2 de dezembro de 2014 | Estudo, Vestibular e Profissão | Texto: | Ilustração: Isadora M.
Estou de recuperação, e agora?
Ilustração: Isadora M

Ilustração: Isadora M

O professor avisa: Vou entregar as provas., e de repente você é tomada pela ansiedade. Você estudou horrores para a matéria, precisava tirar uma nota boa, dedicou-se verdadeiramente àquilo. Mas quando o professor chama seu nome, lá está: uma nota menor do que a que você precisava. Primeiro, vem a decepção – você realmente achou que conseguiria, você merecia passar direto. Depois, você calcula quinze vezes a sua média, esperando que tivesse errado na conta, que talvez fosse possível arredondar a nota pra cima, quem sabe você não esqueceu de alguma nota ou que um trabalho em que você foi bem tinha um peso maior do que você imaginava. Mas não. É isso mesmo: você está de recuperação.

Calma, tudo bem. Acontece. Acredite em mim. Minha primeira recuperação foi na metade do nono ano do Ensino Fundamental, em matemática. Depois, no Ensino Médio, eu peguei recuperação no meio e no fim de todos os anos. Física, química, matemática, biologia e até de geografia (que era uma matéria em que eu ia bem) entram na longa lista de recuperações que peguei. E eu já peguei com amigas, sem amigas, já conheci gente na recuperação. Frequentava tanto aquele lugar que fiquei amiga dos estagiários que davam as aulas nas férias e, no final, alguns deles já brincavam que eu estava lá porque gostava deles.

Já chorei muito também por causa de tantas notas vermelhas. E também aprendi demais por causa delas. E, no fim das contas, eu sobrevivi. E, se eu sobrevivi, você também vai sobreviver. E por isso mesmo fiz uma listinha de coisas que é importante ter em mente nesse período chato de recuperação. Na minha época, ninguém me contou e eu tive que aprender sozinha. Então, espero que essas coisas te ajudem a encarar esse processo de uma forma menos dolorosa. Até porque, no fim das contas (e isso tudo bem você duvidar um pouco no começo), recuperação é algo criado para ser bom.

Assim, aqui vão as coisas que são importantes de você ter em mente:

Você não é burra

Essa é a primeira coisa que você deve ter em mente. Não é porque você tirou nota abaixo da média que você não é inteligente. Todo mundo tem dificuldades na vida e se a sua é com português, matemática, biologia ou mesmo com todas essas, isso não te faz uma pessoa menos esperta. Você pode ser a melhor cozinheira do mundo, ser super boa em lidar com as pessoas, arrasar no futebol. Existem inúmeros tipos de inteligência e, infelizmente, o colégio só mede um deles. Pegar recuperação só indica que você não acertou mais da metade das questões da prova. Isso não define o seu nível de inteligência.

Pegar recuperação é normal

Acredite em mim, pegar recuperação é a coisa mais normal do mundo. Todos os alunos têm dificuldade com alguma matéria e essa dificuldade, muitas vezes, resulta em ter que esperar um pouquinho mais para entrar de férias.

Quando eu comecei a frequentar as recuperações, descobri que muitos colegas meus também estavam no mesmo barco que eu – alguns que eu achava que não tinham dificuldade nenhuma,inclusive – e, no fim das contas, percebi que não somos tão diferentes assim. Todo mundo tem dificuldades e tudo bem.

Ter dificuldade não é um problema

Vivemos em um mundo em que temos que ser perfeitas. Temos que tirar as notas mais altas, discutir política com embasamento teórico, fazer atividade física, comer de maneira saudável, sair com as amigas, arrasar na conquista dos corações alheios e ainda por cima parecermos sempre super gatas, dispostas para o que der e vier e nada cansadas. Mas, ei, ninguém aqui é boneca Barbie – e mesmo a Barbie deve ter problema de lordose, porque aquela coluna não é normal – e ter dificuldade não é apenas inerente à vida, como também é algo importante de viver.

São em momentos de dificuldade em que aprendemos mais, em que crescemos mais. E crescer é importantíssimo. E se a sua dificuldade foi com nota, ainda bem! Porque vai ter um professor ou estagiário lá para te ajudar a vencê-la.

Não se desespere

Não importa se você pegou uma ou seis recuperações: você não precisa ficar nervosa. É claro que é chato e o ideal sempre é passar de primeira, mas se isso não aconteceu também não é pra ficar no mundo mágico do “e se”. Vamos aos fatos: você tem quantas matérias para estudar? Quais as datas da prova? Respire fundo e faça um plano de estudos.

Também vale a pena identificar, com ajuda de professoras, colegas etc., os exercícios mais comuns da matéria em que está estudando. Aqueles que são chave. Provavelmente, serão esses que cairão na prova e, sabendo disso, você pode se debruçar sob suas dificuldades de uma forma mais certeira.

Lembre-se também que não se desesperar não significa que você não pode ficar triste. É claro que pode! São seus sentimentos, afinal de contas, e ninguém pode ou deve mandar neles. Mas não deixe a tristeza te tomar de forma que você não consiga ir com a bola pra frente.

Você não fracassou

Recuperação não é, em hipótese alguma, sinônimo de fracasso. Na verdade, é uma maneira de você conseguir ir além. É um tempo que te é dado para que você possa vencer suas dificuldades e se sentir mais segura com a próxima fase que está por vir.

Recuperação pode ser algo bom

Agora que você já sabe que a recuperação é um tempo a mais para você, dá para imaginar porque ela é boa, não é mesmo?

No próximo ano, as matérias vão se desenvolver mais e você vai precisar estar entendida das matérias desse ano. Então, se você pode estuda-las melhor, que bom! Você vai chegar no ano que vem afiada para os próximos passos. Além disso, como as salas de recuperação são menores, você vai ter mais atenção do professor ou do estagiário e poderá trabalhar melhor suas dúvidas em particular, o que significa que você conseguirá entender muito mais coisas e de uma forma muito mais pessoal do que em sala de aula.

Por fim, você vai trabalhar uma dificuldade e, se rolar de forma legal, vai conseguir vencê-la. Isso vai te dar uma segurança maior para os próximos anos.

 Vai ficar tudo bem

Acredite em mim, esse tempo passa, você vai ter férias, vai descansar e você não vai ter uma marca permanente dizendo “eu peguei recuperação”. Esse tempo a mais não vai refletir de forma ruim em quem você é, não vai te fazer uma pessoa burra ou preguiçosa. Na verdade, você só se tornará mais e mais forte ao aprender a lidar e ao vencer suas próprias dificuldades. No fim das contas, tudo vai ficar bem.

Pegar recuperação não indica que você não vai passar no vestibular mais tarde, nem que você não arrasa nas coisas que faz. Como já disse, esse é um tempinho dado para nada mais nada menos do que se recuperar. Seu futuro continua brilhante independente de nota abaixo da média no colégio.

E, para fechar, saiba que todas nós da Capitolina estamos te mandando energias positivas nesse momento. Boa(s) prova(s)!

Clara Browne
  • Cofundadora
  • Ex-editora Geral

Clara nasceu em 1994 no Rio de Janeiro, mas se mudou para São Paulo ainda pequena. Estuda Letras e sempre gostou mais de poesia do que de prosa. Ama arte moderna, suéteres e o musical Jesus Cristo Superstar. Aprendeu a fazer piadas com seu nome e sobrenome por sobrevivência. Em setembro de 2013, teve a ideia da Capitolina, a qual co-editou até setembro de 2016. Hoje em dia, ela escreve pra um montão de lugares. É 50% Corvinal e 50% Lufa-Lufa.

  • Thais

    Acabei ficando no terceiro bimestre em cinco matérias: Mat, física, bio, geografia e português. Comecei a ficar de recuperação desde o sétimo ano. Começou com matemática, aí nos outros anos aumentou as matérias. Tô com muito medo dos meus pais verem.

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A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

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