14 de outubro de 2015 | Tech & Games | Texto: | Ilustração: Isadora Maríllia
Especial de Dia das Cri@nç@s – INTERNET DISCADA

Eu não lembro de não ter computador em casa, pelo menos na minha memória ele sempre esteve aqui, offline. Perguntei à minha mãe quando foi que nós nos conectamos (disso eu não lembro) e ela diz que foi antes do bug milênio, 1998 ou 1999. Eu sou de 92 quase 93. Fui carolcaracol@uol.com.br na discada e hoje sou starycarolina@gmail.com no 4G. Cresci junto com a internet, e a Vanessa, que foi va-chan_foxy@hotmail.com, também:

“Eu fui criança nos tempos sombrios antes da invenção da banda larga, então entrar na internet era só naquele esquema do esperar-até-o-final-de-semana, torcendo com toda a força do coração pra ela não ficar caindo a cada 3 minutos (também podia ser qualquer dia depois da meia-noite, mas meus pais não deixavam e o PC ficava no meio da sala). Agora, e quando finalmente eu entrava na internet? Aí o negócio era navegar por sites de fã das coisas de que eu gostava na época (The Legend of Zelda, Sakura Card Captors, Pokémon etc.), arriscar baixar um sonzinho em MIDI de vez em quando, ler fanfic achando que era roteiro vazado e, principalmente, jogar joguinhos de navegador! Meus favoritos eram os do site do Cartoon Network, na linha “ajude a vaca e o frango a atravessarem a rua”. Até onde eu sei, hoje o Cartoon deu uma boa profissionalizada nos seus games e grande parte são muito bons, mas eu sinto falta daqueles old schools bocós que fizeram minhas tardes de sábado mais divertidas quando eu era pequena.”

Aqui na Capitolina já fomos ar_evenstar@aol.com, lele_di_capri@hotmail.com, mahcohen@hotmail.comgege406@ig.com.br e nickinha_ohyeah@hotmail.com e, true ‘90s kids que somos, lembramos saudosas dos endereços de e-mail da Hello Kitty. De vestir bonecas virtuais no Dolls, brincar nos sites da Revista Recreio, Toddynho, Barbie e no Newgrounds, ser blogueira mirim no LiveJournal, mandar cartões animados comemorativos sem motivo nenhum, só pela novidade. Era uma internet muito menos utilitária, não concentrava, como faz hoje, todos os aspectos da nossa vida. Eu não dependia do Altavista, que veio antes do Google, para fazer uma pesquisa da escola e minha mãe ia até a agência bancária em vez de fazer transações online.

“Eu comecei a usar a internet quando eu tinha uns 10 anos – durante as férias da escola, tinha que ficar no trabalho com a minha mãe e lá não tinha nada pra fazer, até ela me ensinar a abrir o netscape e catar alguma coisa. Eu ficava nas salas de criança do bate-papo UOL, falando por horas sobre Digimon. UOL Jogos era outro passatempo, horas e horas perdidas jogando nem me lembro o quê, enquanto esperava a hora de alimentar novamente meu Splash no site da Turma da Mônica. Pouco depois, chegou a vez de Harry Potter, o vício que me levou para o mundo das fanfics. Internet só depois de meia-noite ou no fim de semana, quando o pulso (da ligação telefônica) era de graça, então eu perdia noites de sono lendo sobre realidades alternativas e desenvolvimentos absurdos de personagens completamente secundários, e às vezes salvava o arquivo html pra continuar lendo durante o dia (até hoje tenho uma pasta com vários). Das fanfics para os fóruns foi um passo, já que tudo ficava meio misturado nos sites do fandom, e quando eu vi já tinha uma família e vivíamos uma realidade alternativa de nós mesmos. Mais tarde, quando surgiu o Orkut, as famílias passaram a ser de ‘fakes’, com depoimentos secretos e brigas e traições dignas de novelas mexicanas. É estranho, mas parece pra mim que as redes sociais encolheram um pouco esse mundinho. Agora a gente tem que simular a nossa própria vida, ao invés de inventar outras. Sem graça.”

Como diz a Verônica, outrora kanina.eukanuba@uol.com.br, a internet era meio que uma vida paralela, descolada do mundo aqui de fora. Eu lembro de acompanhar minha tia em um casamento de uma amiga que tinha conhecido o futuro marido online, uma ideia tão estranha que até o padre comentou durante a cerimônia. O que acontecia na internet era difícil de explicar pra quem não estava lá. Como assim você conversa com quem não conhece? Como assim você está numa fila virtual esperando por uma vaga no servidor do Tibia? A internet fica cheia? Imperava uma desconfiança muito grande, mas não partindo de nós. A nossa geração assimilou tudo isso como com a naturalidade de quem ainda está descobrindo o mundo, o real e o virtual.

“Neopets foi uma das primeiras coisas que eu descobri ‘por conta própria’ na internet e minha finada conta isadora394 desativada por inatividade, provavelmente, seria mais velha que meus primos mais novos agora. Além do apelo do tamagotchi online, Neopets tem um universo razoavelmente grande sem deixar de ser bem assimilável pra crianças – menos algumas coisas tipo uma bolsa de valores? –, o que deve explicar tantas horas da minha vida gastas nesse site. Na verdade a grande graça de neopets não estava exatamente em cuidar dos bichos, os neopets nunca morriam se você parasse de alimentar eles e as formas de interagir com eles eram bastante limitadas e chaaaaaaatas. Sobrava mesmo ficar explorando as páginas, tentando conseguir itens raros ou deixar seu neopet bonito – e tudo isso custava muitos, mas muitos neopontos mesmo. A economia bizarra de neopets tornava bastante impossível conseguir comprar coisas legais ou nem mesmo tão legais assim. A parte boa é que a forma principal de conseguir dinheiro era: jogar jogos. E acho que aí estava o trunfo de neopets. Dava pra passar um bom tempo jogando muitos jogos, com uma vaga sensação infantil de estar recebendo uma recompensa e cumprindo sua missão, quase como receber tíquetes no fliperama pra trocar por chiclete ruim antes de ir embora. E o que mais uma criança quer além de jogar jogos e se sentir importante por isso? Rolinho de Turmac ainda é um dos meus favoritos.”

Essa economia online do Neopets da isamaldonado@bol.com.br deu lugar a um frenesi milionário de skins de Counter Strike e jogos de iPad que conseguem deixar até papai Kanye West indignado com as compras in-game da North de dois anos.

A internet mudou muito, e nós também, e é muito legal ver que essas pequenas usuárias pioneiras do ciberespaço culminaram em uma revista online desbancando muito veículo impresso por aí.

DISCADA email

Mensagem de email resgatada dos arquivos da Lorena.

Carolina Stary
  • Ex-colaboradora de Tech & Games

  • Mariana Paraizo

    eu tive um email das trigemeas. era mari_paraizo@thetripplets.com hahaha

    • Carolina Stary

      eu tive email do smashing pumpkins, linkin park… hehe

Sobre

A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

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