19 de dezembro de 2015 | Literatura | Texto: | Ilustração: Isadora M.
Escritora do mês: S. E. Hinton

*contém spoilers sobre os livros*

É frequente no meio literário que autoras mulheres se escondam atrás de iniciais na publicação de seus livros. J. K. Rowling (saga Harry Potter) e E. L. James (Cinquenta tons de cinza) são dois exemplos famosos de autoras que transformaram seus nomes femininos em iniciais neutras para evitar que a crítica de seus trabalhos fosse influenciada pelo simples fato de serem mulheres escrevendo. No final dos anos 1960, aos 18 anos, Susan Eloise Hinton publicava seu primeiro romance, The Outsiders, que ela havia escrito quando ainda estava na escola, sob as iniciais S. E. Hinton, uma ideia de seu editor para que as críticas a seu livro viessem de maneira neutra.

The Outsiders foi lançado em 1967 e narra a história de dois grupos rivais: os greasers e os socs na cidade de Tulsa, em Oklahoma. A inspiração para o livro foram as brigas de gangues que aconteciam em sua escola e os livros para adolescentes que ela achava que não falavam a verdade sobre adolescentes. Ponyboy e Johnny são dois adolescentes que acabam se metendo numa briga que resulta na morte de um soc, assustados e sem saber o que fazer se isolam numa igreja abandonada no meio do nada. A tensão entre as duas gangues rivais aumenta depois do episódio e Johnny e Ponyboy decidem voltar pra cidade, mas no momento em que estão indo embora percebem que a igreja está pegando fogo e que há crianças lá dentro. Dallas – um amigo que os ajudou a se esconder e veio vê-los, Ponyboy e Johnny se arriscam e salvam as crianças do incêndio.

Os jovens passam de delinquentes e assassinos foragidos a heróis locais do dia para a noite. Parece constroverso, mas essa dualidade entre os bons e os maus, o certo e o errado é frequente nas narrativas de Hinton, já que parece se recusar a criar personagens sem profundidade. No livro, a autora dá a visão dos menos desfavorecidos socialmente, os socs. Mas ao mesmo tempo mostra que o lado da pirâmide social em que alguém pode se encontrar não siginifica que a vida seja feita só de coisas boas. Esse é um ponto em sua escrita: fazer com que leitores e personagens vejam que todos têm problemas e mesmo que pareçam diferentes, passamos por problemas universais.

Para os personagens de Hinton, a violência não é algo sobrenatural, mas parte de suas vidas e de seus dia a dia. Muitos dos personagens fazem ou fizeram parte de gangues, falam muitas vezes com nostalgia de épocas em que havia brigas recorrentes, de quando ganhavam dos rivais e dos laços que eram criados entre aqueles que participavam das gangues. Mas a mesma violência que unem os jovens, destrói e marca suas próprias vidas e a morte ou o risco da morte de pessoas próximas. Podemos dizer que a autora naturaliza a violência de um certo modo, mas isso não significa que ela a glamurize. Os mesmos personagens que dizem gostar de brigar em alguns momentos cedem à ideia de violência como uma coisa ruim. Ela é boa apenas quando se está ganhando. As brigas podem ser uma parte mais frequente daqueles que vivem em áreas de maior risco e de grande pobreza, mas não é exclusiva desse grupo de pessoas.

Ponyboy de The Outsiders se espanta ao saber que Cherry Vallace, mesmo vindo de um local privilegiado, tem os mesmos questionamentos que ele. Existe toda uma sociedade entre os dois, mas de algum modo eles são parecidos e passam por coisas parecidas. Em Passou, já era (That Was Then, This Is Now), Bryon vem de uma família pobre, mas tem diversos amigos de classes sociais mais favorecidas e em determinado momento do livro ele diz se sentir como se fosse um prêmio para eles se mostrarem como são pessoas incríveis que têm até um amigo pobre.

O relacionamento entre irmãos é um dos pontos mais fortes e decisivos nas narrativas. Os Curtis de The Outsiders, os irmãos de vida Mark e Bryon de Passou, já era, Rusty e o Motoqueiro de O Selvagem da motocicleta (Rumble Fish) e Tex e Manson de Tex. Ponyboy perdeu os pais em um acidente e só tem os dois irmãos mais velhos, enquanto se dá bem com o do meio, o relacionamento entre ele e seu irmão mais velho é tumultado, já que ele, muitas vezes, age como agiriam seus pais do que como irmão. Rusty tem um enorme fascínio por seu irmão mais velho, o misterioso Motoqueiro. Ele deseja de algum modo ser como ele: sem medo de nada, um líder nato e dono de seu próprio destino, o Motoqueiro parece estar acima de qualquer outra pessoa. Diferente dos irmãos de The Outsiders e O Selvagem da motocicleta, que lidam com as dieferenças entre irmãos mais velhos e mais novos, Bryon e Mark são dois adolescentes que acabam se afastando por escolherem tomar rumos diferentes. Diferentemente das outras famílias, os dois são mais donos de suas próprias narrativas e os eventos finais no livro têm mais a ver com suas escolhas pessoais do que a interferência de terceiros.

Parece que os jovens dos livros têm mais aptidão a escutarem seus próprios semelhantes que os pais ou adultos. Quando não estão mortos, os pais dos personagens ou são ausentes ou relapsos à criação de seus filhos. Os pais acabam por terem suas vidas separadas e lidam sozinhos com seus próprios problemas. Quando são presentes, são violentos ou têm grande dificuldade em entender os filhos – o que acaba criando traços determinantes e influenciando seus destinos. Os adolescentes convivem muito mais com seus irmãos ou amigos e o senso de comunidade e grupo que têm é essencial para muitos dos personagens. Em uma entrevista para a The New Yorker a autora diz que pelo fato de ser adolescente quando começou a escrever e não saber nada sobre adultos, era fácil não os ter em suas histórias.

Nos cinco livros de S. E. Hinton é comum encontrar personagens que circulam entre as histórias, já que todos se passam na mesma área geográfica. Hinton também é atenta ao que acontece na sociedade norte americana na época em que escreveu cada livro. É interessante pensar também, que apesar de ser mulher, a obra de Hinton é dominada por personagens masculinos e relações masculinas. As mulheres são sempre as mães ou os interesses amorosos.

Como é comum com muitos livros, suas obras já foram adaptadas para o cinema. The Outsiders e O Selvagem da motocicleta foram dirigidas por Francis Coppola, ambas lançadas em 1983. Passou, já era é um filme de 1985 dirigido por Christopher Cain e escrito por Emilio Estevez – que atuou também numa das adaptações de Coppola. Dirigido por Tim Hunter, Tex foi lançado em 1982. The Outsiders faz parte da grade curricular de diversas escolas nos Estados Unidos e sua obra já foi banida de escolas e bibliotecas por conta de seus temas frequentes como a violência e drogas.

Susan E. Hinton sempre foi uma autora muito reservada e não costuma dar entrevistas nem participar de eventos literários (mas possui uma conta oficinal no Twitter) e é conhecida por essa sua reclusão. Ela acabou por assinar todos seus livros como S. E., pois assim poderia ter uma persona literária e outra privada. Algumas edições de seus livros vem com seu primeiro nome, Susan. Todos seus romances foram traduzidos para o português e podem ser encontrados em sebos. As novas edições de The Outsiders e O Selvagem da motocicleta têm preços bem camaradas.

*OBS: O texto foca bastante em The Outisders, seu primeiro e mais famoso livro, mas diversos pontos do livro são comuns e refletem em toda a sua carreira.

Natasha Ferla
  • Coordenadora de Cinema & TV
  • Colaboradora de Estilo
  • Audiovisual

Natasha Ferla tem 25 anos e se formou em cinema e trabalha principalmente com produção. Gosta de cachorro, comprar livros e de roupas cinza. Gosta também de escrever, de falar sobre o que escreve porque escreve melhor assim. Apesar de amar a Scully de Arquivo X sabe que no fundo é o Mulder.

  • http://equantoapepsi.blogspot.com.br Juliana

    Fiquei louca para conhecer esse livro, The Outsiders, e a obra da autora. Antes de conhecer a Capitolina, nunca tinha me dado conta da importância de ler mulheres (isso sendo uma pessoa que sempre gostou de ler e de escrever)

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A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

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