24 de dezembro de 2015 | Colunas, Esportes | Texto: | Ilustração: Ana Maria Sena
Esporte, estética e moda – a beleza menosprezada

Duas vezes por ano, na cidade de Siena, na Itália, cavaleiros tomam seus lugares em uma corrida milenar, representando e defendendo seus bairros. Esses cavaleiros se vestem de maneira nada convencional – roupas extremamente coloridas, anacrônicas, aparentemente saídas de um filme medieval. Este é o Palio (não, não é aquele carro).

Vestir as cores e carregar o escudo da sua terra, essa proposta medieval, vive hoje nas camisas de futebol, futebol americano, baseball, basquete, dentre outros esportes. Em alguns casos, a relação é direta, como no caso das seleções nacionais ou até mesmo em exemplos extremos como o da camisa do time da NFL Baltimore Ravens, cujo brasão é uma reapropriação direta do brasão da cidade e de seus padrões heráldicos curiosos. Claro que hoje os jogadores não mais defendem seus territórios de nascença com o afinco de uma disputa regional e com a passionalidade de um cidadão (pelo menos não fora da Copa do Mundo). Os esportes se tornaram um negócio, e essa moda que antes era funcional se tornou completamente estética.

Na Grécia, parte da atração que os esportes olímpicos exerciam envolvia a celebração da beleza do corpo e do movimento, muitas vezes imortalizada em estátuas de mármore que representavam lançadores de disco, de peso, corredores.

Em alguns esportes, a atenção à estética é, claro, mais naturalizada. São os esportes nos quais a beleza do movimento, a graça e o equilíbrio, são fatores decisivos na colocação do atleta – a ginástica olímpica e artística, os saltos ornamentais, a patinação, e curiosamente, o boxe.
Como é que toda essa questão estética que marca o esporte se tornou hoje algo que, para alguns, é uma mera distração do verdadeiro sentido da competição? Reparar em uniformes, escudos, corpos, se tornou algo que reduz o indivíduo como fã de esportes. “Você só gosta porque é bonito” ou “Você só torce por esse time por causa daquele jogador” não são frases incomuns – especialmente ditas para mulheres fãs de esportes.

Da mesma maneira, poucas camisas oficiais são trazidas para as lojas do país em tamanhos e cortes femininos. A variedade de modelos de tênis e material esportivo diferenciado para garotas também decepciona. A mesma parte estética do esporte que é considerada “coisa de garota” é negada às… garotas.
Na filosofia, se algo traz consigo valor estético, essa coisa pode ser enquadrada como arte. Mas como algo tão funcional, acusado por intelectuais de ser mero pão e circo, pode ser arte? A filósofa Jan Boxill explica: “enquanto atletas podem mirar na beleza, esse não é o único objetivo, como também não é o único objetivo do artista.”

Ana Clara
  • Colaboradora de Esportes

Ana tem um site de cinema que chama Ovo de Fantasma e está se formando em comunicação na UFMG e tentando mestrado em cinema. É obcecada em estudar cultura americana, cresceu tomboy de joelho ralado, ama futebol, baseball e futebol americano. Jogada basquete, escalava, hoje tem hérnia e só comenta e ganha dos homens no Fantasy.

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