3 de outubro de 2017 | Ano 4, Edição #38 | Texto: | Ilustração: Raphaela Corsi
Quando eu crescer quero ser atleta
Esporte na infância: o que leva uma criança a querer ser atleta?

Sonhar não custa nada. E, na infância, o “custo” passa quase sempre despercebido aos nossos desejos. Sonhamos alto, queremos ir além e buscamos aquilo que nos faz feliz. Imagine só transformar a educação física da escola, a aula de balé, o futebol da rua, o video game ou o kart em uma rotina que vai nos fazer “viver dela”? Imagine só crescer e se tornar um a-t-l-e-t-a  p-r-o-f-i-s-s-i-o-n-a-l?

Esse sonho de infância é uma realidade para 2,7% das pessoas entrevistadas para uma pesquisa realizada pela rede social de negócios LinkedIn. A ideia foi fazer um levantamento de 10 empregos dos sonhos desde a infância e, para isso, 8 mil internautas foram ouvidos.

Uma outra pesquisa, realizada pelo blog Fatherly, foi feita com crianças norte-americanas de 1 a 10 anos, e o resultado é ainda melhor: o sonho de ser atleta profissional ou olímpico está, atualmente, em primeiro lugar. No Brasil, essa vontade ganhou força com a Olimpíada do Rio, realizada em 2016. Ver em casa o sucesso dos nossos atletas, para além dos campos de futebol, fez com que outros esportistas e outras modalidades ficassem em evidência.

Nossa primeira medalha de ouro no Rio, por exemplo, veio no judô. Após ser duramente criticada, inclusive com xingamentos racistas, na sua precoce eliminação dos Jogos Olímpicos de Londres, em 2012, Rafaela Silva deu a volta por cima e conquistou o lugar mais alto do pódio como anfitriã da categoria -57kg. Com uma história de luta pessoal – de uma infância carente em favela do Rio de Janeiro -, a judoca tornou-se um símbolo olímpico e da luta das mulheres na busca de seus objetivos.

rafasilva

Há três motivos comuns para normalmente querer se tornar um atleta no Brasil.

Identificação nacional

O esporte está na essência brasileira e até em sua história política. Mas, mais que isso, ele faz parte do nosso contexto cultural enquanto crenças, valores e expectativas. É por meio dele que surgiu alguns dos nossos “heróis” e “ídolos”. Ayrton Senna é um grande herói brasileiro. A coroação do piloto de Fórmula 1 (modalidade que disputava no automobilismo) veio graças à idolatria que ele conquistou após seus inúmeros pódios, o tricampeonato mundial e por ter morrido “em combate”, numa batida com uma barreira de concreto enquanto disputava o GP de San Marino, na Itália, no dia 1º de maio de 1994.

O carismático tenista Gustavo Kuerten, o famoso Guga, é um dos principais ídolos nacionais. Não é herói, pois não se eternizou – por meio da morte e em ação -, mas é ídolo pela história que construiu no esporte: foi tricampeão do torneio francês de Roland-Garros e considerado, pela Revista Tênis, em 2014, um dos “10 tenistas que transformaram a forma como o tênis é jogado”. O mesmo podemos falar de Pelé, Bernardinho e sua turma do vôlei, entre outros.

As mulheres, claro, também fazem parte dessa história! Hortência foi uma das maiores jogadoras do basquete mundial de todos os tempos. São nada menos que 3.160 pontos em 127 jogos, que ajudaram o Brasil na conquista do título mundial de 1994 e na medalha de prata das Olimpíadas de Atlanta, em 1996. Não é à toa seu nome está no Hall da Fama de sua modalidade, sendo a primeira brasileira a receber a honraria.

Outra que abriu espaço sem precedentes foi Daiane dos Santos: a primeira ginasta brasileira, entre homens e mulheres, a conquistar uma medalha de ouro em um Mundial. Seus feitos são tão grandes que a atleta ainda possui dois movimentos da modalidade em sua homenagem. Entre eles, o consagrado “duplo twist carpado”.

E, claro, temos também a jogadora Marta. A atleta quebrou recordes em um esporte mundialmente comandado pela ala masculina, principalmente no Brasil, que leva a alcunha de ser o “País do Futebol”. Considerada a “Pelé de Saias”, Marta deixa qualquer comparação para trás ao escrever sua própria história: cinco vezes a melhor jogadora do mundo pela Fifa, artilheira da Copa do Mundo de Futebol Feminino de 2007 e duas medalhas de prata em Olimpíadas (em Atenas, em 2004, e em Pequim, no ano de 2008) .

Esse tipo de heroísmo e idolatria traz reverência às crianças, que desejam se tornar adultos vencedores como tais. Adultos que desejam ser ovacionados pela pátria e fazerem a diferença pelo país “vestindo a camisa verde-amarela” da forma literal e da forma mais pura que lhes são apresentados: o ser atleta.

(Falsa)-imagem financeira

Ser jogador de futebol é sinônimo de dinheiro para muitos. Neymar, por exemplo, foi vendido ao clube francês Paris Saint-Germain pelo clube catalão Barcelona por nada menos que R$ 821 milhões. O salário do camisa 10 da seleção brasileira de futebol agora é superior aos R$ 377 milhões anuais. Tudo isso para fazer o que muitos meninos sonham diariamente: jogar bola.

Mas essa realidade foge, e muito, da verdadeira história dos atletas brasileiros. Nas Olimpíadas, quando o Rio de Janeiro recebeu mais de 11 mil esportistas de 208 países, 465 atletas representaram as cores verde-amarela. Uma parcela desses brasileiros não mora no país. Seja por relação à infraestrutura para treinamento, aos patrocínios e a incentivos públicos e privados para fomento ao esporte, eles vão para outros lugares.

Em nossas terras, até 2014 (últimos dados revelados), eram 8.368 atletas profissionais empregados formalmente. A renda média salarial desse grupo está muito longe do recebido por Neymar: é de R$ 4 mil por mês. Levando em conta os jogadores de futebol dos campeonatos nacionais, a média é de que, para cada 100 mil brasileiros, quatro são profissionais bem-sucedidos do futebol. Menos de 300 jogadores de futebol do Brasil ganham mais de R$ 25 mil e mais de 3,5 mil ganham até R$ 1 mil.

O prazer pelo esporte

O prazer pelo esporte é a melhor e mais encantadora possibilidade. Isso porque realizar um sonho de criança não tem preço. Quem cresce dentro dessa prática carrega consigo valores além do físico. O esporte é um movimento que une, educa, disciplina, transforma e forma seres humanos. O atleta profissional aprende desde cedo a ter condutas como a persistência, colaboração, limite, espírito de equipe e dedicação.

Uma pessoa que “vem” do esporte traz consigo, normalmente, mais que a realização de um sonho, mas uma história de luta vitoriosa dentro e fora das disputas. É talvez por isso que aprendemos que o importante não é vencer e, sim, competir. Quem está lá no 1º ou em 200º lugar já é um campeão. Afinal, quem mais não desistiu do seu sonho infantil? Ser atleta é deixar acesa para sempre a chama da vontade de ser aquilo que te faz verdadeiramente feliz.

Queka Barroso
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  • Colaboradora de Esportes

Nascida na geograficamente pequena, mas amorosamente imensa, Barroso/MG, Queka quis homenagear sua cidade colocando-a como sobrenome - o nome, aliás, é Jéssica, mas isso só no RG. Moradora de Belo Horizonte desde os cinco anos, foi na capital mineira que se formou jornalista e exerce e estuda a profissão na área esportiva - sua maior paixão. Nasceu em fevereiro, é amante do carnaval e é do signo de Peixes. Embora não tenha conhecimento sobre astrologia, sabe que tudo que falam sobre pisciano bate com sua personalidade. Queka agora escrever e transcrever as escritas de Rubem Alves (no blog Sou Muitos) e Nelson Rodrigues (em um livro ainda em construção). Na cozinha, o que não sabe fazer, sabe comer. Se for uma boa comida mineira ou coxinha então... Quando não tem jogo, certamente está assistindo Padrinhos Mágicos, Matilda ou Frozen. "Você quer brincar na neve?"

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A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

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