28 de setembro de 2015 | Sem categoria | Texto: | Ilustração: Duds Saldanha
Espaço-tempo, buracos de minhoca, ou como (não) viajar no tempo

Alguma vez você já se pegou pensando em como sua vida não está do jeito que você queria, e ficou com vontade de poder dar uma olhadinha no futuro pra saber se as coisas iam melhorar lá pra frente? Ou então talvez você já tenha feito alguma coisa no seu passado da qual se arrependeu tanto, mas tanto, que queria poder entrar em uma máquina do tempo, voltar para aquela época, encontrar com você mesma e impedir você de fazer aquilo. Mas e se quando você impedisse a você do passado de fazer aquilo, a você do passado crescesse, chegasse no momento do presente em que você estava antes de ir fazer a viagem no tempo, e resolvesse que não queria mais voltar para o passado, pois no final não estava arrependida do que você tinha feito? Se você não voltasse pro passado, como é que você ia ser aquela nova você que escolheu não voltar pro passado? Ficou confuso? Pois é, quando a gente pensa em viagem no tempo, sempre tem um monte de paradoxos que poderiam acontecer caso desse pra gente ir dar uma voltinha no passado, e isso faz parecer que essas viagens não podem acontecer na vida real. Filmes e séries de ficção incríveis com esse tema é o que não falta. Mas na verdade a viagem no tempo não é SÓ ficção, e sim algo realmente discutido por cientistas, e por isso agora, com a coluna de ciências, achamos legal dar uma revisitada no tema, e ver como é que cientistas tratam desse problema. A viagem no tempo pode gerar contradições, mas na ciência uma coisa que é contraditória ou não pode existir na realidade, ou tem um jeito de ela não ser contraditória. Então viagem no tempo existe ou não afinal?

 

Dá pra viajar no tempo?

Até o começo do século XX, não parecia ser possível. A teoria mais aceita pela física dizia que o tempo é algo absoluto, ou seja, não importa aonde você esteja ou qual a velocidade com que você se movimenta em relação a mim, se para você passou um segundo, para mim passou um segundo. Considerando essa teoria, as viagens no tempo não podiam acontecer, porque uma vez que o tempo tinha “começado” na origem do universo, todas as coisas que surgiram junto com ele só avançam nesse tempo. Porém, nessa época, Albert Einstein (aquele físico famoso de cabelo branco espetado e língua pra fora) propôs uma outra teoria – chamada Teoria da Relatividade Restrita – que diz que o tempo é relativo. O que isso quer dizer? Digamos que você esteja se movendo em relação a mim, e eu esteja parada, e que eu possa olhar tanto o meu próprio relógio quanto o seu relógio. Se eu comparar o tempo que eu vejo passando no meu relógio com o tempo que eu vejo passando no seu relógio, o tempo passa mais rápido no meu relógio!! (Sério, isso é muito esquisito e incrível e parece tudo mentira, mas acontece de verdade. A gente não percebe isso no dia a dia porque as velocidades das coisas que a gente vê se mexendo são pequenas, e esse efeito aumenta com o aumento da velocidade, mas isso acontece com tudo. Isso até é usado pra calibrar GPS . Outra coisa que o Einstein falou foi que o tempo, além de relativo, é algo indissociável do espaço; os dois são na verdade uma coisa só, o espaço-tempo, e esse espaço-tempo é o que forma todo o nosso universo. Tudo acontece em um ponto desse espaço-tempo, e observadores se movendo um em relação ao outro discordam sobre o ponto no qual um evento aconteceu (e por isso que a gente vê tempos diferentes pras coisas).
Mas acontece que, por causa disso, se eu entrar em uma nave espacial, acelerar ela até ela chegar a uma velocidade próxima da velocidade da luz (porque, de acordo com a teoria do Einstein, pra passar da velocidade da luz você teria que ter energia infinita, e como isso não é possível – por motivos que não vão caber nesse texto -, a velocidade da luz é a maior velocidade da natureza), der uma voltinha de alguns anos pelo Universo e voltar pra Terra, seu tempo vai ter passado muito mais devagar do que o das pessoas na Terra, e seus amigos, os filhos deles e talvez até os netos deles e muitas outras gerações, dependendo de quanto tempo demorar sua viagem, já terão morrido, enquanto pra você só terão passado alguns anos. E isso é uma coisa que acontece de verdade!! Ok, acelerar coisas tão grandes quanto uma nave espacial até próximo da velocidade da luz é bem complicado, pelo menos com a tecnologia que a gente tem hoje em dia, mas mesmo acelerando a nave até velocidades menores ainda assim o tempo pra você que está dentro dela vai passar bem mais devagar. Então digamos que pro “futuro” é possível a gente viajar; não para o nosso próprio futuro, mas pro futuro das pessoas que ficaram aqui na Terra.

Ok, mas e se eu quiser voltar pro passado?

Agora chegamos ao ponto mais complicado: se quanto mais rápido eu me movo em relação a você, mais devagar o meu tempo passa quando observado por você, existe uma velocidade alta o suficiente para que, quando você olhar o meu relógio, ele se mova no sentido anti-horário, e o meu tempo vá no sentido oposto ao seu? Bom, infelizmente pra nós, sonhadoras da viagem no tempo, isso não é possível. Pra isso acontecer, só se a velocidade fosse maior do que a velocidade da luz, e como eu já falei aí em cima, o Einstein mostrou na teoria dele que isso não pode acontecer.
Mas calma, teria um outro jeito de viagem no tempo acontecer, teoricamente. O Einstein também propôs, em outra parte da Teoria da Relatividade, que a matéria e a energia que estão nesse espaço-tempo o deformam (como quando você fica em pé em uma cama-elástica, só que acontece com três dimensões de espaço, e com o tempo também), e isso também poderia ser uma possibilidade para a viagem no tempo; se o espaço-tempo for deformado de um jeito certo, dá pra voltar no tempo? A teoria da relatividade (que na verdade, como toda teoria física, é composta de um conjunto de equações, que dão pra teoria um apoio matemático) dá margem para diversas “interpretações científicas” (que na verdade são soluções matemáticas dessas equações) de como é o universo, e algumas delas admitem a possibilidade de viagem no tempo. Muitos modelos de universo já foram propostos: alguns deles já foram refutados, porque não são consistentes com teorias que atualmente são aceitas (e isso é uma coisa importante pra uma nova teoria da ciência ser um bom modelo do universo, ou então ela tem que ser mais bem fundamentada do que a teoria que já existe), e outros ainda não foram comprovados que são verdadeiros, mas tem gente pesquisando eles até hoje.
Mas então, o que importa aqui é que o espaço-tempo é algo deformável, independentemente de como for o “formato” desse universo. E isso que seria importante pra voltar pro “passado”. Porque afinal, toda viagem precisa de um meio de transporte.

E como seria uma máquina do tempo nesse universo deformável?

Essas máquinas do tempo não seriam carros ou cabines telefônicas que você programa a data para a qual quer voltar. Elas seriam parte do próprio espaço-tempo.
Imagina se o Universo fosse uma folha de papel dobrada ao meio, e a gente fosse um desenho nessa folha, e quisesse chegar de um ponto a outro que estão na mesma face do papel, mas muito distantes comparado ao nosso tamanho. Quanto mais a gente anda nesse papel, mais o tempo passa, então pra chegar no outro ponto ia demorar muito. Mas agora, se tivesse um furo passando pelos dois pontos e um túnel ligando eles, a distância entre eles seria muito menor através desse túnel, e então demoraria muito menos pro nosso desenho chegar de um até o outro! Esses tais túneis que poderiam existir no Universo são chamados de “buracos de minhoca” (não, eles não são buracos de minhoca de verdade, esse é só um nome bonitinho pra eles), e eles são as nossas possíveis máquinas do tempo! Acontece que até hoje não conseguiram ver um jeito desses buracos existirem no nosso Universo, pelo menos não grandes o suficiente e por tempo suficiente pra gente passar com uma nave espacial através deles.
Mas só pela graça da coisa, vamos supor que isso fosse possível. Ok, até agora só deu pra entender que esses túneis fariam a gente demorar menos tempo pra ir e pra voltar, mas ainda assim demoraria um certo tempo pra fazer essa viagem. Então como a gente poderia voltar no tempo com eles? Bom, esse túnel tem duas pontas. Digamos que uma delas esteja na casa e outra esteja dentro da sua nave espacial. Se sua mãe ficar olhando para a boca do buraco que está na sua casa e você for com a da sua nave dar uma volta pelo espaço, quando a sua mãe olhar através do buraco ela vai ver você dentro da nave, viajando. Se você demorar umas horas pra ir e voltar, viajando próximo da velocidade da luz, sua mãe vai ver, através do buraco, você pousando de novo na Terra. Mas, se ela olhar pra fora, você não vai ter pousado ainda, e só vai pousar alguns anos depois. Se então, depois desse tempo todo, ela vir você pousar, entrar na sua nave e passar pelo buraco de minhoca, ela vai voltar pra dez anos no passado, dentro da sua casa, e encontrar ela mesma.
Tá, parece confuso, e é mesmo, e além de ser confuso alguns cientistas já falaram que viajando com uma boca do buraco de minhoca na sua nave, mesmo que isso fosse possível, ele não continuaria aberto quando você voltasse. Pra ser sincera, sobre buracos de minhoca, ninguém tem muita certeza de muita coisa.

E se tudo isso fosse possível, como ficam todos aqueles paradoxos que você falou que iam acontecer no começo?

Bom, vamos retomar os paradoxos então. Se eles realmente forem paradoxos, ou seja, se o fato de eles ocorrerem implicar em que eles não poderiam ocorrer, então eles simplesmente não podem ocorrer para começar. Mas será que eles são mesmo paradoxais?
Voltando pra história de “você voltou no passado pra impedir você mesma de fazer aquilo, mas quando chegou no momento de você voltar no passado de novo, você não queria mais voltar”. Uma possibilidade é: não tem discussão, por mais que você não queira, no final você voltará. Isso vai contra a ideia de que nós temos livre-arbítrio pra fazer o que quisermos. Dessa maneira, nós já teríamos um destino pré-definido. Isso até poderia acontecer… Mas também tem o fato de que a gente se lembraria do futuro, e isso seria um problema do ponto de vista de algumas leis da física também.
Outra ideia, bem mais louca e muito mais especulativa, é a ideia de que não há só um Universo, mas sim um Multiverso, com múltiplos universos. Quando você decide que não quer mais voltar pro passado, tudo bem, porque essa você que decidiu isso está em um outro universo diferente daquele no qual você decidiu voltar. E então todos esses universos coexistem simultaneamente, e você que está lendo isso é só uma você de um desses universos. Mas essa ideia também não é comprovada e não tem nada de real, por enquanto.

Não entendi. No fim, rola ou não?

Mesmo que existam, no nosso espaço-tempo deformável, buracos de minhoca, eles provavelmente são microscópicos, e mesmo que fosse possível aumentá-los o suficiente para passar só uma formiga, é provável que eles não pudessem ficar abertos tempo suficiente para se tornarem uma máquina do tempo. Há físicos que acreditam atualmente que a natureza deve ter condições que “proíbam”, por assim dizer, a criação de uma máquina do tempo. Um deles é o Stephen Hawking, um físico atual que escreve várias coisas de divulgação científica, e que tem um livro que fala só sobre tempo, chamado “Uma Breve História do Tempo”.
Bom, resumindo, esse tema todo é bem complexo, e atualmente não há maneira de se viajar para o passado, feliz ou infelizmente. Mas uma coisa legal da ciência é que as pessoas vão trabalhando em cima de teorias antigas, desenvolvendo teorias novas e repensando as coisas constantemente. E não tem, atualmente, nenhuma teoria concreta e bem fundamentada que diga que viagens no tempo são proibidas pela natureza. Então, vai que, né? No futuro, quem sabe?

 

Para ler mais sobre
howstuffworks: Buraco de minhoca

hype science: Buracos de minhoca poderiam enviar mensagens para o passado ou futuro

Mariana Cipolla
  • Colaboradora de Ciência e Tecnomania
  • Revisora

Tem 21 anos, mora em São Paulo capital e adora café (mas sem qualquer infinitésimo de açúcar). Não acredita em signo, não gosta de fazer escolhas, tenta se planejar com antecedência e sonha em um dia conseguir terminar de ler todos os livros que tem. Estuda física, e queria que todas as pessoas pudessem se encantar com as maravilhas dessa ciência tanto quanto ela (queria conseguir ser uma boa divulgadora de ciência e/ou professora pra tornar isso um pouco mais possível). Mas acha que a ciência só vai ser completa quando houver mais mulheres cientistas e quando essas não forem estigmatizadas.

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