2 de agosto de 2017 | Ano 4, Edição #36 | Texto: | Ilustração: Guillermina Roburu
Esportes que “desmontam” a cidade: a queda do ônibus e do carro
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Não, eu não sou fitness. Longe disso, aliás. Não vou à academia, não faço artes marciais e sequer um joguinho em quadra no fim de semana pratico. Pode ser pela correria da cidade, a demora para chegar a qualquer lugar e consequentemente a falta de tempo. Deveria rever isso, mas quando? A caminho de algum lugar? Assim parece até que o nosso “tempo livre” é no trânsito. Será? Seria então esse o momento de praticar esportes? Parece que sim.

Há poucos meses mudei de emprego e, louca por rotas, quilometragens e o ponteiro do relógio, resolvi um dia testar ir para o trabalho caminhando. Claro que dentro disso há, também, aquela economia de dinheiro por uma passagem que na minha concepção é acima do valor justo para a sociedade. O fato é que, pensando em números, coloquei meu corpo em movimento por 1 hora e 20 minutos – pouco mais da exata 1 hora que fico dentro do ônibus. E finalmente achei meu próprio tempo.

A mineira Mariana Oliveira tem 25 anos, é estudante de arquitetura e uma biker assídua. Há cerca de três anos, ela percebeu o crescimento do número de ciclistas em Belo Horizonte, mas foi em seu intercâmbio na Holanda, em 2015, que a bike se tornou seu meio de transporte. Na volta ao Brasil após um ano, a quantidade de bicicletas nas ruas belorizontinas estava ainda maior e, segundo ela, “mesmo com morro, mesmo com calor, mesmo sem uma infraestrutura cicloviária decente” era possível manter o ciclismo em sua rotina.

Capitolina: Quais os benefícios que a bike te trouxe na cidade?

Mariana Oliveira: Foi uma mudança no meu estilo de vida mesmo, para uma vida mais saudável e de disposição. Eu acabei entrando na academia pra poder fortalecer meu corpo pra poder pedalar mais e melhor. Foi uma independência muito grande porque eu passei a saber quanto tempo demoro no meu trajeto, sem depender de transporte público. Passei a administrar meu tempo bem melhor, não precisava preocupar muito com trânsito, com esperas no ponto de ônibus, dentro de um carro presa no trânsito, não tinha mais preocupação em achar vaga pra colocar o carro quando fosse pra algum lugar. E além disso tudo, eu ainda descobri uma paixão, uma coisa que me faz bem e me incentiva a levar meus dias de forma melhor e mais feliz. É libertador pro corpo e pra mente. E o melhor são as superações. Conseguir encarar medos de ruas muito movimentadas, conseguir subir morros sem sentir nenhum incômodo sendo que antes eu descia da bicicleta pra subir. É uma percepção e experimentação da cidade completamente diferente, desafiadora, nova e incrível.

C: Acredita ser uma solução de problemas da cidade?

M.O.: Acredito, porque precisamos tirar essa quantidade de carros das ruas para melhorar a mobilidade urbana. A bicicleta é um caminho sem volta tanto na cidade quanto pessoalmente mesmo. Quanto mais ciclistas e pedestres na rua, mais segurança a gente tem, mais facilidade de ir e vir, mais contato e vivência com as pessoas e com o ambiente a gente tem. Isso tudo é viver e experimentar a cidade de uma forma saudável e incrível. É praticamente impossível fazer isso vivendo dentro de caixinhas motorizadas, igual a gente está vivendo.

C: Se sente segura andando de bike na cidade?

M.O.: Eu pessoalmente tenho alguns medos. Tenho medo de ser assaltada, da bicicleta servir como atrativo para me roubarem. Tenho medo de deixar ela na rua trancada e de conseguirem levar ela mesmo assim. Eu sempre procuro deixar perto de comércios ou dentro dos prédios que eu vou – dou uma negociada com o segurança do lugar. As avenidas muito movimentadas me deixam insegura às vezes. Os morros também são grandes desafios e inclusive desafios incríveis de serem vencidos, é uma sensação de superação enorme. Ainda existem alguns lugares que tenho medo de ir por todos esses motivos, mas estou tentando sair cada vez mais dessa minha zona de conforto. Inclusive estou trabalhando com um serviço de entrega 100% com bicicletas (a Dizzy Express) e um dos motivadores foi justamente poder ir pra lugares que eu nunca iria normalmente.

C: No seu caso, você trabalha com bike mesmo, né? Se puder/quiser falar sobre isso.

M.O.: Quando eu comecei, eu achei que eu ia ter que ter olhos pra todas as direções para conseguir andar no trânsito. Mas vi que não era bem assim, que precisa ter atenção, mas não é essa violência toda. A segurança para pedalar na cidade eu fui ganhando com o tempo e experiência e vendo que não fui roubada, que muitos carros me respeitam na rua. É bem mais de boa do que parece.
Como eu falei, estou trabalhando agora com bike-entregas e está sendo uma experiência muito boa. Um grupo de ciclistas que faz isso porque acredita mesmo, porque vê potencial do uso da bicicleta na cidade, na melhoria da mobilidade urbana. Pra quem acredita nisso também, experimentem!

Uma pesquisa do “O uso de bicicletas na RMSP”/Metrô de 2010 revela que 70% das bikes nas ruas são para deslocamentos de ir e vir do trabalho. Mais que isso, 96% utilizam não só para o trabalho, mas também para ir a escola, médico e outros compromissos. Apenas os 4% restantes andar de bicicleta apenas por lazer.
Incluir o esporte em uma rotina, principalmente como auxílio à vida urbana, é desafiador. Ser atleta da cidade é lutar por uma vida de qualidade individual e em sociedade. Pistas de caminhada, ciclismo, academias em praças etc. são investimentos aos cidadãos. Lute pelo espaço que condiz com seus direitos, interesses e, principalmente, pelo seu bem-estar. Mova-se, sobretudo, por uma cidade melhor.

Queka Barroso
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  • Colaboradora de Esportes

Nascida na geograficamente pequena, mas amorosamente imensa, Barroso/MG, Queka quis homenagear sua cidade colocando-a como sobrenome - o nome, aliás, é Jéssica, mas isso só no RG. Moradora de Belo Horizonte desde os cinco anos, foi na capital mineira que se formou jornalista e exerce e estuda a profissão na área esportiva - sua maior paixão. Nasceu em fevereiro, é amante do carnaval e é do signo de Peixes. Embora não tenha conhecimento sobre astrologia, sabe que tudo que falam sobre pisciano bate com sua personalidade. Queka agora escrever e transcrever as escritas de Rubem Alves (no blog Sou Muitos) e Nelson Rodrigues (em um livro ainda em construção). Na cozinha, o que não sabe fazer, sabe comer. Se for uma boa comida mineira ou coxinha então... Quando não tem jogo, certamente está assistindo Padrinhos Mágicos, Matilda ou Frozen. "Você quer brincar na neve?"

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A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

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