21 de novembro de 2015 | Literatura | Texto: | Ilustração: Isadora M.
Escritora do mês: Carolina Maria de Jesus e a realidade sonhada

Comecei a catar papel. Subi a rua de Tiradentes, cumprimentei as senhoras que conheço. A dona da tinturaria disse:
– Coitada! Ela é boazinha…
Fiquei repetindo no pensamento: “Ela é boazinha!”

Carolina Maria de Jesus, Trecho de Quarto do despejo

Em abril de 1958 o jornalista Audálio Dantas, ao cobrir uma reportagem na antiga favela do Canindé em São Paulo, encontrou, como diz em suas palavras, “a negra Carolina, que logo se colocou como alguém que tinha o que dizer. E tinha!”. Carolina escrevia poemas, peças, romances, e mostrou para o jornalista uma série de cadernos em que descrevia sua vida e cotidiano na favela:

15 DE JULHO DE 1955: Aniversário de minha filha Vera Eunice. Eu pretendia comprar um par de sapatos para ela. Mas o custo dos gêneros alimentícios nos impede a realização de nossos desejos. Atualmente somos escravos do custo de vida. Eu achei um par de calçados no lixo, lavei e remendei para ela calçar.

Esses cadernos compunham um diário. Neles, a escritora contava seu cotidiano, seus desejos, suas dores, suas preocupações e seus pensamentos desenvolvidos numa denúncia altamente poética e crítica de uma realidade amarga vivenciada por uma mulher negra, pobre e mãe na periferia de São Paulo.
O jornalista, fascinado com os escritos que ali encontrara, notou que reportagem alguma que fizesse poderia competir com a brutal e poderosa descrição contida naquelas páginas.

Assim, em 1960, sob a organização e revisão de Dantas, foi publicado o diário de Carolina Maria de Jesus sob o título Quarto do despejo: o diário de uma favelada, na promessa de ser um grande livro que expunha, melhor como nunca, como era o cotidiano no interior de uma periferia por alguém que lá habitava.

Não demorou muito tempo e Quarto do despejo foi um dos livros mais vendidos daquele período. Carolina, que até então vivia recolhendo papeis na rua para tentar alimentar seus filhos, conseguiu, como tanto ansiava, sair do Canindé e morar num lugar melhor. E não apenas isso: ela conheceu Clarice Lispector – a mais bem renomada escritora brasileira da época. Manuel Bandeira e Rachel de Queiroz fizeram críticas positivas sobre seu livro. Segundo a pesquisadora Fernanda Sousa, “Quarto de Despejo foi um dos maiores sucessos editoriais da história literária brasileira em relação à vendagem, superando Jorge Amado, com tradução para 13 línguas em mais de 40 países”.

Assentada numa vida melhor, Carolina então se dedicou a escrever mais. Publicou logo um segundo diário em 1961 intitulado Casa de alvenaria. O sucesso, no entanto, não foi o mesmo. Dessa vez, as pessoas não acharam, como dissera Audálio Dantas no prefácio de Quarto do despejo, que “Carolina tinha o que falar”.

Afinal, o segundo diário da escritora foi realizado num bairro de classe média, onde vivia sob condições dignas parecidas com a de seus leitores, antes muito curiosos para saber como se vivia numa favela. Agora, a curiosidade sumia; não era mais o cotidiano de uma mulher que habitava um espaço marginalizado que Carolina descrevia, mas sim a vida com condições humanas que supostamente todas as pessoas deveriam ter. A graça perdeu-se. Carolina caiu; publicou ainda outros livros – Pedaços de Fome e Provérbios, em 1963, e o póstumo Diário de Bitita, de 1982 – mas nenhum deles despertou interesse do público leitor.

A partir do momento que a escritora ascendeu socialmente, não foi mais procurada. Como disse, ainda, Fernanda Sousa, Carolina, “antes de se construir no discurso do diário, foi, sobretudo, construída pelos outros”, limitada a ser apenas a “escritora favelada” ou a “voz da favela”, coisas que não expressavam verdadeiramente a sua construção literária, pois a reduziam apenas ao espaço “do qual ela própria procurou não apenas se afastar, mas também sair através do sucesso como escritora”.

Carolina Maria de Jesus morreu aos 63 anos, completamente esquecida e desprezada. Seu impacto na história da literatura brasileira foi praticamente apagado. Quarto do despejo, até hoje, é uma obra conhecida não pela sua qualidade literária, mas sim por relatar o cotidiano de uma das maiores periferias de São Paulo na metade do século XX.

É espantoso pensar que uma escritora como Carolina seja tão perversamente ignorada. Mais: é espantoso pensar que ela tenha sido considerada personagem secundária por tanto tempo em seu próprio diário, já que o foco maior dos leitores é de fato uma curiosidade pelo espaço em que ela foi condenada a permanecer.

Há um trecho no Quarto do despejo que me desconcerta profundamente. É apenas duas linhas linhas, mas consegue transmitir um lirismo violento e impactante:

9 DE MAIO: Eu cato papel, mas não gosto. Então eu penso: faz de conta que estou sonhando.

Relacionamos sonhos, normalmente, a coisas agradáveis. É claro, existem os sonhos ruins também. Aqueles sonhos em que acordar é um alívio. É desse tipo de sonho que Carolina, no trecho acima, se refere. Mas é notável que ela recorra para o sonho no sentido do pesadelo para pensar em despertar numa realidade melhor. A escritora não diz que gostaria de sonhar com coisas boas, não quer sonhar bem; ela prefere ter um pesadelo, pois somente ele poderia fazer com que ela despertasse para uma realidade melhor. Afinal, se há algo agradável no pesadelo, é apenas pensar que ele é mentira, que iremos despertar, que aquilo não ocorreu. O sonho bom desvaloriza a realidade; o pesadelo, pelo contrário, valoriza-a.

O movimento é inverso: Carolina se refere à sonhos não para sonhá-los, mas para acordar deles, pois sonhar, de fato, é algo que lhe foi privado de fazer. O sonho é também uma espécie de luxo; para tê-lo, é necessário ao menos uma realidade, mesmo que descontente. No caso de Carolina, a realidade parecia mais surreal do que um próprio sonho ruim. A condição em que foi submetida a viver era tão ilógica e violenta que entre ela e um pesadelo cruel não havia distinção.

A trajetória da escritora denuncia gravemente o racismo enraizado na sociedade brasileira que silenciou a voz de uma mulher negra que, como tantas outras, tem sim muito a falar. Mas obvio: o que ela fala interfere diretamente num sistema que possui interesses em mantê-la à margem, esquecida. E não apenas isso: uma ordem social que, assim como fez com inúmeros escritores brasileiros negros – Luis Gama, Lima Barreto, Cruz e Souza e mesmo Machado de Assis, cuja cor foi tanto omitida – insiste em apaga-la à força do tempo.

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Textos que consultei:

Carolina Maria de Jesus. Quarto do despejo: o diário de uma favelada

Carolina Maria de Jesus. Casa de Alvenaria

Fernanda Silva e Sousa. Desde o hospício e a favela, um grito negro: Lima Barreto, Carolina Maria de Jesus e a questão da voz.

Luma Oliveira. Carolina Maria de Jesus: A mídia racista e a literatura no Quarto do despejo.

Marina Lazarim
  • Colaboradora de Literatura

Marina nasceu em abril de 1993 em São José dos Campos, no interior de São Paulo. Seu endereço é desmembrado: um pedaço lá em São José, um bocado na capital de São Paulo e o restante em João Pessoa. É estudante de Letras na USP e adora poesia portuguesa. Marina prefere o verão ao inverno, gosta de signos de água, não dispensa a sonequinha da tarde e não hesita em trocar qualquer refeição por uma bela sobremesa.

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