5 de maio de 2014 | Cinema & TV | Texto: | Ilustração:
Especial Cinema & TV: Meninas Malvadas

Em vista do aniversário de 10 anos do que nós consideramos um dos melhores filmes adolescentes de todos os tempos e, definitivamente, o filme adolescente do nosso tempo, decidimos dedicar todos os posts de maio da seção de Cinema e TV a Meninas Malvadas, suas personagens e aqueles envolvidos nele, analisando o que o torna tão bom. Mas o que faz de Meninas Malvadas um filme único? Se tem uma coisa que não falta no mundo são filmes sobre high school, sempre mostrando o quão hostil e absurdo aquele ambiente é, e normalmente nos fazendo rir um pouco no meio do caminho. Meninas Malvadas, no entanto, alcançou algo que poucos conseguiram: universalidade. As piadas feitas sobre aquele microcosmo adolescente, aquela pequena sociedade escolar tão regrada e dividida de acordo com uma hierarquia rígida pelos próprios estudantes, ressonaram em todos que assistiram ao filme, desde mim, aos meus 8, 9 anos, até a minha mãe, que já passava dos 40. Todos nós ríamos porque, apesar de no fundo não entendermos a lógica de tudo aquilo, sabíamos que era perfeitamente possível. Nós já haviamos estado no meio daquilo, adolescentes ou não. E, à medida que eu fui crescendo, Meninas Malvadas nunca deixou de ser uma referência pra mim: desde a vez que eu e algumas amigas, no sexto ano, criamos o nosso próprio Burn Book, até o dia em que eu entrei no ensino médio e lentamente comecei a idenficar tantos grupos (alguns até iguais) quanto aqueles no mapa feito pela Janis. Quanto mais eu observava, mais percebia o quanto aquele filme tinha acertado em tudo. A lógica esquisita, as regras silenciosas – tudo estava lá, mesmo que de forma menos direta. Meninas Malvadas também acerta ao deixar bem claro que bom e mau não têm uma cara específica, e que todos nós flutuamos entre as duas categorias. Um dia podemos ser as vítimas excluídas, e, no outro, podemos usar todo aquele sistema ao nosso favor. Mas é o final da trajetória de Cady, que vai de “louca da selva, para Plástica, para garota mais odiada da escola, e, finalmente, um ser humano” que nos mostra o mais importante: nós podemos, sim, ignorar tudo isso. Só depende de nós. Então é isso. Feliz aniversário para o retrato mais imortal, não-didático e quotável do high school de todos os tempos. 10 for you, Glen Coco, you go, Glen Coco!

Introdução: Bárbara Reis

Nossa primeira semana especial Meninas Malvadas traz um post sobre a Tina Fey, roteirista do filme e também intérprete da professora Ms. Norbury.

tina fey jordana

Ilustração: Jordana Andrade

Quando eu tinha dezesseis anos, descobri que eu teria que usar óculos até o fim da minha vida. É um fardo que a gente acaba se acostumando, mas meu eu de 16 anos não tava gostando muito desse panorama.

Uma noite e eu meu irmão discutíamos sobre o fato de não ter muitas mulheres famosas que usam óculos, quando a lista de homens era interminável. Entre vários nomes, eis que meu irmão lembra da Tina Fey (depois eu descobri que ela provavelmente tem uma visão melhor que a minha e só usa pra ver de longe).

Mas o fato era que eu gostava dela e me senti um pouco menos sozinha nesse mundo de armações de plástico e lentes grossas.

Tina Fey além de ser a professora de Lindsay Lohan no clássico Meninas Malvadas é, hoje em dia, uma das principais comediantes norte-americanas. Criadora da série 30 Rock, onde também atuava, escrevia e produzia, Fey foi um dos grandes nomes do programa Saturday Night Live e teve até uma pontinha nas eleições americanas em 2008. Capaz de fazer incontáveis piadas sobre si mesma, ela é uma grande prova de que as mulheres são engraçadas. E muito.

Cursou teatro na faculdade, mas foi no Second City, um grupo de comédia em Chicago, que Fey realmente se encontrou. Lá trabalhou com diversos atores que viriam a ser seus colegas no Saturday Night Live – incluindo sua grande amiga Amy Poehler. No final dos anos 90, Tina recebeu o convite que mudaria sua vida: foi fazer uma entrevista com um dos chefões da NBC e diretor geral do SNL, Lorne Michaels.

Pra quem não conheçe o Saturday Night Live (carinhosamente SNL), é um programa de comédia da NBC que esta no ar há quase 40 anos. Cada episódio é apresentado por um ator convidado, que encenam esquetes (que são pequenas cenas com começo, meio e fim) com o elenco fixo do programa. Fazer parte do elenco de SNL ou ser roteirista do programa é o sonho de muito comediante.

Tina entrou na temporada 1997/98 como escritora e duas temporadas depois já era redatora chefe do programa. Foi a primeira e única mulher a levar o cargo sozinha. Em 2000, Tina assumiu junto com Jimmy Fallon a apresentação do quadro Weekend Update e logo depois passou também a fazer parte do elenco fixo do programa.

Ter uma mulher no cargo chefe de um programa de comédia tão famoso quanto o Saturday Night Live é uma vitória e tanto. Ainda hoje muita gente acredita que mulheres são incapazes de fazer comédia (dá pra acreditar nisso?).

“A única coisa que eu lembro sobre o episódio do Sylvester Stallone era que eles fizeram um monólogo ao estilo Rocky e eles precisavam de alguém para interpretar a esposa de Rocky, Adrian. Cheri Oteri queria muito fazer a personagem – ela era pequena, era da Filadélfia e podia fazer uma ótima imitação de Talia Shire – mas ao invés disso, alguém achou que ia ser engraçado colocar Chris Kattan de vestido. Eu lembro de ficar pensando que isso era idiotice. (…) Mas eu conto esse acontecimento em específico da Cheri sendo dispensada pelo Kattan-transvestido porque ilustra como as coisas eram na primeira semana que eu estava lá. Quando eu deixei o programa nove anos depois, aquilo nunca aconteceria. Ninguém acharia por um segundo que ter um cara vestido de mulher seria mais engraçado que Amy (Poehler), Maya (Rudolph), ou Kristen (Wiig). As mulheres do programa dominaram o programa naquela década e eu tive o prazer de estar lá para testemunhar isso.” Tina Fey, Bossypants (2011)

Meninas Malvadas (Mean Girls, 2004) é até hoje a maior aventura de Tina Fey no cinema. O filme estrelado por Lindsay Lohan e Rachel McAdams foi escrito por Fey baseado no livro Queen Bees and Wannabes de Rosalind Wiseman. Sucesso de bilheteria e público, o filme  hoje é considerado praticamente um clássico. Não só por aqueles que o viram na época do lançamento, mas também por aqueles que se aventuram pelas carreiras de Fey e Lohan.

Fetch, usar rosa nas quartas-feiras, ter sido pessoalmente vitimizada por Regina George, o suicídio social que é fazer parte dos mathlets são termos e situações parte da cultura pop moderna.  Não ha garota em que algum momento não tenha se identificado com o filme, ainda que fosse nas partes ruins da história. A grande faceta de Fey no filme é ter personagens bem desenhados e tridimensionais – ninguém é completamente bom ou ruim e mostrar que talvez falta mesmo é uma ideia de “irmandade”. O mundo das meninas pode ser cruel? Pode. E pode também ser bem engraçado.

Tina Fey deu adeus ao SNL em 2006 para poder desenvolver seu novo projeto (preciso dizer que quem entrou no lugar dela foi a incrível Kristen Wiig, que é uma ótima comediante).

30 Rock era um seriado sobre os bastidores do T.G.S., um programa de comédia feito na NBC. As coincidências com a vida real não eram apenas coincidências. Fey interpretava Liz Lemon, chefe dos roteiristas do programa e que sempre tinha que lidar com os grandes egos das estrelas do show. Fey sabia rir de si mesmo e da situação de uma mulher num mundo – no caso, a comédia, dominado por homens.

Um dos pontos altos do programa – além de ter uma coleção de personagens bizarros, era a crítica que Fey e o elenco fazia à sociedade. Nenhum assunto era proibido se tu sabia como usá-lo. Nem mesmo a própria emissora estava livre das críticas do seriado, a rede NBC era uma piada tão recorrente quanto as tentativas mal sucedidas de Jenna de se manter jovem.

Apesar de não chegar no ranking dos seriados mais vistos nos EUA, 30 Rock era adorado pelos críticos e era sempre um nome certo nas premiações de televisão.

Mesmo antes de seu final, 30 Rock já tinha um status de cult.

O que veio a acontecer nas eleições norte-americanas em 2008 não podia ter sido previsto por ninguém. O Saturday Night Live sempre fez muitas sátiras com acontecimentos comtemporâneos e obviamente as eleições não ficariam de fora.

“Lorne (Michaels) e eu discutimos a esmagadora opinião pública de que eu devia interpretar a Governadora Sarah Palin. Aparentemente, naquela manhã tanto  o porteiro de Lorne e Robert De Niro pararam ele para dizer o quão parecidas nós éramos. Teria eu coragem de desapontar Frank, o porteiro de Robert De Niro?” Tina Fey, Bossypants (2011)

Sarah Palin na época era governadora do Alasca e ia concorrer a vice-presidente dos Estados Unidos com o candidato John McCain, ambos do Partido Republicano. Acontece que Fey e Palin, apesar de não terem nenhuma conexão possuiam semelhantes feições. Na temporada de 2008, Tina Fey apareceu em diversos episódios interpretando a governadora do Alasca. As eleições foram cobertas pela mídia e satirizadas no programa, onde muitas vezes Fey dividia a tela com sua amiga, Amy Poehler, que interpretava a pré-candidata Hilary Clinton.

Seria meio absurdo dizer que aquelas esquetes de fato influenciaram alguma coisas nos números da eleição, mas é difícil olhar para aquela primeira votação depois de 8 anos de Geroge W. Bush e não lembrar do Saturday Night Live. Mas não ache que os políticos não gostavam disso, tanto Clinton como Palin apareceram no programa e querendo ou não o programa os colocava em lares não necessariamente políticos (é importante lembrar que nos Estados Unidos o voto não é obrigatório, mas opcional). As esquetes eram tão comentadas quanto os fatos políticos.

No começo do ano passado, Tina Fey e todo o elenco de 30 Rock se despediram do seriado depois de sete temporadas.

Às vezes, quando a gente gosta muito de alguma coisa ou alguém é complicado de explicar. Tudo é muito óbvio e achar razões para os outros gostarem parece difícil. A Tina Fey foi importante nos meus anos de adolescência e eu espero que vocês também tenham achado ela tão fascinante quanto eu acho.

Antes de acabar, fica uma dica da Tina pra vocês:

“12) A mais importante Regra de Beleza
Se você não retem nada [sobre dicas de beleza], sempre se lembre da mais importante Regra da Beleza. “Quem se importa?” Tina Fey, Bossypants (2011)

 

Natasha Ferla
  • Coordenadora de Cinema & TV
  • Colaboradora de Estilo
  • Audiovisual

Natasha Ferla tem 25 anos e se formou em cinema e trabalha principalmente com produção. Gosta de cachorro, comprar livros e de roupas cinza. Gosta também de escrever, de falar sobre o que escreve porque escreve melhor assim. Apesar de amar a Scully de Arquivo X sabe que no fundo é o Mulder.

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A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

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