25 de novembro de 2014 | Estudo, Vestibular e Profissão | Texto: | Ilustração:
A escola não é um lugar seguro, mas precisa se tornar um
Ilustração: Helena Zelic

Ilustração: Helena Zelic

Já foi falado aqui em EVP sobre a sala de aula não ser um espaço seguro, do caso em que uma estudante foi politicamente perseguida por seu professor – e isso na universidade. Onde, teoricamente, são pessoas adultas lidando com outras pessoas igualmente adultas, embora a relação de poder ainda se estabeleça na hierarquia acadêmica entre professor e aluna.

Se o machismo e as relações hierárquicas já se estabelecem de maneira desfavorável para as mulheres no ensino superior, é patente o exercício de poder entre professores do sexo masculino e alunas mulheres. Não faltam exemplos de humilhações, abusos de poder e assédio sexual que ocorrem nas salas de aula do ensino básico, fundamental e médio.

Lançando mão da autoridade conferida a eles, aliada ao status de poder entre os gêneros, potencializado pela diferença de idade entre professor e aluna – em que o primeiro  representa o símbolo máximo de sabedoria e maturidade -, muitos professores se acham no direito (patriarcal, é preciso ressaltar) de instaurar esse tratamento problemático com suas alunas.

Essa relação se desenrola de diversas maneiras, desde as mais sutis até as mais escancaradas, estando todas estas formas baseadas no mesmo motivo: a relação desigual entre os gêneros. Tá ficando muito teórico e blablabla feminista? Então exemplifico:

Aquele professor que sempre explica a matéria utilizando algum tipo de exemplo em que garotas são diminuídas em sua capacidade intelectual, como “Ah, meninas são mais sentimentais mesmo, é normal que elas vão pior em matemática que os meninos…” Ou então aquele professor que divide as atividades da aula entre meninos vs meninas, como na educação física, por exemplo, onde o futebol não é associado com garotas. “Melhor que elas façam alongamentos e joguem queimada.” Aquele professor de cursinho que insite em fazer piadinhas de fundo completamente sexista. Ou aquele outro que assedia as garotas, soltando comentários sobre a aparência delas e o quanto isso o agrada ou desagrada. Aliás, há muitos casos em que professores coagem alunas a manterem algum tipo de relação afetivo-sexual com eles, aproveitando-se da vulnerabilidade em que se encontram as garotas na adolescência, no ambiente escolar e sob as diferenças geracional e de gênero.

É muito complicado em primeiro lugar reconhecer essas relações, porque o ambiente escolar, por si só, já está inserido numa lógica de autoridade-obediência, que subestima previamente a capacidade dos alunos e isso se reflete de maneira mais desfavorável para as garotas. Em segundo lugar, reconhecidos esses tipos de relação, torna-se uma batalha combatê-los, justamente pelo fato de estarmos inseridas de maneira completamente vulnerável nesse ambiente e nessa teia de poder.

Mas é preciso não calar. É preciso romper esse ciclo em que homens adultos impunemente agridem emocionalmente garotas em sua fase mais delicada, que é a adolescência; em que homens muitos anos mais velhos tecem opiniões sobre a aparência e a sexualidade de meninas; em que homens em situação de poder diminuem e subestimam intelectualmente toda uma classe de pessoas só por serem do gênero feminino. É nesse ambiente onde uma pessoa passa a maior parte de sua infância e adolescência, e é justamente nesse ambiente hostil em que garotas crescem tendo sua auto-estima completamente abalada por experiências de abuso.

Se você for alvo ou presenciar esse tipo de atitude, faça o possível para não deixar passar. Conteste, converse com outras garotas que podem ter passado por isso, organizem-se para coletar relatos e exemplos e confronte os professores machistas. A escola e o conhecimento devem ser empoderadores e o processo de aprendizagem deve levar em conta o respeito (isso deveria estar implícito) a todas as pessoas. Não se pode admitir que dentro das escolas sejam reproduzidas práticas tão opressoras quanto estas citadas que, aliás, partem de relatos reais de situações vivenciadas por várias de nós, infelizmente.

A escola (e a faculdade, diga-se de passagem) não é um lugar seguro, mas precisa se tornar um.

Gabriella Beira
  • Coordenadora de Escola, Vestibular & Profissão
  • Colaboradora de Relacionamentos & Sexo

Gabriella Beira é formada em Relações Internacionais e, como qualquer "internacionalista" (é assim que se chama a pessoa que estuda RI), quer conhecer o mundo todo e, se possível, mudar o mundo. Gosta muito de falar sobre educação, cultura, sociedade e feminismo, mas seu hobby mesmo é jogar Plants vs Zombies. É impaciente, procrastinadora, irmã mais velha e aluna mediana.

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A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

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