15 de outubro de 2015 | Esportes | Texto: | Ilustração: Duds Saldanha
Esporte feminino no cinema e na TV

Começo as minhas primeiras linhas como uma Capitolina de maneira atípica em relação ao meu estilo costumeiro. Tudo bem que a primeira pessoa está aqui, e o tema não poderia ser mais apropriado – esporte e audiovisual, juntinhos – mas evocarei uma abordagem mais fria, estatística, pragmática na primeira parte desse texto. Para isso, vamos a uma amostra de três listas de melhores filmes sobre o esporte na história. As listas em questão foram publicadas pela autoridade no assunto, a ESPN, e pelos sites das respeitadas Rolling Stone e IGN. Os filmes que são mencionados em todas as três listas, eu elenco aqui:

Touro indomável, Rocky, Bull Durham, Rudy, Campo dos sonhos, Basquete Blues, Carruagens de fogo, Quando éramos reis, A história de Lou Gherig, Hoosiers, Murderball, Tudo pela vitória, Vale tudo, Milagre no gelo, Sujou chegaram os Bears, Jerry Maguire

Reparou em uma constante? Não, não é a presença massiva de Kevin Costner ou a fotogenia do Baseball. Nenhum desses filmes, em uma lista que brilha em questão de representação étnica, etária e de acessibilidade, é protagonizado por uma mulher.

Antes de mais nada, aviso: eu concordo em grande parte com essas listas. Amo a maioria desses filmes, e não consigo pensar em correções que as tornariam igualmente justas e mais representativas em questão de gênero. O problema claramente não está com as listas – está na recusa do cinema e da TV em contar histórias poderosas de mulheres que praticam esportes.

Até filmes que amamos erram na mão na hora de representar mulheres atletas. Em Meninas malvadas, o fim de Regina George é uma posição no time de Lacrosse, para “ventilar a sua raiva acumulada”. As suas colegas de time são representações estereotípicas de garotas em um esporte violento de contato. Na TV, a série de maior impacto na representação de uma comunidade esportiva, Friday Night Lights de Peter Berg, traz uma coletânea de personagens femininas fortíssimas, reais e bem escritas – mas apenas em um pequeno arco, relacionado ao vôlei, elas são protagonistas de ações esportivas.

Nem tudo é 7×1 nesse jogo, porém. Uma das representações mais louváveis na história recente do cinema é a de Maggie Fitzgerald, boxeadora interpretada por Hilary Swank no filme Menina de ouro. No filme de Clint Eastwood, a relação atleta/treinador e os perigos do esporte profissional são dissecados sem nunca delegar a mulher a um papel de interesse romântico ou atleta de ocasião. Outro filme que assume uma postura similar, mas partindo para o ramo da comédia, é Uma equipe muito especial, dirigido por uma mulher, Penny Marshall. O filme utiliza como base a história real do baseball feminino no período da Segunda Guerra Mundial, e aproveita o conceito de um time para retratar e representar mulheres de diferentes personalidades e histórias (para melhorar, o elenco é lotado de ícones feministas como Geena Davis e Madonna).

A representação da jovem atleta também é importante porque mostra para jovens garotas que o esporte é um caminho possível para elas, apesar do preconceito. A leve comédia romântica Driblando o destino se tornou um marco nesse aspecto, até mesmo por aliar representação feminina e uma protagonista indiana na, muitas vezes preconceituosa, sociedade britânica pós-colonial. Para um público ainda mais jovem, o filme Pequeno grande time foi de extrema importância na minha vida – Ice Box não só jogava um esporte que nega, todo tempo, a feminilidade (o futebol americano) como sofre pressões para se adaptar ao estilo de roupas, maquiagem e preferências que a sociedade de sua pequena cidade considera apropriada, até perceber que é mais feliz sendo fiel ao seu estilo. O esporte fica perdido no meio de tantas maravilhas que o mais recente filme da Pixar, Divertida mente, nos oferece, mas a relação de Riley com o Hockey é bela e natural.

A série da HBO In Treatment, em seu primeiro ciclo, tocou em uma ferida: abusos emocionais e sexuais, perpetuados pelo treinador de uma jovem atleta de ginástica olímpica, interpretada por Mia Wasikowska (antes da fama que veio com Alice no país das maravilhas). Uma representação difícil de absorver, mas essencial para levantar o tópico das relações de poder entre treinadores e jovens atletas.

Retomando as listas de melhores filmes sobre esporte, percebemos que as cinebiografias são abundantes. Então, a opressão que impediu muitas mulheres de atingir o estrelato nos esportes, e deixou suas histórias em volume baixo, carrega parte da culpa por esse fenômeno. A representatividade feminina no esporte está aumentando, mas temos muitas atletas icônicas que ainda estão vivas e na ativa – um tabu para o cinema que prefere adaptar histórias de vida terminadas, arcos concluídos. A perfeição e a tortura de Nadia Comaneci, o duelo de Nancy Kerrigan e Tonya Harding no gelo, Billie Jean King vencendo Bobby Riggs na batalha dos sexos do tênis, e o pioneirismo de Martas, Danica Patricks e Ronda Rouseys ainda, creio e espero, chegarão às telas – e podemos esperar filmes campeões.

Ana Clara
  • Colaboradora de Esportes

Ana tem um site de cinema que chama Ovo de Fantasma e está se formando em comunicação na UFMG e tentando mestrado em cinema. É obcecada em estudar cultura americana, cresceu tomboy de joelho ralado, ama futebol, baseball e futebol americano. Jogada basquete, escalava, hoje tem hérnia e só comenta e ganha dos homens no Fantasy.

  • Ana Carolina

    Não sou muito de ver filmes, mas houve um filme que, para mim, faltou no post: Ela é o cara. Representa o sexismo nas escolas onde o futebol feminino é desnecessário e descartável. Triste realidade!!
    Ótimo texto, bjos

    • Izabele Renata

      Eu adoro Ela é o Cara. Sempre que passa na TV eu assisto e passou 4 vezes. Sei exatamente a história, mas é tão divertida que eu nem me canso.

  • Izabele Renata

    Tenho dois outros filmes para indicar.
    O emocionante filme Soul Surfer – Coragem de viver (baseado em uma história real) fala de não desistir do seus sonhos, por mais que pareçam ser impossíveis e como nós temos que nos adaptar aos acontecimentos – https://www.youtube.com/watch?time_continue=95&v=SlQQjfC0nuE
    O filme Garota Fantástica (Whip it), a protagonista é uma adolescente rebelde que não faz o que é esperado por ela, participar de concursos de beleza como sua mãe queria, e entra para uma equipe de Roller Derby; – https://www.youtube.com/watch?v=OcmAVWik_d4 eu ainda não assisti esse

    Vou assistir os filmes que indicaram, adorei o texto!

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A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

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