10 de junho de 2015 | Tech & Games | Texto: | Ilustração: Beatriz Leite
Eu, Ciborgue

O futuro é uma coisa fascinante. Há quem tenha uma estranha-nostalgia-por-algo-que-nunca-viveu e se imagine curtindo os gloriosos anos 1970 ou tomando o chazinho da tarde com a rainha Vitória no século XIX, mas só o futuro é, realmente, desconhecido (e potencialmente mágico) até que se prove o contrário.

Imagem: Modern Family. "Tô indo encontrar com uns caras com quem joguei futebol no Ensino Médio. Mano, que época boa.”

Imagem: Modern Family. “Tô indo encontrar com uns caras com quem joguei futebol no Ensino Médio. Mano, que época boa.”

Imagem: "Aham, a menos que você fosse mulher, negro, hispânico ou gay.” A Gloria compreende o meu tipo de nostalgia

Imagem: “Aham, a menos que você fosse mulher, negro, hispânico ou gay.” A Gloria compreende o meu tipo de nostalgia

Mas não é engraçado quando a gente para e repara que já vivemos num cenário de ficção científica? É só olhar para os 6 mil anos de história da humanidade (e 200 mil de raça humana) para perceber como de uns cem anos para cá demos um 180° muito bizarro em nossa forma de viver. E não falo só das coisas mais óbvias, como voarmos por aí, termos saído de nosso planeta ou nos comunicarmos a quilômetros de distância uns dos outros, mas também de questões tão banais que quase nem enxergamos: fogo portátil em palitos, casas construídas umas sobre as outras, comida transportada e conservada em latas. Hoje, ouvimos mais música em uma semana do que a maioria dos europeus medievais teriam ouvido ao longo de toda a vida. E esquecemos o que é sentir tédio há muito, muito tempo. Para mim, pelo menos, virou uma lembrança meio embaçada de uma infância parcialmente off-line.

Mas esse não é um texto moralista e bocó sobre os “males da tecnologia”. E nem quero chover no molhado com a máxima de “o problema não é a tecnologia, mas seu uso uhr-duh”. Ele é um relato. Um relato meio tosco e bem ridículo sobre um dia muito triste.

O dia em que levaram meu celular.

(que o deus digital o tenha)

Japanese Crying Guy

Esse dia não sai da minha cabeça porque me fez notar certas coisas sobre nossa relação com a tecnologia. E eu só posso falar de minha experiência em particular, mas duvido muito que ela seja tããão particular assim. Pois bem.

Eu gostava do bichinho, um LG-e977 lindão, quadrado e brilhante que me acompanhou por quase dois anos. Ouvia música, pagava de bacana no Feice, tirava fotos pro Insta. Mas deixava ele de lado na mesa do bar, esquecia desligado um tempão depois de uma sessão de cinema, e no ônibus estaria quase sempre olhando pela janela em vez de numa conversa no Whatsapp. Resumindo: eu, sincera e presunçosamente, me orgulhava de ser uma pessoa que equilibrava bem minha vida fora e dentro da internet.

Então, do nada, levaram meu aparelho, e:

– Passei pelos cinco estágios do luto num intervalo de menos de 24 horas.

– Tive complicações de saúde por conta do estresse que duraram mais ou menos duas semanas.

– Fiquei por muitos dias quase incapaz de resolver qualquer problema intelectual ou emocional bem.

A melancia é a vida.

O causo foi o seguinte: passeava euzinha com Luna, minha cachorra, pela rua de casa quando decido dar uma corrida com ela. Um minuto depois, sinto o bolso leve e sei que o celular caiu com o movimento. Volto pelo caminho inteiro olhando para o chão. Nadica de nada. Então, bang, negação: eu devo tê-lo deixado em casa, só pode! Procura aqui, procura ali, joga tralha de um lado e do outro. Mas nada do bichinho. Ligo para o aparelho. Toca cinco vezes e então alguém desliga. Nunca mais tive notícias dele desde então.

O processo de trocar as senhas das redes sociais e e-mails, de ligar para a operadora lerda, de fazer um B.O. teve o efeito de um fogo baixo e constante no meu sangue. Na correria, tropecei num fio solto e meu grito altamente impublicável cortou a noite cruel zuera. Dei um “oi” para a fase da raiva.

O surto drenou minhas energias e, depois de resolver o que era possível, eu me permiti parar de girar em círculos. Eu encaro o universo e sou tomada pelos mais bestas sentimentos de autocomiseração: “Eu sempre devolvo as coisas quando acho na rua! Isso é tão injusto! Por que eu? Você pretende me compensar por isso, Universo? Hein? Hein?” Isso é uma aula de barganha (e de “classe média sofre”), caso não tenham se dado conta.

Quando eu entendo que não vou recuperar nada e que, c’est fini, já foi, eu me arrasto à fase da tristeza. Embora uma parte razoável das minhas coisas já estivessem em backup e fossem recuperáveis, ainda há o apego pelo objeto em si que não some da noite para o dia (literalmente). E tem mais: eu usava muito o bloco de notas do celular para rascunhar histórias, e fazer anotações rápidas de ideias e coisas que me chamam a atenção no dia a dia – e isso, mais do que todo o resto, foi o que me doeu mais perder. Há uma estranha – estranhíssima – parceria simbiótica de uma pessoa com sua tecnologia.

A aceitação não tardou a chegar. Umas 16 horas depois eu já tinha pegado emprestado um celular velho apenas para não “ficar incomunicável”, bloqueado a linha antiga e o aparelho por IMEI (era o que ele teria desejado, sniff) e transferido meu número para um novo chip. Todos os efeitos da explosão de estresse estavam ainda flutuando pelo meu corpo, no entanto, e isso subiria à flor da pele nos dias seguintes.

The end

Todo o relato parece ridículo porque é completamente ridículo, não nego. Mas acho que dificilmente estou sozinha nessa.

Eu pensei por muito tempo sobre por que aquilo me afetou tanto – eu, que nem tinha a relação mais obsessiva com celulares; eu, que desligava ele antes de ir dormir; eu, que andava com ele com desapego, acreditando que se me roubassem ficaria chateada, mas, no fim do dia, que aquilo não passava de uma maquininha.

Só que não era bem assim. A sensação de perder o celular não foi como perder uma máquina, mas uma parte de mim, um pedaço do meu corpo. Foi como se, do nada, eu tivesse perdido meus braços, ou minha visão, ou o movimento das pernas. Fazendo ressalvas para as devidas proporções (porque dificilmente meu sofrimento duraria apenas 16 horas caso perdesse algo biologicamente meu), foi como perder um sentido que eu não dava valor até então. Sentidos, afinal de contas, são essas coisas que nos tiram de nossos mundos internos e nos permitem nos comunicar com o exterior. Eu perdi, brevemente, minha porta de acesso ao meu mundo… virtual, digital, parcialmente real embora nem tanto? Foi desconfortável e inquietante.

Foi escroto para cacete.

Mais estranho foi como as pessoas ao meu redor reagiram à notícia da perda. Achei que fossem me zoar, dar bronca pela distração, fazer piada, mas para minha surpresa, a reação quase unânime foi de uma imensa empatia. Todos me davam tapinhas nas costas com rostos genuinamente tristes. “Cara, é muito chato isso.”, “Talvez devolvam, não fica assim…” Mesmo quando, em tom de paródia, eu contava, como agora, minha epopeia de emoções, ninguém sequer piscava. Davam risadinhas nas punchlines, mas isso não alterava a ladainha compreensiva: “Nossa, isso já aconteceu comigo, é desse jeito mesmo, hahah.” Foi aí que percebi que o meu sentimento não era só o de ter “dado mole” ou a irritação pela burocracia que viria depois. Não era como perder dinheiro ou o RG (que ironicamente é uma construção artificial do meu “eu” para o Estado): aquele celular roubado era uma parte real da minha vida – um fragmento de existência dentro de um aparelho construído de plástico e cobre. E não precisei explicar isso para ninguém.

Quão esquisito é isso?

Não foi apenas uma questão de arranjar um celular novo. Durante todo o tempo com o “provisório” eu tinha uma sensação inegável de que aquele “não era o meu bebê”; e mesmo agora, com um modelo mais moderno e bonito, eu ainda lamento ter perdido o LG companheiro de guerra. Provavelmente porque não se trata só da conexão com a internet em si, mas por como tudo se mistura no “mundo real”. Eu ouço o que meu Spotify recomenda enquanto trabalho, me exercito ou pego trem; comparo preços em lojas físicas com apps de realidade expandida; mesmo sozinha, estou sempre a um digito de alguém para conversar. A tecnologia escapa pelos nossos ouvidos, guia os olhos, e se encaixa na barra da cintura, coladinha à espinha.

Às vezes eu penso se já não estamos vivendo num mundo de ficção científica, e que simplesmente esqueceram de nos avisar. É difícil não ficar maravilhada com todas as possibilidades e coisas que existem no nosso agora, por mais que o passado tenha seu charme, e o futuro em si possa assustar.

Olhando para as pessoas no metrô, hipnotizadas em suas telinhas e conectadas por fios a aparelhos que são como antenas parabólicas em eterno funcionamento, penso se já não nos tornamos todos um tiquinho máquinas. A carne e o sangue da maioria de nós são orgânicos, mas nossas mentes se dissolvem o tempo inteiro na inteligência coletiva das redes. Meu olho é a lente da câmera. Meu relógio não se importa com fusos-horários.

Não sei vocês, mas às vezes me sinto meio ciborgue.

Vanessa Raposo
  • Coordenadora de Tech & Games

Vanessa é carioca, mas aos 25 anos sente que o mundo é grande demais para se pertencer a só um lugar. Por isso, passa boa parte do tempo em paisagens imaginárias e planejando suas próximas viagens - que podem ou não acontecer (“As passagens pra Plutão ainda estão disponíveis, moço?”). Gosta de filmes da Disney e de musicais mais do que dizem ser aconselhável para sua idade. Quando não está pseudofilosofando sobre o papel dos videogames na cultura pop, pode ser encontrada debruçada sobre seu laptop, arrancando os cabelos por alguma história que cisma em não querer ser escrita. 

  • julie

    ótimo texto vanessa, remexeu muito bem nessa realidade que é perder o celular… como as outras pessoas que entenderam sua perda, me compadeço aqui hahah

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