3 de junho de 2015 | Edição #15 | Texto: | Ilustração: Helena Zelic
A eterna guerra entre biscoito e bolacha, essa zoeira que é o portuñol e outras maravilhas da língua versus a geografia do mundo

Uma das coisas mais maravilhosas da linguagem é que, mesmo quando falamos a mesma língua, ainda existem diferenças entre várias palavras, gírias e expressões. Todo mundo sabe disso, mas quando a gente realmente vai pra outro lugar é que sofre o impacto da coisa toda. Por exemplo: quando eu era pequena e me mudei do Rio pra São Paulo achava lindo demais que arco de cabelo era tiara, mas não entendia e até hoje não entendo por que raios os paulistas cismam em pedir um tapa na cara, ou seja, uma bolacha, quando eu estou tranquila, digo, suave comendo o meu biscoito. Hora de comer biscoito não é hora de violência!

Crescendo em São Paulo, aprendi um pouco da dinâmica dos cafés. Você pode pedir um pingado, por exemplo, que aqui é café com um pouco de leite, mas se quiser literalmente metade da sua xícara com café e a outra metade com leite, você pede uma média. Mas, um dia, chegou uma amiga minha de Santos, pediu uma média e ficou muito confusa: ela queria um pão francês. Mas nem vamos entrar na dinâmica dos pães, porque pão francês é um cacete, pão de forma vira de pluma, aparece até pão de sal e carequinha pra entrar na brincadeira e pocar nossas cabeças! E, por pocar, pra quem não sabe, quero dizer estourar.

E se o pão já é complicado, imagina só o sanduíche todo?! Uma vez, uma amiga carioca estava em Natal, e estava morrendo de vontade de comer um queijo quente. Ela foi numa lanchonete e pediu: Moço, por favor, me vê um queijo quente. O moço trouxe pra ela literalmente um pote cheio de queijo derretido. Mas égua!, ela teria exclamado se fosse a Luci. Só depois de um bom tempo que ela veio a descobrir que, pra se pedir queijo quente, ou seja, o sanduíche com queijo derretido, tem que se pedir uma torrada.

Bem massa, não? Digo, claro que é massa, estamos falando de pão. Mas agora me refiro a isso ser legal, daora, maneiro. Não, pera… Maneiro aqui no sentido de bacana, mas a palavra, lá pra Natal, significa “leve”. Um saco vazio é muito maneiro!

Aliás, já que estamos no Nordeste, vamos deixar uma coisa clara: passar fila e passar cola, podem ser coisas bem diferentes se lermos literalmente, mas também podem ser a mesma coisa se as duas pessoas que falarem forem uma do Nordeste e outra do Sudeste, significa simplesmente passar as respostas de uma prova.

Aí, a criança sai pro recreio, pro intervalo, pra recreação e vai brincar de quê? Pira-pega, lá em Belém, pique-pega, lá no Rio, pega-pega, lá em Natal. E de lanche, adivinha só! Pede pra tia da cantina um geladinho, digo, gelinho, digo, chupchup, digo, sacolé.

Eita, mas que trem isso tudo. Digo, mas que coisa. Mas não coisa-coisa, porque aí estaria falando de bagulho, negócio, daquela parada. Não, não… Aqui falo de “coisa” no sentido abstrato dela. Puts, que confusão… Realmente, saber como tanto piá conversa não é fácil. Capaz conseguir entender o tanto de significado que se inventa por aí! Vixe. Não entendeu? Quis dizer que imagina conseguir entender esse tanto de palavra que se usa pra tantas coisas diferentes! Às vezes, dá até vontade de sair correndo pra outro país, mas espere lá: vai pra onde?

Porque, se você for pra Portugal, que é a mesma língua, deve ser mais tranquilo, você precisa saber de algumas coisinhas. Independentemente de sua sexualidade, você vai pegar muita bicha sim, até porque, para nossos irmãos lusitanos, “bicha” é “fila”. E, dependendo da frequência que você faz sexo, durex se tornará algo indispensável na sua bolsa. Por quê? Ora pois! Porque durex, lá nas terras vortuguesas, é camisinha.

Mas vai que você é feminista, comunista, lésbica ou bissexual e, quando você passa, os coxinhas (não, não a comida) gritam: VAI PRA CUBA!! e, portanto, você decide dar uma passada por lá? Primeiramente: gostaria de deixar claro que os italianos achariam sua visão política sinistra, mas não porque todos os italianos são comunistas, simplesmente porque sinistra, para eles, significa “esquerda”. Mas, voltando pra Cuba, fica ligada na sua menstruação, porque se você chegar lá e pedir um absorvente, você vai ganhar um canudo. E, pelamor, nada de ficar embaraçada! Digo, embarazada, porque isso significa que você estaria grávida e, deus meu!, quantos problemas isso iria acarretar!

Mas digamos que Cuba, agora com o fim da sanção estado-unidense, já ficou muito mainstream pra você, então ‘cê decide ir pra Venezuela. Você está tranquila esperando no ponto quando a moça pra quem você perguntou qual ônibus pegar grita: ¡AGARRA ESA BUSETA!. Acalme-se. A desconhecida não pediu o que você acha que ela pediu. Ela só disse pra você pegar esse ônibus, tá tudo certo.

Ainda na temática da buseta, cuidado na Itália! Porque a nossa querida figa que tanto nos protege, lá, significa boceta, mas é uma palavra bem agressiva. E, sim, agora estamos falando da boa e velha ppk.

Mas deixemos essa zoeira de lada, vamos falar de coisa séria. Afinal, se você for mesmo pra Cuba ou para a Venezuela, vai ter que preencher um bando de papelada e, no meio disso, vão te pedir seu apelido, mas não me vá colocar Ju, Lulu, Fe ou Paulinha! O que estão pedindo é seu sobrenome!

Depois de passar por tantos falsos cognatos, só brindando com um bom copo de Coca-Cola! E, por mais que Coca-Cola seja igual nas duas línguas (essa história de Coca-Cuela é totalmente uma invenção do portunhol), temos um problema com uma coisinha: qual objeto você vai usar para beber? Porque se você quiser uma xícara, deve pedir uma “taza” (lê-se “taça”), se quiser uma taça, peça uma “copa”, e copo é “vaso”!

Virgi Maria, isso sim que é dar um nó na cabeça! Já até miei, quero dizer, desisti de tentar entender alguma coisa. Acho que nessas horas, a única coisa a fazer é cantar junto com Os Mutantes:

“Tiengo chocolate quienteee
Tequilaaa
Paga lo que deves!”

Mas, assim, só pra frisar: é biscoito, não bolacha.

Clara Browne
  • Cofundadora
  • Ex-editora Geral

Clara nasceu em 1994 no Rio de Janeiro, mas se mudou para São Paulo ainda pequena. Estuda Letras e sempre gostou mais de poesia do que de prosa. Ama arte moderna, suéteres e o musical Jesus Cristo Superstar. Aprendeu a fazer piadas com seu nome e sobrenome por sobrevivência. Em setembro de 2013, teve a ideia da Capitolina, a qual co-editou até setembro de 2016. Hoje em dia, ela escreve pra um montão de lugares. É 50% Corvinal e 50% Lufa-Lufa.

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A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

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