18 de maio de 2014 | Estilo | Texto: | Ilustração:
Eu (não) gosto de moda, e agora?

Um dos meus segredos mais bem guardados é que, em algum momento sombrio do ensino médio, eu tive um blog de moda, daqueles com posts sobre quem usou o que na festa do Oscar ou qual era o esmalte “must have” da temporada. Pra falar a verdade, não é assim tããão bem guardado, já que boa parte dos meus amigos sabe que ele existiu. Mas nunca, nunquinha conseguirão vê-lo. O negócio é que, sendo meio intelectual, meio de esquerda, meio feminista (calma, são três metades que somam um? Dane-se, sou de humanas!), quando o assunto vem à tona em alguma conversa, sempre acabo me desculpando e jogando alguma justificativa do tipo ‘’eu-tinha-quinze-anos-e-não-sabia-o-que-fazia’’, afinal, onde já se viu gostar de moda, essa indústria misógina, cruel e fútil?

Bem, chegou a hora de enfrentar a verdade: eu gosto de moda. Muito. Adoro conversar sobre roupas, folhear editoriais, guardar fotos dos looks de que gostei, descobrir peças que jurava que nunca iria usar (estou falando de vocês, macacões) e sair por aí paquerando vitrines e araras. Gosto de acompanhar semanas de moda, de conhecer o processo criativo dos estilistas e, principalmente, de como uma coisa tão corriqueira quanto roupa, aquilo em que a gente se mete todo dia só pra não sair pelado, pode ter uma riqueza conceitual tão grande quanto qualquer obra de arte.

Mas, ao mesmo tempo, eu não gosto nem um pouquinho de moda. Não gosto de como ela me faz infeliz comigo mesma, de como ela diz que preciso comprar coisas pra ser legal, de como ela padroniza as pessoas. Não gosto de como a mídia que a aborda só mostra garotas muito magras, muito brancas e muito parecidas, que não são nada parecidas comigo ou com minhas amigas, ou de como coloca que a calça preta es-sen-ci-al pro meu guarda-roupas custa apenas 800 reais e ainda faz com que minhas pernas pareçam mais compridas e finas. E odeio acima de tudo como ela é repetidamente usada como ferramenta de exclusão e afirmação de privilégios.

Meus sentimentos andavam todos muito confusos, então achei que era hora de tentar organizá-los.

A palavra “moda” por si só costumava me deixar incomodada, porque sempre achei que fosse algo ditatorial por definição, que representava aquilo que todo mundo deveria seguir em determinado momento, então a trocava por “estilo” ou “vestuário”, que me soavam mais adequadas à ideia de roupa enquanto expressão individual. Mas uma hora resolvi fuçar o dicionário pra ver se confirmava o que vinha pensando e dei de cara com outro significado para ‘’moda’’: “Gosto, maneira ou modo distinto e peculiar de cada um”.

Foi aí que decidi que pararia com os eufemismos e começaria uma apropriação pessoal do termo, com mais jeitinho feminista, para tentar fazer com que essa segunda definição seja mais relevante do que a primeira. Acho que dá para resumir a ideia da coisa toda em alguns itens que eu gosto de chamar de “pequeno guia de como gostar de moda quando você não tem grana, biotipo ou estômago pra acompanhar a Vogue” e que agora divido carinhosamente com vocês:

#1. Existe um mundo de fontes de inspiração aí fora

”Eu só encontrei meu estilo quando entrei na faculdade e comecei a andar com os amigos que ando até hoje. Eles são minhas principais inspirações e referências” foi o que a Julia falou quando conversei com ela sobre esse texto. Isso me deixou pensando sobre como meu próprio estilo é muito mais influenciado por pessoas e veículos que não necessariamente estão fazendo algum tipo de declaração sobre moda. Uma das minhas fontes de inspirações preferidas, por exemplo, são velhinhos e velhinhas que vejo pela rua usando alguma roupa meio maluca, iguais aos desse site incrível. Então, além das revistas e sites especializados (é lógico que não é pecado algum consultá-los), conte também com o que está ao seu redor – amigos, desconhecidos, personagens de ficção – pra ajudar a construir seu banco de referências, e veja sua wish list se tornar muito mais acessível e muito menos padronizada.

#2. Festa à fantasia todo dia

Não sei quem foi o cretino que inventou que suas roupas devem te fazer parecer “respeitável” (seja lá o que isso quer dizer), mas eu adoraria lhe dar um tapa na orelha. Bem, esqueça isso e viva a vida como se fosse um eterno halloween. Sabe o macacão de dinossauro que você acha que só serve de pijama, mas sempre teve vontade de usá-lo em algum rolê? Usa, amiga, se liberta.

#3. Saiba de onde vem o que você usa

O que você compra não surgiu magicamente na prateleira da loja. Suas escolhas de consumo são ferramentas políticas muito poderosas, então é sempre bacana tentar saber a trajetória daquilo que chegou ao seu guarda-roupa: as pessoas que costuraram aquele vestido fofo o fizeram em condições adequadas ou a loja descolada onde ele foi garimpado também usa mão-de-obra escrava? É legal comprar de uma marca que não produz roupas de tamanho grande e não tem modelos negras nos comerciais? A empresa que produz seu hidratante usa recursos naturais de forma alucinada?

Além disso, ninguém precisa de uma peça nova a cada semana e a gente pode muito bem reinventar o que já tem em casa. Brechós e trocas com amigas também são boas alternativas pra fugir de toda essa loucura de consumo.

#4. Faça você mesma

Aprender a costurar foi uma das coisas mais libertadoras que já fiz, de verdade. É uma delícia gastar pouquíssima grana e deixar a roupa do jeitinho que você pensou (ou nem tanto, se você tiver minhas habilidades), planejada especificamente pro seu próprio corpo, sem preocupação com as numerações bizarras das lojas, e ainda poder encher a boca pra dizer “fui eu que fiz” quando alguém falar “que saia legal!”.

Mas como nem todo mundo curte essa trabalheira manual, não é necessário se limitar às suas próprias roupas – você também pode criar sua própria mídia. Experimente escrever um blog, juntar algumas amigas pra criar uma zine ou até mesmo só compartilhar aquela dica esperta de brechó ou seu look do dia no Facebook. Só com isso você já estará fazendo uma coisa incrível pra adicionar variedade ao assunto e deixar todas um pouquinho menos dependentes das vozes que já cansamos de ouvir falando sobre o que pode ou não pode vestir.

#5. É você quem decide o que te cai bem

 Eu amo saia midi, aquela que vai até o meio da canela e te deixa parecendo sua avó aos 20 anos. E tenho 1,50m. Portando, segundo praticamente toda matéria “escolha a saia certa para o seu corpo” eu viro um hobbit a cada vez que cometo o pecado mortal de usar uma dessas gracinhas sem ter pernas de dois metros de comprimento. E eu não poderia me importar menos.

O negócio é que o que você veste só tem que agradar a você mesma. Esqueça essa ideia de usar roupas que te “favorecem” – ou seja, que tentam te espremer pra dentro de algo aceitável em relação ao padrão de beleza – e coloque aquilo que te der vontade. Uma coisa que aprendi logo de cara na faculdade é que arte não tem que ser bonita. E suas roupas também não precisam. Quer misturar listras com xadrez apenas porque sim? Vai em frente! Não precisa ser bonito, não precisa te emagrecer, não precisa combinar, não precisa nem mesmo fazer sentido. Divirta-se, experimente: mesmo se você tem um estilo mais ou menos definido, é perfeitamente ok fugir dele e tentar coisas novas.

É isso. Não gostar de moda não te torna uma pessoa pior. Gostar de moda também não. A não ser que você seja completamente sem noção, nenhuma maldição vai te transformar na Miranda Priestly automaticamente só porque dedicou alguns minutos para pensar o look do dia. Então pare de se desculpar e arrase com seja lá o que você resolver usar hoje.

Laura Viana
  • Colaboradora de Estilo
  • Ilustradora
  • Audiovisual

Aos 21 anos, todos vividos na cidade de São Paulo, Laura está, de forma totalmente acidental, chegando ao fim da faculdade de Artes Visuais. Sua vida costuma seguir como uma série de acontecimentos pouco planejados, um pouco porque é assim com a maior parte das vidas, muito por gostar daquela conhecida fala da literatura brasileira, “Ai, que preguiça!”. Gosta também de fotos do José Serra levando susto, mapas, doces muito doces e de momentos "caramba, nunca tinha pensado nisso!". Escreve sobre #modas por aqui, mas jura por todas as deusas que nunca usará expressões como "trendy", "bapho" e "tem-que-ter".

  • Zara

    Acho que o ideal seria se eu fosse indiferente para com a minha própria aparência. O simples fato de eu ter um estilo individual (condicionado ou não pela mídia) já é algo errado. Eu não deveria estar me preocupando com o que eu visto, uma vez que ninguém deveria julgar os outros pela aparência. Em termos racionais, o único critério importante na escolha de roupas seria o conforto, não é?

    • ana beatriz

      Errado é seu pensamento de que todos que se importam com isso estão fora do “ideal”. Tão errado quanto aqueles que tentam empurrar o que é certo ou não na hora de se vestir goela abaixo. Já te ocorreu que as pessoas podem simplesmente gostar disso, levar como hobbie sem necessariamente ser alguém que exclui aqueles que não gostam? Essa baixa perspectiva de como são as pessoas (generalização) é o que faz as pessoas se esconderem e não quererem dizer “Eu gosto de moda e nem por isso sou uma louca que se arrasta por lojas de grifes em busca daquela bolsa de 5.000 reais”. Gostar de moda não é proibido e só porque você não gosta, não quer dizer que seja errado.

      • Zara

        Na verdade eu gosto de moda mas, diferente de muitas garotas daqui, não me orgulho disso. Você não acha estranho que haja muito mais mulheres que tem moda como hobbie do que homens? Os homens em geral são muito mais práticos na hora de escolher roupas e vestem quase qualquer coisa. Isso não é coincidência. Uma mulher que se preocupa com a balança é vista como vítima da ditadura da beleza. Mas sou bem mais radical que isso. Penso que uma mulher que se preocupa com a própria aparência (por hobbie ou não, influenciada pela mídia ou não) já está sendo vítima da ditadura da beleza, de uma sociedade que objetifica as mulheres, ainda que ela não perceba.

        O que dizer de uma sociedade no qual as mulheres se preocupam com a beleza e os homens são relaxados quanto a isso? Para mim está claro que isso é resquício de uma sociedade machista, no qual as mulheres nasciam para agradar os homens. Ficarei muito feliz no dia em que as mulheres forem tão relaxadas quanto os homens na hora de escolher roupas.

        • victória

          e se a mulher se preocupa com a própria aparência pra ela mesma? é muito natural querer e gostar de se sentir bonita, o que não é natural é fazer isso de maneira anti-natural (com essa padronização de todas terem que ser altas, magras, cabelo liso, etc) e querer ser bonita pros outros. não tem problema nenhum se sentir bonita pra si mesma.
          e quanto a você colocar tudo como culpa da sociedade machista, você já foi procurar saber verdadeiramente sobre comportamentos biologicamente e sociologicamente naturais? você fez pesquisas suficientes pra concluir que toda a vaidade da mulher está mesmo ligada à cultura machista? não é deboche, caso pareça. até porque eu nem mesmo tenho conhecimento suficiente sobre isso, é mais um questionamento mesmo.
          eu vejo a vaidade como algo muito natural, se formos analisar e observar as sociedades por aí, que vivem diferente da nossa ocidental de maneira geral, a moda e a beleza e o cuidado com isso também existem. as tribos por aí se pintam, produzem acessórios artesanais, fazem adereços especiais pra ocasiões especiais, fazem roupas enfeitadas (as que usam roupas), inventam seus próprios penteados… cada uma do seu jeito, mas todas fazem.
          isso é um comportamento completamente natural e não ofensivo. o que é fruto do machismo, na verdade, é a mulher ter que se preocupar mais que o homem, ter que se arrumar pro homem, esse tipo de coisa e grande consequência disso. não ser vaidosa de maneira geral. tá rolando uma alienação contra a alienação, aí.
          ao contrário de você, eu vou ficar feliz quando os homens não ficarem tão relaxados pra escolherem as roupas e se importarem como as mulheres. mas que todos se importem de maneira que não seja pra agradar ninguém além de si mesmo e que isso não seja usado como uma forma de opressão, sim como de expressão e arte que é possível de se utilizar mostrando um pouco de quem você é através do visual.

          • Zara

            Oi, Victória. O grande problema é que embora muitas mulheres afirmem que só querem ficar bonitas para elas mesmas, elas, “coincidentemente”, sempre acabam agradando os homens também. Não tenho nenhuma amiga cujo estilo a torne mais feia para os homens. Por exemplo, ninguém usa vestido junto com pochete ou um pedaço de carne pendurado no pescoço como a Lady Gaga. E também é claro que ninguém se veste apenas para ficar em casa, se olhando no espelho igual ao Narciso. É muito difícil separar o que é vaidade fútil e o que é gosto pessoal saudável. Durante muito tempo da minha vida eu achava que meu estilo só tinha que agradar a mim, mas no fundo sabia que eu só queria ser vista pelos outros.

            Mas cada um tem a própria visão sobre a coisa. Moda é um assunto complicado e já mudei de ideia muitas vezes sobre isso. Desculpe se fui rude em algum momento. Admito que sou meio chata haha.

          • victória

            acontece mesmo de o ideal de beleza pra si de muitas mulheres ser o ideal de beleza pra agradar homem, mas também acontece de não ser. e quanto a isso de agradar a si x ser vista pelos outros eu entendo que role, porque ninguém fica em casa se olhando no espelho igual ao narciso. mas no fundo o que conta pra mim é o porquê de se estar se fazendo isso. exemplo, eu me preocupo em como me veem, mas não é uma preocupação de agradar do tipo “será que fulano e fulana de tal na rua vão achar essa minha roupa bonita?” é mais um questionamento de “será que eu to passando a minha imagem real e o que eu sou através da minha roupa e fulano e fulana podem perceber isso?”. não tem isso de narciso, mas não quer dizer que a outra versão disso tenha que necessariamente ser se vestir pros outros.
            e que isso, relaxa! não te achei rude não (só acho que você tá tendo uma visão unicamente unilateral), espero que não tenha me achado rude, também.
            meu ponto é: o equilíbrio. moda é a forma mais próxima de alguém se expressar que tem, porque por mais que você escreva/pinte/dance/etc, você não anda com a sua arte pendurada, é algo a parte. mas a sua roupa sim, todos andam de roupa. por isso que o estilo se torna expressivo, você pode se imprimir. e eu não acho que todo mundo tenha que fazer isso não, de ligar pra roupa que veste, até porque eu ligo muito menos do que tá parecendo. mas não acho certo achar que todo mundo que liga ~pras modas~ é fútil, alienado, machista, etc, porque tem um outro lado da moda como já foi dito no texto e eu até falei em pedaços.
            mas eu entendo sim essa sua ideia, já foi um pouco da minha também, até eu conhecer meninas inteligentes e fashionistas, então eu enxerguei a moda pelo lado expressivo. enfim, seja pra continuar com a nossa opinião ou mudá-la, o ato de ao menos nos questionar é o passo pra estarmos sempre evoluindo, né? isso que é importante.

  • Aline Beuttenmüller

    Eu tenho formação em moda. Eu já dei aulas sobre moda. Eu tenho até um board no pinterest de coisas que gostaria de vestir, mas cheguei a um ponto em que simplesmente não aguento mais ouvir falar sobre moda, sobre o que deveria usar, sobre como botinhas achatam as pernas ou como franjas curtas deixam meu rosto maior.
    São coisas que 1) com um pouco de observação, a própria pessoa consegue aprender o que lhe cai melhor ao longo dos anos, e 2) a própria pessoa aprende que não quer dar a mínima para todas essas regras, e simplesmente não se importa (ou até gosta) que suas pernas pareçam mais curtas ou seu rosto maior, já que franjas curtas podem ser perigosas mas pelo menos não caem dentro do olho e botinhas curtas podem ser muito confortáveis.
    Eu gosto de moda, mas do meu próprio conceito a respeito disso, e não desse jeito que as revistas/tv/pessoas-que-não-são-eu me dizem como deve ser. (:

    • http://modices.com.br Melyssi Peres

      então, já pensei muito nisso também, até pela minha profissão (jornalista de moda).
      acontece que os veículos também procuram ajudar aos leitores. isso em qualquer área. e na moda não é diferente, mostramos essas “dicas” para dar um norte a quem quer. quem não quer ignora. não é regra, ninguém condena mais quem é baixinha e usa saia midi, por exemplo. o tempo de fotos com “certo” e “errado” já passou! ao mesmo tempo que damos essas dicas, mostramos na página seguinte como é legal tentar quebrá-las e encontrar seu estilo também. como eu disse, isso é só um ponto de partida para quem quer.
      seria interessante se parassem de ver os veículos de moda (e seus jornalistas) como ditadores, e passassem a ver como pessoas que estão lá pra apontar rumos interessantes, que você tem a liberdade de seguir ou não. 😉

  • http://negavintage.blogspot.com.br/ Pamela Ribeiro

    Poxa vida, finalmente um texto que traduz exatamente o que penso. Sou estudante de moda, e logo no início do curso questionava demais o que queria construir e como gostaria de trabalhar dali para frente, visto que a moda é praticamente atrelada a um padrão, e principalmente ao luxo, nesses últimos meses tenho vivido nessa dúvida de como fazer uma moda que fosse a adequada à todos, o que a gente vê na mídia é muito forte, e tem um poder de influenciar as pessoas de maneira que as mesmas se tornem cegas, comigo isso não acontece mais pois já entendo melhor como as coisas funcionam, mas antigamente eu fui influenciada pelo o que seria o ideal. Meu maior desafio é mostrar que moda é muito mais do que o que vemos nos meios de comunicação.

  • Carol

    Quando um texto traduz minhas “ideias” sobre moda, amei demais as dicas preciosas (que já carrego no dia a dia). Adorei!

  • Nayara Lago

    Acredito que as coisas podem te fazer bem ou te fazer mal, quem escolhe o que cada coisa vai te causar é você mesmo. Tudo começa quando você para pra pensar em “quem sou eu”. Eu por exemplo, não sou alta, não sou magrela, nem rica, mas pego lá a vogue e tiro proveito dela adaptando o que ta lá pra minha realidade e gosto pessoal. Tudo pode servir de referência, e acredito que a moda pode te causar muitas coisas ruins sim (se você deixar), mas também pode causar tanta coisa boa… é tão divertido vestir uma roupa legal e que te cause alguma sensação. Adorei o texto. Bjs

  • Lyz Muller Beltrame

    É falar de moda é complicado. Lipovestky – que é um filosofo do fenomeno de moda que ue gosto muito – define moda como fenomeno cultural de negação da tradiçao e celebraçao da novidade e da personalidade. Da individualidade.
    Moda, como fenomeno cultural, portanto, não significaria, em sua essencia cultural, por exclusão ou regras, pelo contrário: ela somente pode existir e funcionar no seu proprio core existencial como celebração do diferente.
    Desta maneira é importante olhar para a imagem da produção da moda (que como ele mesmo fala em entrevista para a revista Style), está em todo lugar, especialmente em campanhas de marketing de qualquer produto. É importante notar quais são os temas da nossa era para poder compreender como as unificações dos discursos acontecem (e a partir disso se vendem e porque vendem), como eles negam o passado – que se faz necessário – e se transforma a partir desses discursos.
    A moda é feminista sim, especialmente se analisarmos grandes nomes do feminismo da história da moda como a Chanel – símbolo máximo – como tudo isso foi articulado e pode continuar sendo.
    Mais que isso, usar o próprio termo de moda, que você mesma encontrou, como trunfo de discurso pessoal e linguagem visual aplicada ao discurso que você defende e acha certo.
    Lembrar que sempre houveram belezas ideais não consola ninguém e não resolve nada, mas é um primeiro passo para compreender a dinâmica dos padrões de beleza, que estão sempre mudando e se adaptando. Acho pessoalmente que falar que as modelos sao todas muito brancas quando uma morena e uma negra estão no top 10 do models.com, e uma negra com vitiligo está causando nas revistas, é um tanto ingênuo…

    E é importante também compreender que somos seres visuais e que essa história de que só função importa não funciona, nunca funcionou. Seja na moda, seja na arquitetura, seja no design. Somos interpretantes por natureza.

    • Catarina Roman

      Chanel maravilhosa, mas alguém aí também se incomoda com o que a marca, e portanto o nome dela se tornaram? Agora uma manifestação não só feminista como que tinha como princípio colocar as mulheres com mais grana vestindo a mesma coisa que as com menos é uma grife caresésima, super restrita e elitista. E a Coco é lembrada sim por ser feminista e ter ideais de igualdade, mas é uma pena que as pessoas que lembram só lembram e continuam nessa lógica feia do padrão de beleza e da super “exclusividade” de ter uma peça com etiqueta Chanel :(

      • Lyz Muller Beltrame

        Eu acho que nesse contexto a gente entra na seara do legado e da apropriacao dele. Vi o Kaiser falando que a Chanel teria detestado o que ele fez com a marca dela, e ele nao ta errado.
        na hora de falar da moda como midia de interpretacao e geração de individualidade eu evito falar em legados… acho que sao complexos, e kind of sad… Mas continuo achando que é um espaço muito rico pra inovacao.
        alias, estive lendo sobre a relação da moda masculina e a ausência de um movimento social que questione o lugar da masculinidade na sociedade. Foi muito interessante,
        cheguei a escrever sobre pra esse blog aqui: http://www.cafeeanalgesicos.com.br

        :)

  • Lolly

    Gente, que texto perfeito! Você parece eu, em tudo: brechozeira, costureira, visão de moda… ADOREI!!!

  • http://twitter.com/Blair_Boo Blair Boo

    “‘Não gostar de moda não te torna uma pessoa pior. Gostar de moda também não.”‘

    Deixa eu dizer que me senti muito bem lendo seu post. Eu gosto de moda. Mas não gosto de como ela faz algumas pessoas (e eu mesma) se sentirem ruins com elas mesmas. Eu também não gosto de como algumas pessoas que não gostam de moda, me fazem sentir mal por gostar de moda (confuso, oi? mas é hahaha).
    Curso humanas também e parece que existe um consenso de que, quem está nessa área, não pode gostar de moda. Gostar de moda é errado. oO
    Enfim, é muita confusão e julgamento pra uma coisa que deveria ser tão simples: simplesmente se vestir como a gente gosta.
    Bjs!

    http://arabesqueando.blogspot.com.br/

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  • Letícia Santos

    Laura muuito obrigada pelo texto maravilhoso, me ajudou muito, sério ja estava ficando louca de tanto pensar no assunto. Estou me formando esse ano e quero cursar moda ano que vem, e ai ne veio essa questão de como conciliar feminismo, e liberdade com a moda, e o seu texto foi essencial pra me ajudar a lidar com a questão.

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A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

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