17 de outubro de 2015 | Literatura | Texto: | Ilustração: Isadora M.
Escritora do mês: Claudia Pucci Abrahão

Claudia Pucci Abrahão nasceu em Juiz de Fora, Minas Gerais, em 1975. Aos 17 anos, foi buscar seus sonhos na cidade grande. Em São Paulo, entrou em contato com diversas expressões artísticas, estudou cinema, teatro, conheceu o ativismo social do movimento humanista e se descobriu na literatura.

O teatro a ajudou a desenvolver sua grande paixão: contar histórias. Em meio aos ensaios e à correria das produções, Claudia percebeu que seu lugar era mesmo sentada num cantinho escrevendo roteiros. Foi assim que nasceram seus primeiros trabalhos para o teatro e cinema. Sua obra explora de diversas formas o universo feminino. Na peça Jukebox, por exemplo, com estreia prevista para 2016, ela conta a história de uma mulher que fica presa dentro da máquina de música e precisa passar por vários números musicais para encontrar a saída. Mas Claudia é uma artista eclética: um de seus trabalhos de maior destaque para o cinema é o documentário Reverberações – Itamar Assunção (uma co-direção com Pedro Colombo), que passou por vários festivais.

Não demorou para que Claudia percebesse que queria também escrever livros. Em 2008, criou um blog e começou a desenvolver vários projetos literários, mas todos muito diferentes do que seria sua primeira publicação: Canto da terra: uma partilha em seis partos, um café e três atos, pela Pólen Livros, em 2015.

Desde o nascimento do primeiro filho, Claudia sentiu que precisava escrever sobre a maternidade. Suas gestações foram períodos de intensa produção artística, e os textos, poemas e cartas escritos nesses momentos a ajudaram a criar o livro. Quando recebeu o convite da editora para escrever justamente sobre o tema que tanto a fascinava, percebeu que era a hora de organizar tudo aquilo. Chegara a vez de contar a sua história, e ela sabia que não seria tarefa fácil, pois não se tratava apenas de relatar sua vida, mas sim de traduzir toda a subjetividade daquela experiência. Ela dedicou-se ao livro por um ano e enfim nasceu Canto da terra, crônicas e poemas sobre a vida de uma mulher que se entrega à maternidade de forma natural e livre.

Claudia revisita seu próprio nascimento para, a partir daí, reconstruir sua trajetória de mulher, artista e mãe. É um assunto que, mais do que nunca, precisa ser lido, discutido e difundido entre mulheres de todas as idades. É uma leitura urgente nos dias de hoje, em que uma indústria se consolidou em torno do parto, desnaturalizando e invertendo a lógica do processo – a medicina deixa de servir como um instrumento de auxílio à saúde da mulher, que tem pouco poder de escolha num momento que deveria ser só seu. Basta lembrar que o Brasil é recordista em número de cesáreas (mais da metade dos partos realizados).

Embora tenha seu posicionamento bem definido desde o começo, Claudia não dita regras; ela defende que a mulher deve ser livre para escolher seu próprio caminho: “O nascimento é do filho, mas o parto é da mãe.” No entanto, a falta de informação muitas vezes pode deixar a gestante sem opções, suscetível a opiniões tendenciosas de terceiros, principalmente por se tratar de um momento muito delicado e de inseguranças. Por isso é fundamental ouvir o que outra mulher tem a dizer sobre o assunto.

Empoderamento feminino é uma das expressões em voga. Eu acho uma linda expressão, realmente, SE não se tornar um dogma. SE não retirar da lista todos os fracassos, todos os medos, todas as incertezas, todas as ações tortas. Para mim, uma mulher empoderada não é a Mulher Maravilha. Ela não tem superpoderes. Ela não está sentada sobre certezas absolutas. Ela não tem o dedo apontado pra sociedade. Ela não usa tantos pontos finais.

(muitas vezes, hesita)

… Tantas vezes, duvida… amolece. Perde a fé. Cai no nevoeiro.

E era essa a experiência que me aguardava…

Canto da terra é um livro poderoso não só pela experiência que Claudia compartilha, mas pela narrativa poética que resgata suas raízes do teatro, dialoga com a poesia e, em certos momentos, nos conduz para um realidade intensa e linda.

Claudia conta que sua formação teve influência de grandes nomes como Clarice Lispector, Gabriel Garcia Márquez, Shakespeare, Almodóvar e muitos outros, do clássico ao contemporâneo. E, além disso, desde pequena era fascinada por A história sem fim. Ela admite que livros de aventuras como Harry Potter e Senhor dos anéis são inspirações e alimentam a sua criança interior.

Claudia Pucci Abrahão é uma nova autora que vale ser lida. É versátil, criativa e muito produtiva. E 2016 promete muitas novidades: ela vai publicar uma coletânea de suas peças e um livro de fantasia, e, dando continuidade ao tema, a Pólen Livros pretende lançar a série Palavra de mãe, com poemas, crônicas e ilustrações, de quatro autoras e quatro ilustradoras, sobre o dia a dia da maternidade.

Ah, e Claudia é tão incrível que até deixou um recadinho pra gente:

“Acho que se eu voltasse no tempo, falaria o seguinte pra o meu eu adolescente: sabe o que te move lá dentro, que você precisa fazer mesmo que doa, mesmo que você tenha que fazer em pedaços o que sempre pensou de si mesma? Faça. A gente só entende lá na frente o porquê de alguns caminhos. E já que vai fazer, vai rindo de si mesma, não se leve muito a sério. A gente também só entende lá na frente que quando quebra o salto é que dá pra pisar na terra, e isso faz cócega no pé, dá liberdade.”

Conheça mais sobre a autora aqui e veja a página do livro no Facebook.

Marcela de Oliveira
  • Revisora
  • Colaboradora de Literatura

Tenho 25 anos, sou carioca e formada em Produção Editorial. Trabalho com livros e essa é minha grande paixão na vida. Amo literatura, séries de TV, filmes, quadrinhos... Na verdade, amo todos os tipos de histórias. Também adoro cachorros, cabelos, cantoras pops e dar risadas.

  • http://equantoapepsi.blogspot.com.br Juliana

    Fiquei louca para ler algo dela

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