19 de novembro de 2015 | Colunas, Esportes | Texto: | Ilustração: Kiki
Estádio não é boate: a elitização dos estádios de futebol
EDIÇÃO203.ELITIZAÇÃO DOS ESTADIOS. KIKI

Já perdi as contas de quantas vezes voltei da Lapa e, ao passar em frente ao Maracanã, notei um aglomerado de táxis e Ubers da vida em alguns portões do estádio. Na última vez que isso aconteceu já passavam das 4h da matina e, para desvendar o mistério, perguntei para uma amiga que me acompanhava se ela sabia o que estava rolando ali.

“Ah, é uma dessas festas cool
“Uma festa?”
“É.”
“Como assim uma festa?”
“Ué, uma festa, bebida, DJ, ‘sascoisa.”

Já com o tico e teco ligeiramente afetados pela combinação de álcool + cansaço + não-tenho-mais-idade-para-emendar-uma-semana-de-trabalho no-samba, reformulei a pergunta:
“Uma festa dentro do Maracanã? No gramado?!” (Percebam o tom de histeria incrédula)
“Não, não. Tem um espaço dedicado a eventos e tal, rola até vista para o gramado, bem chique. As festas costumam ser bem salgadas”.

Sem querer ser chata, mas já sendo, existem vários problemas nessa constatação.
Não, eu não sou contra festas. Quem me conhece sabe que eu adoro (até demais) uma festa. E quem me conhece também sabe que sou adepta da releitura de várias coisas. Tipo, pegar uma escada antiga e enferrujada e transformá-la em um lindo arranjo para flores e vasos de planta tem seu valor. Só não acho legal quando a reapropriação de um espaço promove exclusão social e, consequentemente, silencia uma manifestação cultural popular típica e identitária de toda uma nação.
“Nossa, que exagerada! Você vê problema em tudo!”
Olha, não quero te decepcionar, mas na sociedade cagada em que vivemos atualmente, o que mais tem é problema sambando na nossa cara. Não é nada sutil, só não enxerga quem gosta de viver no mundo encantado da classe média/alta, que é só jogar tudo pra debaixo do tapete, até gente (de preferência negra) que olha, a paisagem fica linda! E a foto sai ótima no Instagram não quer.
Gente muito mais inteligente que eu diz por aí que os estádios são templos futebolísticos, com direito à história, memória e até assombração e entidades, sempre invocadas pelos fiéis torcedores em momentos decisivos no certame. Só que isso tudo já virou produto, dividindo a prateleira-estádio com festas, shows e toda sorte de eventos não-futebolísticos.

O que está por trás das festas no Maracanã e por que isso não é legal?

1. Crime contra o patrimônio material da cidade
Antes de mais nada, o Maracanã é patrimônio cultural TOMBADO do Rio. Esse novo Maracanã que temos hoje é fruto do trator chamado FIFA, que tem poderes supra-estatais e está pouco se lixando para a cultura dos lugares onde decide aterrissar seus “shopping centers” do futebol.

2. Privatização da cultura popular
É inegável que o Maracanã precisava de uma boa recauchutada, mas é claro que isso serviu para a pilantragem comer solta. Com a desculpa da reforma do estádio para a Copa, o estádio foi privatizado, sendo terminantemente tirado das mãos do público, logo, do povo. Para dar conta das dívidas estratosféricas incorridas com as obras, tudo que diz respeito ao templo do futebol carioca encareceu, do estacionamento, passando pelo cachorro-quente, até os ingressos. Ah, os ingressos…

3. Preços surreais, público irrisório
Não são só os ingressos das baladas que são salgados: entrar para torcer (o propósito básico de um estádio, né) também tá bem caro. Ingressos caros, arquibancadas vazias: hoje comemoramos “recordes de público” de quarenta mil torcedores, o que é LAMENTÁVEL perante os duzentos mil (ou mais!) que faziam o estádio tremer cinquenta anos atrás.

4. Higienização social: de quem é o Maracanã?
Não precisamos contratar o IBGE para perceber que a maioria do público atual do Maracanã tem cor e classe social. Quer um exemplo prático? Torço para um clube cuja população de torcedores é majoritariamente negra. Honestamente, o que menos tenho visto na arquibancada são negros. Com o preço surreal dos ingressos, o trabalhador que batia ponto no Maracanã pré-1990 não tem mais condições financeiras de assistir aos jogos (assistam ao vídeo linkado acima para vocês terem uma mínima noção dos preços). Com isso, o público dos estádios Brasil afora começa a se enquadrar em parâmetros bem definidos: brancos de classe média – apesar de esta não ser necessariamente a personificação do diabo, é mais um indício óbvio de que há um afastamento estrutural de torcedores negros e das camadas sociais desfavorecidas das arquibancadas. A propósito, a eles hoje fica relegado um lugar bem definido: ambulantes e vendedores de todo um cardápio gourmetizado. A graça de ir ao estádio era justamente a reunião de todas as classes refletindo, reproduzindo e representando tensões da vida cotidiana nas arquibancadas, até chegar o esperado momento de vir à forra, com a bola na rede do adversário. Hoje vejo pouco disso. Aliás, quando o assunto é comemoração…

5. Torcida morna
O padrão FIFA para a arquitetura das arquibancadas limitou bastante o torcer, em nome da “segurança” e do “conforto”. Barras de ferro, cadeiras dobráveis, tudo propício para imobilizar o movimento característico para a construção coletiva da festa que é uma arquibancada em dia de jogo. Só que torcer não tem nada a ver com conforto, mas com “entortar”, “deslocar”, “fazer mudar de direção”, “fazer vergar”, “unir”, “sentir de modo excessivo” – tá tudo no dicionário, e definitivamente não bate com a realidade que experimentamos nos estádios: com movimentos tolhidos, em algum momento da partida você senta para assistir ao jogo. Aliás, não me espantaria qualquer dia desses sermos convidados a permanecer sentados e bater palmas, como num teatro, após ver um golaço balançar as redes do adversário, com o hino do time que marcou o gol entoado nos alto-falantes do estádio – não estou exagerando, isso até já acontece em algumas partidas do campeonato inglês.

Todos esses porquês caminham juntos há, no mínimo, duas décadas, consolidando o processo de elitização do futebol no Brasil. A letargia que resulta desse lento assassinato silencia o modo de torcer brasileiro em prol de uma homogeneização padrão FIFA-europeu que simplesmente não atende às nossas necessidades culturais e tolhe a reflexão coletiva que é o futebol – sim, mesmo que você não goste de futebol, é inegável que o brasileiro pensa a própria sociedade através dessa alegoria sociocultural riquíssima.

Com preços inacessíveis e uma promessa de festa catártica cada vez menos cumprida, os torcedores vão se afastando das arquibancadas, preferindo não tendo outra opção senão reunir os amigos para assistir ao jogo em casa ou no bar pela TV, outra personagem desse quebra-cabeça político e econômico que sai ganhando com essa brincadeira toda. O espetáculo televisionado toma o lugar do espetáculo visto e vivido presencialmente, que perde o vigor e força, e se reconfigura até se descaracterizar.

O dano cultural imaterial causado por todo esse processo é imensurável. Antes, frequentar os estádios de futebol era uma tradição popular, no sentido que todos poderiam pleitear sua entrada pela oferta de ingressos com preços acessíveis e diferenciados: sim, havia camarote, mas havia a geral e lugares intermediários na arquibancada, sendo a capacidade do primeiro infinitamente menor que as outras opções, definindo claramente o público de torcedores.

Hoje, o Maracanã, como principal estádio do país, é inacessível em diversos sentidos, pois vende um estilo de torcer estrangeiro (europeu e alheio à nossa cultura futebolística), elitizado, cujo objetivo primário não é nem mais torcer, mas sim consumir, ser espectador, ver e ser visto; é status – como se precisássemos de mais espaços assim nas grandes metrópoles. Não cabe aqui entrar no mérito se essa lógica de consumo é boa ou não (até porque, o futebol chegou no Brasil já sendo um negócio, não sejamos ingênuos), mas quando ela fere, deturpa e silencia manifestações culturais populares, não há como não constatar o desserviço que o próprio Maracanã presta ao futebol brasileiro.

Carolina Walliter
  • Revisora
  • Colaboradora de Esportes
  • Colaboradora de Literatura

Beatlemaníaca que gosta de sambar diferente com o Molejão, gosta de carnaval e de futebol mais que o recomendado pela OMS. Carioca da gema e cidadã do mundo, tradutora, intérprete, historiadora, mochileira, nômade digital, rabiscadora compulsiva em moleskines (não necessariamente nessa ordem) mas, antes de tudo, uma contadora de histórias, sobre si e sobre os outros. Escreve sobre o cotidiano da tradução em: http://pronoiatradutoria.com/

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