31 de julho de 2014 | Artes, Literatura | Texto: | Ilustração:
Eu digo não ao não (e ao sim também)
Ilustração de Helena Zelic
Ilustração de Helena Zelic

Ilustração de Helena Zelic

De uns tempos pra cá, não sei se você percebeu, mas deu um boom de livros de poesia brasileira dos anos 70. Em geral, são uns livros bem coloridos, com capas neons, laranjas, verdes, roxas, rosas. Com certeza você já viu nas livrarias. O primeiro foi do Paulo Leminski, depois veio o da Ana Cristina Cesar, agora o do Wally Salomão. Também tem outros livros, de capas de tecido, de outra editora, que complementam: Chacal, Chico Alvim, Orides Fontela, etc, etc, etc. Todos esses poetas fizeram parte da geração de 1970, que ficou conhecida na literatura como a geração da poesia marginal.

Essa poesia, diferente de tudo o que já tinha sido escrito anteriormente, era o cúmulo da despretensão. Os poemas, geralmente curtos, falavam sobre o bar, a praia, os amigos, o cotidiano. E tudo com muito humor, em uma linguagem nem um pouco rebuscada, ao contrário: a poesia marginal tem como uma das suas características principais a linguagem simples, como a da fala do dia-a-dia. Muitos dos poemas são piadinhas, por horas até infames – como esse poema do Chacal: “inexistível não existe.” (e, sim, é só isso o poema).

Não é à toa que eles ficaram conhecidos como uma geração de poetas não politizados. E, vindos logo depois dos anos 60, quando tudo era política em todos os cantos do mundo, eles foram bastante criticados. Ainda mais vivendo bem no período mais duro da ditadura militar no Brasil. Mas existe um outro lado da história… Um lado que você só entende se prestar atenção nas entrelinhas. Mas antes disso, dado que esta é uma coluna sobre história da arte, vamos aos fatos.

No dia 1º de abril de 1964, os militares tomaram o governo brasileiro e instauraram uma longa ditadura. No começo, aqueles que eram contra os militares tentaram lutar para a construção de uma democracia, mas o novo governo começou a tomar medidas mais drásticas e, já na década de 70, os sonhos por um país democrático estavam se enfraquecendo, pois as pessoas contra o governo tinham sido presas, perseguidas, exiladas, torturadas, desaparecidas ou mortas.

O medo se instaurou pelo país inteiro. O silêncio tomou as ruas, as casas, o âmago das pessoas. Qualquer palavra mal interpretada poderia levar a sabe-se lá qual ruína. Mas se o temor era imposto dia a dia, o Estado também obrigava a população a amar seu país. Da mesma maneira que diziam para calarem-se, os militares ordenavam a sorrir. Como Tom Zé mostra em uma de suas músicas , a felicidade agora era também uma obrigação. Uma felicidade que é “cheia de ano, é cheia de Eno, é cheia de hino, é cheia de ONU” desabou sobre o povo brasileiro e não havia como fugir: o governo queria fingir que todos estavam sorrindo, nas mesas dos bares, bebendo cerveja e jogando conversa fora, enquanto o Brasil era dirigido pela ditadura ferrenha dos militares.

Mas como falar de bobagem quando seu país não é mais sua casa? Como ser feliz quando o medo vive nas ruas, nas casas, nas pessoas? Em um tempo em que o silêncio era lei, a repressão era diária e a alegria era também uma forma de violência, instaurou-se no povo um sentimento de vazio. Como uma estrada que há muito houvera sido movimentada e, agora, não passasse de poeira à luz de um sol estático.

E é aí que entram os poetas marginais. Já desacreditados das lutas dos anos 60, mas também sem se deixarem vencer por completos, a saída (inconsciente) deles foi dizer “não”. Com seus poemas curtos, eles negaram tudo: o futuro, a tristeza, a felicidade, o cânone literário, o silêncio. Abusando do humor e da ironia, os marginais fizeram da frase “rir pra não chorar” uma verdadeira arte.

Em uma sociedade que não dá lugar para ser quem é, esses poetas da geração de 70 se colocam à margem e, por isso, o nome: marginais. Negando seu lugar na sociedade, a poesia marginal deixa de lado os conteúdos programáticos (ou seja, pensados anteriormente à feitura do poema) muito comuns anteriormente e se lança a um mundo de pura experimentação. Já não seguia forma, estilo ou mesmo conteúdo, tornando-se muitas vezes ambígua (até mesmo no próprio poema).

De um lado, caçoavam a ditadura – o lema “Brasil, ame-o ou deixe-o”, por exemplo, foi transformado por Paulo Leminski em “ameixas/ ame-as/ ou deixe-as”. Suas piadinhas infames diziam que não se deixariam levar pelo medo. Ao mesmo tempo, o vazio de seus poemas, a falta de assunto, a necessidade da brincadeira como forma de sobrevivência, também diziam que não era o Estado ordenar para se ser feliz que assim eles seriam.

De outro lado, sacaneavam a esquerda resistente. Para eles, aqueles ideais não faziam mais sentido e ter planos para o futuro era inconcebível para essa nova geração. Assim, negaram a ideia de um futuro melhor, de uma utopia, até mesmo de um lugar no cânone literário: preferimos o presente, disseram os marginais. E, assim, por meio de seus poemas normalmente breves, tentavam se ater ao momento em que viviam o máximo possível. O que eles queriam era a vida, em seu estado mais bruto.

É desconstruída, assim, a ideia do poeta como alguém sublime. Sua falta de lugar no mundo não lhe traz grandeza, como era visto em outras épocas da poesia, mas sim o faz sofrer, errar. A poesia não passa de uma forma de viver: afogando-se nela, desafogando-se do mundo que não lhe dá espaço. Porém uma é necessária a outra; e a fundição entre arte e vida se dá na necessidade do presente.

A busca por viver através da arte revela a necessidade da vida que lhes fora tolhida ao censurá-los. Pôr-se à margem de uma sociedade sem esperanças era também uma tentativa de crença em um outro mundo. Um mundo onde as lutas eram desnecessárias e tudo poderia ser dito. O silêncio seria, finalmente, um pesadelo distante. Mas enquanto houvesse margens, os jovens continuariam nelas, e o ser e o não ser se fundiriam na negação ambígua do mundo e dos tempos.

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Se você se interessou pela poesia marginal, ficam aqui algumas dicas de poetas legais:

– Orides Fontela

– Chacal

– Ana Cristina Cesar

– Francisco Alvim

– José Paulo Paes

– Charles

– Paulo Leminski (ele não era propriamente marginal, mas passou por essa fase)

Clara Browne
  • Cofundadora
  • Ex-editora Geral

Clara nasceu em 1994 no Rio de Janeiro, mas se mudou para São Paulo ainda pequena. Estuda Letras e sempre gostou mais de poesia do que de prosa. Ama arte moderna, suéteres e o musical Jesus Cristo Superstar. Aprendeu a fazer piadas com seu nome e sobrenome por sobrevivência. Em setembro de 2013, teve a ideia da Capitolina, a qual co-editou até setembro de 2016. Hoje em dia, ela escreve pra um montão de lugares. É 50% Corvinal e 50% Lufa-Lufa.

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A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

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