23 de abril de 2016 | Artes, Colunas, Literatura | Texto: | Ilustração: Nathalia Valladares
Escritora do mês: Charlotte Brontë

“Eu não sou um pássaro; e nenhuma rede me prende; eu sou um ser humano livre com uma vontade independente.” (Jane Eyre, Charlotte Brontë)

Há 200 anos, no dia 21 de abril de 1816, nascia Charlotte Brontë, a terceira dos seis filhos do casal Patrick e Maria Brontë.

Sua mãe faleceu em decorrência de um câncer ovariano quando Charlotte tinha 5 anos. Três anos depois, seu pai, que era pastor anglicano, enviou-a junto com três de suas irmãs para um colégio interno. As condições insalubres da escola afetaram a saúde das meninas, causando as mortes das irmãs mais velhas, Maria e Elizabeth, por tuberculose menos de um ano depois. Essa experiência afetou profundamente a futura escritora e serviu de inspiração para o colégio Lowood em Jane Eyre.

Quando criança, Charlotte e seus irmãos costumavam brincar criando seus próprios universos e personagens fictícios. Eles escreviam muitas histórias sobre esses heróis imaginários em seus reinos inventados. Os mais velhos, Charlotte e Branwell, criaram o país de Angria enquanto as mais novas, Emily e Anne, criaram o reino de Gondal. Ainda existem manuscritos de fragmentos dos contos e poemas que os irmãos escreveram nessa época.

Em 1839, Charlotte começou a trabalhar como preceptora de crianças. Durante esse período, sofreu muitas humilhações e abusos nas casas das famílias ricas para as quais trabalhava. Os pupilos em geral eram crianças extremamente mimadas e mal educadas. Um deles chegou a atirar uma bíblia em Charlotte uma vez, o que pode ter servido de inspiração para uma cena logo no início de Jane Eyre em que John Reed atira um livro em Jane.

Em 1842, Charlotte e sua irmã Emily decidiram ir para Bruxelas, na Bélgica, para se matricular na escola de Constantin Héger. Constantin era professor das moças e era casado. Charlotte se sentia muito próxima e apegada ao professor, chegando a lhe escrever cartas de amor. Ela assumiu um posto como professora na escola em 1843, mas acabou voltando para casa em 1844. As experiências em Bruxelas serviram de inspiração para os romances O Professor e Villette.

Charlotte não conseguiu publicar O professor, seu primeiro romance. Mas o segundo foi não apenas publicado como um enorme sucesso de vendas. Contando a história da preceptora órfã e pobre que passa por muitos sofrimentos no início da vida mas encontra a felicidade no final sem nunca deixar de ser fiel a si mesma, Jane Eyre foi inovador para a época. Foi publicado sob o pseudônimo Currer Bell, que inicialmente o público acreditou se tratar de um homem. Quando se espalhou a história de que havia sido escrito por uma mulher, o livro ganhou uma reputação de “impróprio”, que só ajudou a impulsionar ainda mais as vendas.

Em 1848 a tragédia volta novamente a atingir a vida de Charlotte. Primeiro, seu irmão Branwell morre de complicações devidas ao alcoolismo pesado. Três meses depois, Emily morre de tuberculose. E cinco meses depois, a mesma doença leva a caçula, Anne.

Após perder quase toda a família, Charlotte se dedicou à escrita como forma de lidar com o sofrimento. Assim foi produzido Shirley, que trata das turbulências causadas pela revolução industrial e também do papel da mulher na sociedade da época.

Em 1854, um ano depois de publicar Villette, seu último romance, Charlotte se casou com Arthur Bell Nicholls, e engravidou em pouco tempo. Na gestação, Charlotte teve hiperêmese gravídica (vômitos excessivos que a deixaram desnutrida e desidratada) o que agravou muito sua saúde já frágil, levando à morte da escritora em 1855. Ela estava prestes a completar 39 anos.

Charlotte Brontë soube transformar seu sofrimento em arte de forma única. Falando a partir de sua vivência limitada em muitos aspectos, Charlotte conseguiu tocar no universal. Por isso seus livros são tão amados por leitores do mundo todo até hoje. Porque a mulher precisa gritar para o mundo que é um ser humano livre com vontade independente tanto na Inglaterra de 1816 quanto no Brasil de 2016.

Mariana Fonseca
  • Coordenadora de Saúde
  • Colaboradora de Literatura e do Leitura das Minas

Mariana tem 25 e se formou em medicina. Carioca, ama viver no Rio de Janeiro, mas sonha em voltar para a Escócia. É feminista deboísta e acredita que todo mundo merece chá.

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