20 de abril de 2016 | Ano 3, Edição #25 | Texto: | Ilustração: Helena Zelic
Escolhendo a verdade das mulheres
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Denunciar abuso é sempre difícil, e vem cheio de sentimentos confusos e negativos. Mas, e se o abusador for seu amigo, seu namorado, amigo dos seus amigos? E se, além de vítima, você se tornar, de repente, a responsável por quebrar a zona de conforto de tanta gente? E mais, se alguma amiga sua estiver escondendo um trauma só para não atrapalhar o clima agradável do seu grupo social?

Esse problema é, em linhas gerais, uma falha de confiança na verdade das mulheres. Os fatos tornam-se versões, as intenções tornam-se pouco claras, as análises tornam-se exageros. Não importa o que objetivamente aconteceu, só que mulheres não são confiáveis, ou, no melhor dos casos, que o que elas dizem nunca é o suficiente para mudar a opinião sobre um homem. Mesmo em grupos que se pretendem desconstruídos, a verdade das mulheres é sempre o último recurso. Relativizada, desconsiderada, ridicularizada.

Presos a malabarismos teóricos das mais variadas espécies – desde o clássico “ele sabia o que estava fazendo?” ao “você está certa” sem nenhuma consequência – homens escolhem a versão em que outros homens estão certos. E argumentam que ser um abusador físico, verbal e – por que não? – um estuprador, não qualifica um amigo como má pessoa. Nesses valores invertidos, estupro não é grave o suficiente para invalidar uma amizade. E, na máxima da troca de lugares, mulheres vítimas se veem socialmente isoladas, humilhadas, enquanto homens abusadores não sofrem qualquer consequência dos seus atos. Ser amigo de um abusador não é transformativo, educativo e uma boa ação, e dizer isso só afasta a verdade: ninguém se importa o suficiente com o que mulheres dizem ou sentem.

É preciso ser objetiva: ser amigo de um abusador é ignorar a verdade de uma mulher, e não tem nada mais patriarcal do que isso, não importa a desculpa inventada racionalmente. Estuprar é errado, ser amigo de um estuprador é errado e faz mulheres se sentirem abusadas todos os dias novamente, sem falar nada não só por medo do que vai acontecer, mas pelo medo do que não vai acontecer. Ou seja, o pior não é o escândalo, é a falta absoluta de reação quando um dos piores episódios de sua vida é relatado.

É preciso acreditar em mulheres, é preciso valorizar mulheres e é preciso, sobretudo, priorizar mulheres. Escolher a verdade das mulheres e agir de acordo, sem cegueira para a violência do companheiro. A única opção ética é perguntar pra vítima o que ela genuinamente quer que seja feito, e agir de acordo. Qualquer outra é o mesmo que ignorar e infantilizar uma mulher, e negar a ela a amizade que merece, em favor de um homem que não merece mais respeito algum. Escolhas categóricas são difíceis, mas a vítima aqui é uma, e só uma. Não tem saída além de olhar pra escola, faculdade, militância e qualquer outro lugar e escolher, finalmente, a verdade das mulheres. E garantir que elas nunca mais sintam necessidade de se esconder.

Teresa Soter Henriques
  • Audiovisual
  • Vlogger
  • Colaboradora de Relacionamentos & Sexo

Teresa tem 18 anos, estuda ciências sociais na UFRJ, é professora voluntária de geografia e assistiu a todas as temporadas de Law&Order SVU. Em seu tempo livre faz yoga, planos pra revolução e comida vegana. É principalmente má, mas aprendeu alguma bondade com Harry Potter.

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