12 de maio de 2014 | Cinema & TV | Texto: | Ilustração: Isadora M.
Especial Cinema & TV: Meninas Malvadas

Meninas Malvadas é um filme de 2004 que, como milhares de outros, retrata o cotidiano de meninas adolescentes no Ensino Médio nos Estados Unidos; uma realidade que normalmente não tem muito a ver com a nossa. Mas a grande diferença é que em Meninas Malvadas não existem as personagens cristalizadas que estamos acostumadas a ver em filmes com essa temática. Não existe uma menina caracterizada por ser naturalmente muito boazinha e que apenas sofre até uma grande reviravolta no final, e uma vilã que não é nada além de má. Essa é a parte da sátira bem-humorada que torna Meninas Malvadas universalmente relacionável com as pessoas e tão fetch. Existe, é claro, a figura onipotente de Regina George, que encarna a vilã e é uma peça central da tal Maldade no filme, mas ela é uma personagem multidimensional e tão importante justamente porque ela motiva outras meninas, oprimidas pela a mesma, a serem exatamente como ela, a cometerem as mesmas maldades que ela faz para serem bem aceitas da mesma forma. Não há uma “mocinha” e não há personagens com identidades imutáveis, assim como na vida real.

A primeira vez que assisti a esse filme, uns 10 anos atrás, na casa de uma amiga minha responsável por algumas grandes mudanças na minha vida. Ela me ensinou, por exemplo, que a forma que eu usava o casaco amarrado na cintura era ridícula e que eu deveria amarrá-lo no quadril. Depois de me sentir terrível por bastante tempo imaginando todas as formas que as pessoas deviam ter me julgado pelo erro tenebroso de amarrar o casaco na altura errada do torso, eu passei a usá-lo do jeito certo”. Essa parte da minha adolescência se separa em duas fases, C.C. (casaco na cintura) e C.Q. (casaco no quadril). Tipo a Cady Heron, depois de ser ensinada que todas as quartas-feiras deve-se usar rosa, senão você tem que sentar com algum dos seres humanos inaceitáveis e cometer suicídio social. Eu assisti a Meninas Malvadas com minha própria Regina George. O que não quer dizer que eu nunca tenha sido uma vilã. Ainda me lembro de ter simplesmente rido e sido conivente quando todos da minha turma cantavam alguma musiquinha humilhante e riam de uma menina que estudava com a gente — o que não é nada que já não tivessem feito comigo. Mas não me impediu de tomar parte nisso com outra pessoa, simplesmente aliviada porque daquela vez não era comigo.

Em Meninas Malvadas, Cady Heron chega no colégio vinda de outro país e sem nunca ter frequentado uma escola na vida. Acompanhamos, no filme, uma mudança enorme que a transforma em uma verdadeira vilã. O ponto é que nenhuma dessas duas facetas dela é natural. Acho que todo mundo deveria ver esse filme pra entender o importante conceito de sororidade — que baseia-se na ideia de que todas as meninas (inclusive as Regina Georges da vida) sofrem o mesmo tipo de opressão e que justamente por isso, não devemos fazer com elas aquilo de errado que é feito conosco. Se ninguém fizer isso, vamos ter muito mais meninas felizes, e não corremos o risco de atacarmos umas às outras nos corredores de colégios. Assim como no filme, é extremamente comum vermos garotas que julgam outras garotas por ficarem com muitas pessoas, usarem roupas muito curtas, terem um cabelo em um corte meio esquisito ou não depilarem as pernas, que esquecemos o quanto fazemos esforço pra nos mantermos nesses padrões, pra não sermos nós mesmas os alvos desses julgamentos que estamos direcionando a outras pessoas como nós, que um dia já fomos nós esses alvos, e como isso tudo nos limita.

É difícil lembrar quando se está julgando outra pessoa, que se algum dia você acordar com muito sono e esquecer de depilar as pernas, vai ter alguém te julgando exatamente da mesma forma. Esquecemos que quase toda menina um dia deixa de ficar com alguém que queria muito porque já tinha ficado com outra pessoa na mesma noite e, POR DEUS, o que vão pensar dela? Chega ser assustadora a quantidade de mulheres que humilha outras mulheres que tiveram vídeos ou fotos de sexo divulgadas sem seu consentimento na internet, como se fosse culpa delas, sendo que tudo que elas fizeram foi… serem um pouco livres. É como se uma mulher que cometesse a ousadia de tentar ser um pouco livre merecesse mesmo toda humilhação que sofre. Como eu posso tomar tanto cuidado pra corresponder a expectativas sociais de como uma mulher deve se comportar, e simplesmente jogassem-nas no lixo? Não surpreendentemente, quando confrontadas com a pergunta “quem aqui já chamou outra menina de vadia pelas suas costas?”, todas as alunas do colégio em Meninas Malvadas levantam a mão. Todas elas.

Ao longo da vida, todas nós encarnamos um pouco de cada personagem de Meninas Malvadas: um pouco de vilã, um pouco de oprimida, um pouco da menina que simplesmente não quer ser aceita, e é disso que temos que lembrar. A cena em que Cady pede desculpas a todas as meninas por tê-las humilhado, inclusive a Regina George, é a mais bonita e subestimada cena de redenção do cinema, melhor até que Audrey Hepburn na chuva em Bonequinha de Luxo. E pra terminar minha historinha, que contei ali no começo do texto, acabou que depois de sair do colégio eu percebi que casaco na cintura era mesmo muito mais bonito e é assim que eu uso até hoje.

Thais Bakker
  • Colaboradora de Cinema & TV

Thais tem 20 anos e estuda Relações Internacionais e Filosofia. Se sente bem estranha se apresentando, por isso pagou uma coxinha a quem escrevesse isto por ela. Essa pessoa também achou relevante mencionar que ela reclama mais do que o socialmente aceitável.

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