17 de abril de 2016 | Edição #25 | Texto: | Ilustração: Júlia França
“Essa é a minha amiga!”
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Andando na rua, encontro com uma pessoa conhecida. Uma daquelas que você não pode deixar de falar, mas também não tem tanta intimidade assim. E, pra completar, não vê faz um tempão.

– Oi! Quanto tempo! Como você tá?
– Oi! Que coincidência a gente se encontrar! Tô bem e você?
– Ah, tá tudo tranquilo. Estudando, trabalhando… (e aí você percebe que a sua namorada está do seu lado, parada, sem conhecer a pessoa e sem ter sido apresentada.) Ah! Essa aqui é a… (e a cabeça vai à mil: “Será que eu falo namorada? Mas vai que essa pessoa é cheia de preconceitos e eu não sei? Será que ela vai comentar com aquela galera que não vejo há séculos? E se ela fizer a maior cara de espanto? Vai ser um constrangimento desnecessário, afinal, é só um encontro perdido no meio da rua. Ai, nunca sei o que dizer! Mas ela É minha namorada, poxa! Mas falar assim pode causar uma situação tão chata, principalmente pra nós, que desgaste. Às vezes é melhor viver numa bolha. Enfim, preciso dizer algo!”) … essa é a Fulana. Fulana, essa é a Ciclana.
– Oi, prazer! *sorriso amarelo da namorada*

Morre o assunto.

– Bom, tenho que ir mas a gente se esbarra, né? Que ótimo te ver, tchau tchau!

***

Assim como quando a gente nasce olham pra nossa genitália e definem a cor dos nossos quartos e os brinquedos que devemos brincar, também enfiam na nossa mente desde sempre: casal é um menino e uma menina, um homem e uma mulher. E pronto. Tá decidido, é isso que é o normal. Aceita. Mas a verdade é que nem sempre. Às vezes (e não são poucas) a gente não está nesse padrão e, nesse caso, a gente até pode demorar um tempo pra entender exatamente o que tá sentindo e quais são essas vontades, mas chega uma hora que fica tudo muito fácil de entender: você não vai (necessariamente) ter uma relação com um homem. E agora?

Tudo fica mais difícil a partir do momento que todas as pessoas ao seu redor partem sempre do princípio que você, por ser mulher, vai se relacionar com homens. Talvez se o mundo conseguisse entender que não existe anormalidade em mulheres se relacionando (e homens se relacionando também) fosse mais fácil admitir pra si mesma e para os outros um relacionamento não hétero. Bem, mas nem tudo é como a gente gostaria – apesar de a gente continuar na luta pra que seja um dia – e as pessoas ainda continuam olhando pra você e esperando um par masculino do seu lado. Às vezes a gente evita dizer por medo, pra tentar se proteger, por não saber o que esperar. No fim, é porque o sistema disse tantas vezes na sua cabeça que o normal é homem-mulher que, lá no fundo, até você, que não se relaciona nesse tal padrão e sabe que isso não é problema algum, tem medo de abrir a boca pra dizer a realidade.

A tal da normatividade fez da sua relação um tabu em que, ora você finge que ela não existe, ora você não dá nomes ou artigos, ora você só foge do assunto pra não ter que decidir o que fazer. Você não posta fotos de casal no Facebook, nem em nenhuma rede social, você não faz declarações públicas de afeto, você não muda o status de relacionamento, você não leva pro almoço de domingo e nem pra festa de casamento. Pra uns, essa relação não existe, ela permanece invisível. O padrão te faz invisível, assim como faz com tantas outras relações e amores. A invisibilidade das relações não hétero é fruto da construção desse padrão de comportamento que, na prática não é padrão, pois a diversidade de relações não deixa de existir, mas se mantém como uma imposição parte de uma disputa constante de poder que quer manter afastada e segregada a parte das pessoas que não entra nessa normatividade.

Toda vez que se evita dar as mãos, trocar carinhos ou simplesmente falar, se está sofrendo uma violência. Uma violência que não aparece de forma física, na maioria das vezes, mas que continua sendo intensa, pois impede que se viva tranquilamente o que se sente e quer viver. No fim das contas, quem se cala, o faz pelos outros, por mais que acabe sendo também por si mesma. Com o objetivo de tentar se proteger de uma possível agressão (que não é só física, mas também por palavras, olhares, gestos), acaba-se por ceder ao que é construído como o padrão mais correto. Por outro lado, toda vez que se passa na rua por outro casal de duas mulheres com suas mãos dadas e sorrisos no rosto, a força cresce e o sorriso multiplica. Saber que não se está sozinha e que se pode viver e transparecer o que se sente é um alívio.

É importante saber: sua relação não é menor ou pior que qualquer outra. Você pode, sim, e deve falar, mostrar e dividir ela com o mundo. Não é você que deve se esconder, mas sim o mundo que deve te respeitar. Mas também não se pode ignorar: cada vivência é uma vivência, cada contexto é um contexto, o seu tempo e as suas possibilidades são só suas. Procure o que te faz bem e tenha certeza: você não está sozinha.

Isabela Peccini
  • Colaboradora de Relacionamentos & Sexo
  • Coordenadora de Escola, Vestibular & Profissão

O nome é Isabela, mas os apelidos são variados, sintam-se à vontade. Quase arquiteta e urbanista pela UFRJ. Mas não se engane, não vou fazer a sua casa ou a decoração da sala. Objeto de estudo: cidade, sempre pelos olhos da mulher. A minha cidade? Rio de Janeiro, uma relação de amor e ódio. Militante no movimento estudantil desde que me lembro e feminista porque não dá pra não ser, o feminismo te liberta!

  • http://equantoapepsi.blogspot.com.br Juliana

    Sou bi, e “”percebi”” isso aos 13, meus pais sempre trataram isso de formal normal (como deve ser), mas infelizmente só eles sabem na família porque o resto jamais aceitaria que eu tivesse uma namorada. Já gostei de várias meninas, e tive um namorado que me tratava muito mal, mas muitos achariam mais normal eu ter esse namorado do que uma namorada que me fizesse feliz. Muito ruim saber que a minha ainda é uma história leve dentro dos casos de discriminação. Foi mal pelo desabafo.

Sobre

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