23 de julho de 2015 | Ano 2, Edição #16 | Texto: | Ilustração: Ana Maria Sena
A escolha pelo “armário”: segredos que nos dão segurança

Há algum tempo um professor meu apresentava alguns comportamentos que se encaixavam em alguns estereótipos do imaginário comum de “o que é ser gay”. Apesar das roupas que ele usava, da maneira de falar e de alguns gostos particulares, que ele afirmava abertamente, esse meu professor era casado com uma mulher. Para mim, assim como para todas as pessoas do meu círculo social, era claro que o nosso professor era gay, e nós não víamos nenhum problema em ficar discutindo a vida dele e julgando o fato de ele após todos esse anos ainda estar no armário. Também falávamos sobre a sua esposa e se ela percebia ou não. Como não?! E se sim, como ela continuava casada? Não poupávamos críticas aos dois.

Isso porque, naquele tempo, ainda não me era claro que a sexualidade, o casamento e as escolhas de vida de meu professor e de sua esposa não eram nem um pouco da nossa conta. Tudo era exclusivamente da conta deles.

Infelizmente, isso ainda não é claro pra todo mundo. Existem as pessoas que nos pressionam a viver nossa vida conforme regras impostas “por Deus” ou “pela natureza”. Mas também existem as pessoas que não concordam nem vivem de acordo com essas regras, que tomaram a decisão de lutar contras as barreiras impostas pelas pessoas citadas primeiramente e acham que TODAS as pessoas que de alguma forma sentem não se encaixar nas tais “regras” DEVEM sair por aí gritando a plenos pulmões suas escolhas independentemente das consequências. Muito provavelmente, essas pessoas talvez não saibam como as consequências de sair do armário variam muito de acordo com cada indivíduo e sua idade, família, gênero, condição social entre outros…

SAIR DO ÁRMARIO E COMPOR A BATALHA GERAL

Há quem veja muitos problemas em rótulos, mas, às vezes, eles podem ser muito construtivos para identificação. Quando você se identifica e se assume alguma coisa, qualquer coisa que for, há algumas características específicas com as quais você diz se identificar; e quando alguém sabe quais características são essas essa pessoa pode se identificar com você. Qual a importância dessa identificação? Uai! Identificação é o que liga!

Pode parecer que eu estava zoando, mas veja bem: pense em suas amigas mais próximas. No começo da amizade, não havia algum interesse em comum que ligou vocês? Rola uma identificação com quem gosta das mesmas músicas que nós, mesmo hobbies, mesmo estilo de roupa e por aí vai.

E qual é a importância da ligação? Bom, essa já até saiu numa das nossas playlists: “todos juntos somos fortes”.

Eu, por exemplo, hoje em dia nenhuma amiga minha está no armário, então quando vira e mexe acontece alguma coisa, tanto boa quanto ruim, ou mesmo confusa envolvendo a minha sexualidade eu sei que posso conversar com elas, que elas vão me contar se já passaram por experiências parecidas, e assim poderão me ajudar a pensar em formas de lidar com os nossos problemas em comum.

Também tem a questão do exemplo, como já falei anteriormente, a nossa sociedade tem certas regras que não estão tão claras ou explicitas, ou pelo menos nem sempre. Por exemplo, é chato ficar falando no cinema. Não tem nenhuma lei ou sinal dizendo “proibido falar”, mas se você começar a tagarelar durante a sessão, muito provavelmente as outras pessoas vão te reprimir de alguma forma, às vezes verbal, às vezes até fisicamente.

Acontece que essa não é a única regra não clara na nossa sociedade, sexualidades que não correspondem ao padrão “o homem foi feito pra mulher e a mulher pro homem” são uma transgressão, assim como identidades de gênero que não se encaixam no padrão cis.

Pois bem, sempre que existe a regra existe a transgressão. E a transgressão é basicamente o que põe as regras à prova. Sendo assim, transgredindo as regras, muitas vezes, acabamos provando quão sem sentido elas são.

Daí voltando pro exemplo… A depilação feminina também é uma dessas regras. Há não muito tempo, eu, assim como a maioria das mulheres me depilava. Meio sem querer acabei me acostumando a não depilar sempre a axila e não ficar escondendo quando ela não estivesse lisinha. Mas essa era a única parte do meu corpo que eu achava “de boa” com os pelos. Então se mudou uma menina pra minha casa que não depilava nada. E aos poucos, vendo ela todo dia transgredindo aquela regra, eu fui vendo que ela realmente não fazia tanto sentido, e optei por nunca mais me depilar.

Já pensou por que tanta gente acha o fim do mundo ter beijo gay na novela? Justamente por isso, pra não naturalizar. Assim como a novela ao reproduzir beijos gays está ajudando a naturalizá-los na casa da “família brasileira”, a gente também pode naturalizar o que for no nosso cotidiano: beijo gay, beijo duplo, beijo ambíguo, não beijo…

FICAR NO ARMÁRIO E BATALHAS PESSOAIS VENCIDAS

Acontece que nem tudo são flores, nem todas as pessoas à nossa volta são lésbicas, bissexuais e trans que, nos vendo como outras lésbicas, bissexuais e trans, vão estar solícitas a nos dar uma base de apoio e seguir o nosso exemplo em transgredir a sociedade.

Algumas pessoas veem tanto sentido em algumas dessas regrinhas quanto a gente vê em não ficar falando no cinema. E essas pessoas estão prontas pra reprimir quem quer que tente transgredir as regras, tanto verbal como fisicamente.

Não é desconhecido que é uma prática comum de certos pais expulsar filhas de casa por tais motivos. Pessoas apanham na rua pelas suas roupas ou por demonstrar seus afetos em público, enfim, pessoas sofrem diversas maneiras de violência.

E não estamos sujeitas só a consequências concretas. Às vezes sabemos a opinião de alguns amigos e principalmente familiares mas temos medo de desapontá-los. Ou talvez, simplesmente temos consciência de que você não será capaz de mudar a opinião deles, nem eles, a sua, será só um desgaste à toa. Assim, optamos por permanecer no armário pelo menos pra algumas pessoas, pelo menos por certo tempo, ou até mesmo pra sempre.

Antes de começar a escrever essa matéria, eu decidi conversar com algumas amigas de diferentes sexualidades e identidades de gênero, e com diferenças de raça, perfil familiar, escolaridade… Cada caso era uma caso, literalmente. Tinha quem já tinha saído mesmo e pra todo mundo ver, quem fosse mais reservada com todo mundo, quem tinha saído mas ainda tava com um pezinho pra dentro. E cada uma tinha sua motivação. Para algumas foi mais fácil, já outras encontraram dificuldades. E no fim é isso, vão existir dificuldades e cabe a nós julgar se temos ou não a força pra vencê-las – e se estamos num contexto com segurança para isso. E se não temos: é só da nossa conta. Se alguém quiser ajudar motivando e dando força, lindo! Agora quem só julga? Pff…

Então, pra terminar, fico aqui com uma adaptação da sabedoria da MC Nem: Amiga ou inimiga, não importa o que tu é. Vou ter uma conversa contigo bater um papo de mulher pra mulher. Faça suas escolhas livremente, meça suas forças e seus esforços. Lute no que puder, no que não puder não lute ou peça reforços. Se alguém te chamar de enrustida levanta a cabeça e responde na marra enrustida é o escambau! Você não sabe o que eu passo (escolha aqui o local)!

Maísa Amarelo
  • Colaboradora de Culinária & FVM
  • Ilustradora

21 anos, cursando o primeiro de design. Pras coisas que não gosta de fazer, inventa um monte de regras. Já as que gosta - como cozinhar - faz sem regra nenhuma. É muito ruim com palavras, ainda assim resolveu escrever sobre suas receitas que, em geral, não tem medida alguma.

  • Simone

    Gostei do texto. A frase: “simplesmente temos consciência de que você não será capaz de mudar a opinião deles, nem eles, a sua, será só um desgaste à toa” define o meu caso. Poucas pessoas sabem que sou e não quero que todo mundo saiba justamente para “evitar a fadiga”.

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A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

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