22 de abril de 2014 | Estudo, Vestibular e Profissão | Texto: | Ilustração: Laura Viana
Estudo & Profissão: Apresentação #3

Hoje é nossa última rodada de apresentações! Depois disso, prometemos só tratar de escola, vestibular e profissões, que é o que viemos fazer aqui. Mas, antes disso, nossa última contribuidora, a Maria Clara Araújo, vai se apresentar.

Maria Clara Araújo:

Minha mãe, católica, sempre costuma repetir que frequentemente rezava pela minha sabedoria. Diz ter pedido muito ao seu Senhor, que ele concedesse a sua filha, eu, o dom do discernimento. Ansiosa desde cedo para que eu começasse a construir meu futuro e ganhasse o conhecimento tão sonhado por ela, fui colocada em um ambiente escolar com apenas 2 anos. Faltavam poucos dias para os 3, mas ainda assim eu estava com 2, quando pela primeira vez adentrei nesse tipo de ambiente.

Ouço que meus primeiros anos na escolinha foram caóticos. Os brinquedos eram meus. Eu não deixava que as crianças tivessem contato com eles. Meu eu possessivo falava mais alto. Ser filha única e ter tido tudo para mim influenciou bastante quando esses pequenos surtos de pegar todos os brinquedos e gritar “MEU! MEU! MEU!” aconteciam. Um pouco depois deste período, minha transexualidade e orientação sexual começaram a se manifestar. Primeiro, o transtorno ao perceber uma atribuição na qual eu não me identificava, depois ao reparar um garoto e idealiza-lo como meu “namoradinho”. Foi o início de toda a tempestade que ainda estava por vir.

Meu Ensino Fundamental, tanto I quanto II, foi uma época difícil. Eu, aprisionada em um corpo e seguindo padrões nos quais não me identificava, comecei a ter crises. A partir de então adotei um comportamento extremamente agressivo, por isso visitava a direção de forma constante – o que fez minha mãe procurar ajuda psicológica para mim, tentando entender a razão pela qual eu me comportava daquela forma já que, até então, eu nunca tinha me aberto com ela ao ponto de falar sobre minha relação de rejeição ao meu corpo.

Ainda durante o Fundamental, ela decidiu que eu iria para uma escola pública e me lembro de ter surtado. Eu, até então estudante apenas de escolas particulares, fiquei com medo ao que poderia ser exposta ao dividir um espaço com pessoas que, infelizmente, já cheguei a julgar como inferiores a mim. Costumava os chamar de “selvagens”, e essa visão horrível e a qual me arrependo continuou até o momento em que perguntei, aos prontos, à minha mãe a razão de eu ir a uma escola pública. Ela, também aos prantos, me respondeu que meu pai tinha saído do emprego e estava com medo de não conseguir pagar a mensalidade do colégio particular. Eu, cega de tão imersa em um mundo no qual acreditava fazer parte, não tinha consciência que minha situação nunca foi melhor do que a deles, meus futuros colegas de classe da escola pública.

Meu Ensino Médio é resumido pelo termo “transição”. Uma transição corporal e espiritual. Eu TRANSgredi, me encontrei e mostrei meu verdadeiro rosto aos que estavam ao redor. Não precisava mais da máscara a qual um dia me fora atribuída. Ali estava eu: TRANS.parente, mostrando para aquele coletivo quem eu realmente era e como queria ser vista dentro daquele espaço, e fora dele.

Atualmente estou em um preparatório, onde sou bastante respeitada – e ressalto ter sido a primeira mulher trans* matriculada, o que me deixa feliz e triste ao mesmo tempo. Feliz por mostrar que estamos invadindo espaços os quais não tinham nossa presença; triste por ver o desinteresse desta comunidade na educação, embora os entenda.

Minha rotina tem sido frenética. Escrevendo, lendo e estudando. O que vem sendo um grande desafio, já que nunca me senti incentivada a cultivar o ato de estudar. E quando perguntada qual curso irei cursar, geralmente a resposta transita de Jornalismo a Cinema ou Letras. Minha meta é passar no Centro de Artes e Comunicação da UFPE. O grande “CAC”, muito famoso pelos seus integrantes terem grande respeito à diversidade.

Enfim, eu estou em processo de aprendizagem e readaptação e não aceito a possibilidade de não passar no vestibular neste ano, e vou fazer bonito, sendo talvez (ninguém soube me responder se tinha ou não) a primeira trans assumida a passar na UFPE.

Maria Clara Araújo
  • Colaboradora de Escola, Vestibular & Profissão

Futura pedagoga e feminista que transversaliza as questões de gênero e raça. Meu nome se tornou uma alusão à minha transparência em relação aos meus sentimentos. Pisciana, sinto como se eu fosse um mar misterioso e difícil de se velejar.

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A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

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