nova língua, melhores lugares para visitar no país que se encontra (agora ela está na China). Ótimo para quem ama viajar e quer aprender um pouco mais sem sair de casa, né? O melhor do canal é que não tem apenas este enfoque, fala-se também de ciências, comida, maquiagem, entrevista com algumas pessoas que entendem de alguns assuntos…

A carioca fez uma entrevista via Facebook para a revista e mostrou um pouco do seu lado aventureiro, e deu algumas dicas importantes para quem quer viajar e fazer Ciências sem Fronteiras (porque foi aí que tudo começou).

Capitolina: Julia, nem todos da revista te conhecem. Você faria uma pequena apresentação do que é seu vlog e o que faz da sua vida ?

Julia: Então, eu sou estudante de Biomedicina na UFRJ e super interessada em Neurociência. Comecei o canal para valer quando estava nos EUA, fazendo o Ciência sem Fronteiras e tive um retorno muito bom, com muitos inscritos, e vi que podia ajudar muita gente com relação a diferenças culturais e intercâmbios, além de dicas de inglês, então continuei e estou no youtube até hoje, com várias séries no canal, desde intercâmbio até ciência.

Por que você resolveu fazer um vlog falando sobre o seu intercâmbio nos EUA, inicialmente?

Minha maior motivação no início foram as conversas com amigos brasileiros mesmo. Era tanta coisa diferente, tanto assunto, senti que mais gente precisava ver essas diferenças para a gente poder melhorar o próprio Brasil. E, claro, porque achei super interessantes e divertidas certas experiências, me deu uma vontade grande de compartilhar. Eu já tinha feito 2 ou 3 videos na época, mas tinha parado, então essa experiência nos EUA foi o que me fez continuar para valer.

Seu intercâmbio foi por causa do Ciência sem Fronteiras. Há muitas dúvidas das meninas em relação a como se inscrever, se é fácil, se é acessível etc. Você poderia dar um resumo de como conseguiu e algumas dicas principais para quem quer entrar no programa?

O Ciência sem Fronteiras (CSF) é focado em estudantes universitários das áreas de exatas e biológicas. Então em primeiro lugar a pessoa tem que estar fazendo alguma área que possa se envolver com ciência, como o próprio nome do programa diz. Com certeza o maior diferencial para o programa é ter um ótimo inglês, tirar uma boa nota nos testes de proficiência. Então eu aconselho a pessoa começar o mais rápido possível a estudar inglês e tentar manter notas boas na faculdade. Fora isso tem que passar por todo um processo seletivo que envolve cartas sobre si mesmo escritas em inglês e cartas de recomendação de professores. Outra coisa importante é ler com atenção o edital e escolher bem o país para onde vai. Tem muito lugar legal que estava sobrando vaga porque o pessoal não sabia a lingua do país ou inglês bem o suficiente! É um processo complicado e às vezes bem longo, mas vale muito a pena, é uma experiência única que muitas de nós não teríamos dinheiro para bancar do nosso bolso.
Tem mais informações neste vídeo aqui.

Quais lugares que mais gostou de visitar? Dentre estes lugares todos, qual você com certeza indicaria para ir? E qual que não?

Nova Iorque é o meu lugar favorito até o momento. Lá tem tudo e eu super indico sair do eixo mais turístico e ir explorar a cidade. Como eu morava a apenas 2 horas de lá, ia muito e era fantástico. Tem de tudo o que se pode imaginar, você consegue achar qualquer tipo de comida, qualquer tipo de música ao vivo, balada, tudo mesmo na mesma cidade. Agora um lugar que eu detestei e nem quero voltar é Durham, uma cidade pequena na Carolina do Norte. Fiz estágio lá e não recomendo ninguém morar em cidade pequena nos EUA. Pelo menos não fora do período mais movimentado, claro. Tem cidades pequenas que ficam muito boas, mas na época que morei lá era péssimo, muito parado e sem graça, eu sou uma pessoa de cidade grande.

Você já viajou para alguns países (e agora está na China, inclusive). Qual a maior diferença cultural entre eles e o Brasil?

Nossa, são milhares de diferenças. Eu estou fazendo vídeo todos os dias aqui na China justamente porque não para de ter novidade. Uma das diferenças que eu acho mais legais são os gestos com as mãos. Nós brasileiros chegamos em outro país tentando se comunicar com as mãos, achando que dá pra fazer mímica, mas é capaz de você quebrar a cara achando isso aqui. Na China, por exemplo, o número 10 é representado pela mão fechada, o que pra gente seria zero, né? Aquele gesto comum de surfistas, tipo hang loose, significa o número 6! Entre outras coisas. Outra coisa diferente é a forma das pessoas se cumprimentarem. Nos EUA mesmo mulheres só cumprimentam com aperto de mão, nada de beijinho. Quando ficam mais amigos cumprimentam com abraço. Já na China eles nem cumprimentam com aperto de mão nem nada. Só aquele tchauzinho tímido de longe e isso quando dão, porque tem muitas vezes que simplesmente eles não se apresentam nem se cumprimentam. Muitos brasileiros veem isso como frieza, mas depois que você passa a conhecer eles melhor vê que é apenas cultural.

Alguma dica para quem quer viajar e gastar o mínimo?

Ficar em hostels ou dividir quarto com mais amigos é o básico para economizar. A estadia acaba sendo o mais caro e quando você está viajando mal para mesmo no hotel, né? Uma boa também é ver em cidades grandes se eles possuem passes de metrô diários ou semanais, assim você gasta muito pouco com transporte. Ficar andando de taxi em NY, por exemplo, é querer ficar pobre no primeiro dia. Outra dica é, como eu falei, sair do eixo turístico, onde tudo vai ser mais caro e ir para áreas onde o pessoal que mora na cidade vai. E claro, super indico vir para a Ásia, principalmente China. Sendo estrangeiro aqui em Shanghai a gente não paga nada na balada, nem entrada, nem bebida, nadinha mesmo, e tem baladas ótimas. Fora a comida que sai a 3 reais por dia! E vou te falar que eu tinha super preconceito achando que aqui seria terceiro mundo. Mas Shanghai praticamente não perde para NY em nada, é muito divertido e dá pra gastar bem menos.

Algum lugar para o qual queira muito viajar? Por qual motivo?

Tailândia. Pela comida. Me apaixonei pela comida tailandesa enquanto estava nos EUA. E a cultura parece ser maravilhosa. Com certeza está num dos meus destinos prediletos, se eu tiver uma chance de ir.

Qual sua próxima viagem?

Eu não faço ideia! Realmente depois daqui da China meu próximo destino é incerto. Eu pretendo voltar aos EUA, porque meu irmão está no Ciência sem Fronteiras e porque gostaria muito de visitar amigos lá. Mas em termos de destino dos sonhos eu gostaria também de ir à Europa. Por incrível que pareça vim para a Ásia antes de ir para lá. Parece até meio doido sendo um lugar tão mais distante.

Ilustração: Dora Leroy.

Ilustração: Dora Leroy.

Pedimos para quatro pessoas escreverem sobre uma viagem que fizeram, mas escolhendo aquela que foi mais incrível. De momentos de solidão e autoconhecimento a escolhas que mudaram profundamente suas vidas, aqui estão seus relatos.

jana Jana: “A viagem mais ‘incrível’ que já fiz até agora foi um mês sozinha pela México e em São Francisco. Mas calma que não tem a ver com o destino, o que faz ser incrível é a experiência de estar longe de casa, dos amigos e do conforto solta, vendo tudo por um ângulo inesperado, repensando a vida, convivendo com o silêncio, quebrando o gelo social. Pode ser até pra mais perto, pode ser menos de um mês, ninguém volta a mesma de uma experiência dessas.”

terezinhaTerezinha: “Pedro passou muito tempo me mandando carta e fotos da cidade. Onde eu morava no Paraná não era muito grande, mas aqui era um nadinha, só tinha umas cinco ruas só e mato pra tudo quanto era lado. O povo não conhecia nada.
Não fazia muito tempo que eu tinha ficado viúva e com três meninas pequenas pra criar. Jaqueline era a mais velha, tinha o quê, oito anos. Aí Pedro foi lá me buscar no fusca porque eu não sabia dirigir. Colocamos o fogão na capota e viemos embora. Naquele tempo era difícil, hoje você vai fácil pra São Paulo. Naquele tempo tinha que ir até Montes Claros e de lá pegava um trem. Isso aqui é fim de mundo até hoje, minhas irmãs nunca vieram aqui, nem pra me visitar.
Chegamos aqui dia 29 de maio de 72. Foi aquele chafurdunço, chegamos num domingo à noite e no outro dia era feira na rua, então essa casa era só de gente pra me conhecer. Eu recebi lá da prefeitura do Paraná um dinheiro que eu tinha guardado já há um tempo, vinte e oito cruzeiros, eu acho que era cruzeiro. Eles não me mandaram embora, fizeram um acordo e me deram três meses pra eu vim e voltar pro serviço. Aí eu falei: eu não volto a tempo”

camila Camila: “Existem pessoas que esperam as férias para viajar. Outras trabalham viajando. Eu me enquadro na segunda opção, vivo em movimento com inúmeras malas e sacolas nas mãos. Poderia falar sobre as minhas aventuras (BREVES) amorosas no metrô, mas isso não conseguiria exprimir a intensidade de quando viajei nos dias 05 e 06 de junho de 2014 – greve dos metroviários.
Saí de Sorocaba com medo, embarquei às 14h para não correr o risco de perder a prova na pós-graduação, cheguei em São Paulo em tempo recorde de uma hora e em seguida já consegui pegar o ônibus para a Ana Rosa, a ida foi tranquila pelo fato de eu ter chego fora do horário de pico. Já no outro dia para voltar pra casa tive que pegar o trem até a rodoviária devido o funcionamento parcial do metrô e nisso avistei olhares perdidos, olhar de quem busca uma resposta para todo o medo. Eu fazia parte desses olhares que pedia informação toda hora e ficava atenta entre uma estação e outra, a verdade é que eu sai da minha zona de conforto para transitar por caminhos diferentes (realidade de outras pessoas).
No caos de todos os dias, vi gente gentil que pedia afago em meio a tanto silêncio, eu vi carros e ônibus parando para pedestre atravessar. Eu encontrei a reflexão por vários momentos num trecho da música do Tom Zé que ecoou na minha cabeça: ‘Oh senhor cidadão/ eu quero saber/ eu quero saber/ com quantos quilos de medo/ com quantos quilos de medo/ se faz uma tradição?’
Eu chorei por dentro até explodir pelos olhos toda a tristeza, no entanto ao mesmo tempo meu coração acelerava com esperanças de que um dia aquilo ia melhorar e que aos poucos as pessoas iriam acordar e lutar. Sempre acreditei que um pode ser muitos e que nenhuma luta é em vão, principalmente quando conseguimos mudar o nosso interno antes do externo. Cheguei em casa depois de algumas horas com chuva, abri a porta aliviada e desejei que o horário de pico daquele dia fosse um clamor de reflexão.”

Lilian Lilian: “Lá pela metade de 2012 eu fui para o Rio de Janeiro achando que estava viajando, mas na verdade estava fugindo. Eu digo fugindo porque estava cheia de dúvidas a respeito de quem eu era, o que eu queria, e como estava a minha vida. A minha ficha só caiu quando eu cheguei lá, sentindo todo um vazio dentro de mim. Eu não conseguia dormir, ficava a noite toda acordada pensando em tudo isso, mas o lado bom era poder ver o sol nascer. No mar, todos os dias, estava esse homem sozinho, remando. Eu gostava porque era a hora que eu não pensava, só ficava olhando para ele sozinho e pequeno no meio do mar. Não pensava o suficiente a ponto de conseguir então dormir. Foi assim por duas semanas. Não sei explicar o motivo, se foi o tempo ou o mar, ou ficar só. Na verdade nem sinto que preciso de um motivo, mas no último dia eu acordei cheia de certezas mais uma vez. E quando eu olhei pela janela, ele estava lá. Desde então, eu parei de fugir. Agora eu só viajo.”

Bia Quadros
  • Coordenadora de Música
  • Colaboradora de Relacionamentos & Sexo
  • Ilustradora

Bia na verdade é Beatriz e tem 20etantos anos. É do RJ, nunca saiu de lá e é formada em Artes Visuais. Transita entre ilustrações, pinturas, textos, crianças e frustrações. Tudo que está ligado a arte faz, sem vergonha e limite. Já fez algumas exposições, já fez algumas vitrines, vive fazendo um monte de coisa. Uma Metamorfose Ambulante.

Sobre

A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

Arquivos