29 de julho de 2014 | Estudo, Vestibular e Profissão | Texto: | Ilustração:
Eu não quero estudar em Hogwarts
hogwarts

 

Ilustração: Helena Zelic

Ilustração: Helena Zelic

 

Nunca me dei muito bem com a escola. Essa história de sinal, uniforme, provas, advertência, livros nunca foi muito a minha praia. E não porque eu não gostasse de aprender, ao contrário: eu sempre amei aprender. O problema é que eu nunca consegui aprender lendo um texto ou fazendo um exercício, ou seja: eu não aprendo estudando. E isso fez com que eu tivesse muita dificuldade na escola (e também na faculdade).

Estudar, para mim, sempre foi algo extremamente chato. Tão chato que eu poderia fazer qualquer outra coisa da minha vida, até calcular quantas tábuas de madeira tem o chão do meu quarto. Mas sempre que eu aprendo algo novo, meus olhos brilham. É como se eu tivesse passado minha vida inteira na sala sem saber que a porta dá para a rua e que a rua dá pro mundo inteiro. Até hoje me lembro de quando li em A árvore do conhecimento, um livro de biologia que um amigo uma vez me indicou  (não me perguntem porque eu estava lendo um livro de biologia, até hoje fico confusa com esse momento da minha vida; de qualquer forma, essa é uma leitura que recomendo): “Todo ato de conhecer faz surgir um mundo.” Quando li esta frase pela primeira vez, já no final do meu terceiro ano de Ensino Médio, pensei: É isso! Foi quando finalmente entendi que eu adorava a sensação de novos mundos que o aprendizado traz, eu só não gostava do método de aprendizado através dos estudos. Até hoje fico triste que de essa descoberta não ter se dado antes, pois me pouparia parte de meu sofrimento.

O problema é que eu estudei num desses colégios que prezam muito os estudos. A ponto que as turmas de inglês no meu colégio eram divididas por nível de proficiência na língua, o que só estimulava a competitividade entre os alunos (porque todos queriam se gabar de estar nos níveis mais altos e serem “portanto, os mais inteligentes”, o que é um erro de raciocínio, mas enfim). Os estudos eram tão relevantes no meu colégio que deixavam muitas outras coisas importantes de lado – por exemplo, aula de artes foi apenas até o oitavo ano do Ensino Fundamental e educação física foi até o nono. É claro que também tive algumas experiências diferentes, como o fato de eu não ter que usar uniforme ou ter vivido um projeto de artes cênicas completamente fora do padrão (e que mudou a minha vida). Mas se eu for pensar no saldo de aulas de minha escola, com certeza a imposição do estudo se sobressai.

E isso eu vivi desde cedo, quando ainda estudava na minha primeira escola em São Paulo. Nessa época, eu sempre tirava nove nas provas. Meu pai sempre me dizia que, se eu estudasse, poderia tirar dez. Eu dizia ao meu pai que não queria tirar dez, porque dez era a perfeição e, como a perfeição não existe, eu estaria iludindo a todos. Por causa disso, peguei mania de nunca fazer lição de casa, nunca estudar com antecedência. Eu só prestava atenção na aula e aquilo bastava pra mim. Mas minha professora ficava brava porque eu não fazia a lição de casa e, portanto, eu sempre acabava na diretoria. Até a vez em que ganhei uma advertência. Foi quando tudo começou. Por que eu tinha que levar uma advertência se eu estava aprendendo o que me era ensinado? Por que eu tinha que ser castigada se meus resultados eram positivos? Isso nunca fez sentido pra mim.

Mas não era apenas a obrigação do estudo o problema. Todo o ambiente de uma escola é opressor: o sinal ao começo e ao fim da aula, o uniforme (que na minha escola não tinha, mas na maioria tem), as provas pelo menos duas vezes no bimestre. Até mesmo o termo “aluno”, que significa, na origem da palavra, “não iluminado”.

Inclusive, você sabia que a estrutura de uma escola é semelhante à da cadeia? Pois é. Salas dos dois lados, separadas por um grande corredor. Isso é porque fica mais fácil a movimentação dos alunos. Mas a verdade é que a movimentação dos alunos, pelo menos no colégio em que estudei, era um caos de qualquer forma. Gente saindo de todos os cantos, subindo e descendo escadas, todos carregando livros e mochilas que muitas vezes acabavam caindo ou esbarrando em você. No final do dia, então, era pior ainda! Todo mundo correndo para sair daquele lugar, como se mais um segundo ali os fizesse explodir ou algo do tipo. Como disse antes: um caos.

Toda a estrutura da escola é secular. As carteiras, a lousa, o professor em pé na frente dos alunos como se fosse superior a eles. Tudo isso foi pensado há muitos séculos atrás e, até hoje, não mudou. E isso é outra coisa que nunca fez sentido pra mim. Por que as escolas continuam estáticas no tempo? Eu sou a prova viva de que não é como se esse sistema todo funcionasse de verdade. E sei que há muitas outras pessoas que também não se dão bem com esse esquema.

Quantas vezes você não se deu mal em uma prova para a qual você estudou pra caramba porque deu branco? Quantas vezes não aconteceu de você ou um colega serem tirados da sala porque estavam conversando em um momento em que todos estavam e, quando você tentou explicar ao professor que aquele ato era injusto, ele te disse com a voz elevada para que não argumentasse com ele? Ou ainda quantas vezes não aconteceu de alguém ser mandado para a biblioteca (a qual é uma coisa incrível, mas na escola é colocada como castigo) por não ter feito o dever de casa?

Tudo isso acontece diariamente nas escolas de todo o país e já é visto como algo completamente natural, mas sempre achei um absurdo. Eu não entendia por que tinha que sofrer tanto com tudo isso. Não entendia por que minha nota era calcada praticamente em apenas um tipo de avaliação, quando existem tantas outras possibilidades de mostrar que um assunto é sabido. E, por causa disso, por causa de todo esse sofrimento, eu sonhava com o dia em que tudo aquilo fosse acabar. Sonhava com uma outra dimensão, com um mundo ficcional onde eu pudesse aprender com aventuras, com bruxas estranhas abrindo livros velhos e me contando de feitiços, com seres inusitados abrindo as portas de suas casas e me contando a história daquelas terras. Pensava: Por que raios eu não sou uma bruxa para estudar em Hogwarts?

E eu demorei anos para perceber que, na verdade, eu teria odiado estudar em Hogwarts. Pois, se pensarmos bem, Hogwarts tem o mesmo funcionamento de um colégio comum: aulas todos os dias com os professores na frente da sala expondo a matéria e os alunos sentados em suas cadeiras quietos, uso obrigatório de uniformes, os mesmos livros pesados a se carregar e a se estudar, as mesmas provas a se fazer, a média que se deve passar. Na verdade, acredito que Hogwarts seja até um pouco pior, pois, além de todas as coisas de um colégio normal, os professores frequentemente são horríveis e têm métodos abusivos de ensino. E você não pode sair de lá correndo depois que toca o sinal do fim do dia, porque você mora no seu colégio. E, ok, pode ser legal morar na escola, porque seus amigos estão sempre com você. Mas as pessoas que você não gosta também estarão. E seus professores também. E os alunos nem podem andar livremente pela sua própria casa (porque, para quem estuda em Hogwarts, sua casa é o próprio colégio). Por mais legal que seja estudar em um castelo, não existe em momento algum um respiro daquele ambiente. E não bastasse tudo isso, os professores ainda dão créditos extras (os pontos das casas no final do ano), estimulando a competitividade entre os alunos, o que pode gerar competições desnecessárias, estresse e até causar ansiedade.

Quando eu disse isso a uma amiga minha, ela retrucou: Mas pelo menos você aprende coisas legais em Hogwarts. E, ok magia é realmente incrível, mas, agora, pense bem: o quão uma aula de química é verdadeiramente diferente de uma aula de poções? Você continua tendo que colocar diferentes itens num pote, misturar e ver o resultado. E o quão diferente seria a aula de herbologia de uma aula de biologia? Herbologia deve ser até pior, pois as plantas gritam. História da magia não passa de mais uma aula de história. As casas – Grifinória, Corvinal, Sonserina e Lufa-lufa – não passam de uma versão amplificada das turmas – A, B, C e D (e todo mundo sabe que cada turma tem o seu jeito específico de se comportar). Quadribol é o equivalente à nossa educação física – e é até muito mais perigoso, porque você pode cair de uma altura enorme ou ser atingido por uma bola super pesada (e então cair de uma altura enorme). No final das contas, Hogwarts não é assim tão longe de um colégio como outro qualquer. E isso faz todo o sentido, dado que quem criou esse mundo foi obviamente uma humana, com referências do nosso mundo. E, no nosso mundo, as escolas são esse ambiente muitas vezes opressor, com regras arbitrárias e de pouco sentido.

Já na faculdade, interessada por outras formas de ensino, conheci formatos alternativos de escola, os quais me pareceram mais interessantes. Aprendi teorias de pensadores como Paulo Freire e acabei procurando saber um pouco mais sobre outras teorias de ensino, desde a pedagogia Waldorf, que existe no Brasil, até o projeto da Escola da Ponte, em Portugal, o qual se tornou uma grande referência mundial de educação alternativa (inclusive, deu ideia ao projeto Âncora, iniciado em Cotia). Nessa escola, não existe sinal, uniforme ou mesmo professores (o que existe é uma espécie de guia) e os alunos não são separados nem por ano. Quando leio sobre essas diferentes propostas e vejo seus resultados, penso que preferiria ter estudado na Escola da Ponte do que em Hogwarts. E tudo bem que em Hogwarts você estaria aprendendo magia, mas a verdade é que tudo o que sabemos e fazemos com o que sabemos do mundo, hoje em dia, seria considerado mágica por muitas pessoas dos tempos passados (já fizeram até um robô pra pegar coisas pra gente, como se falássemos “accio!”) – e foi o que disse no começo desse texto: todo aprendizado faz surgir o mundo. E quer magia maior do que fazer novos mundos aparecerem?!

 

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Se você se interessou pelo livro que mencionei, pode procura-lo nos sebos ou nas livrarias:

A árvore do conhecimento – as bases biológicas do conhecimento humano; Humberto Maturana e Francisco Varela

Clara Browne
  • Cofundadora
  • Ex-editora Geral

Clara nasceu em 1994 no Rio de Janeiro, mas se mudou para São Paulo ainda pequena. Estuda Letras e sempre gostou mais de poesia do que de prosa. Ama arte moderna, suéteres e o musical Jesus Cristo Superstar. Aprendeu a fazer piadas com seu nome e sobrenome por sobrevivência. Em setembro de 2013, teve a ideia da Capitolina, a qual co-editou até setembro de 2016. Hoje em dia, ela escreve pra um montão de lugares. É 50% Corvinal e 50% Lufa-Lufa.

  • Disse tudo, Clara. Enxergo o mesmo problema de engessamento no ensino superior. A universidade tem o mesmo problema e pode ser até pior, porque é onde mais acontece a tentativa de adestramento intelectual. A quantidade de gente que está ali e não deveria porque simplesmente não tem nada a ver com o meio acadêmico, que aprende e desenvolve muito melhor de outras formas, com outras abordagens, outros contextos. A gente cresce ouvindo que tem que ter diploma e entra num sistema ultrapassado de ensino, que vai despejar um monte de teoria e metodologia, sendo que muita, mas muita gente que tá no ensino superior, não se interessa nem um pouco verdadeiramente por pesquisa. Quase na metade da segunda graduação, parece que querem me adestrar em vários sentidos invés de enriquecer genuinamente meu conhecimento. A forma de ensinar ao outro precisa mudar em todas as esferas, sair do modelo fábrica ou cadeia pra outras coisas que façam as pessoas aprenderem de verdade.

    • Clara

      Com certeza, Rê. O sistema de ensino é problemático do começo ao fim. E é realmente muito triste as nossas universidades, as quais deveriam transformar nossos conceitos, apenas aprofundarem ainda mais esses métodos problemáticos. Precisamos estar sempre atentas para isso, conscientes e prontas para brigar pela mudança. Por mais difícil que isso seja (e é).

  • Loli

    Uau! Gostei muito dos seus pontos 😀 Texto muito legal, Parabéns!

  • Elis Alberta

    muito legal e adequada a visão; precisamos disso

    , precisamos mudar o sistema.

  • Alice

    Amei Clara! Juro! Só faltou dizer que as chances de sofrermos um ataque por criaturas estranhas e agressivas, em Hogwards, é um pouco maior que em um colégio padrão (hahahah) ! Continue escrevendo porque você arrasa! Beijoss #kairos2014#artescenicas

  • Laura

    Detalhe que ao menos nos cursos de exatas da faculdade são que nem o colégio, só que não tem uniforme.

  • Ariadne Granier

    “Summerhill *-* liberdade sem medo”

  • Bianca Vivas

    Meu deus, você descreveu meus pensamentos! Muitas vezes achei que era ‘louca’, ou tinha algum problema pq eu não consigo aprender estudando. Na verdade, eu odeio estudar. Amo aprender, mas estudar é uma das piores coisas do mundo pra mim. Inspirador esse texto <3

  • Pingback: Por que eu preciso aprender isso? — Capitolina()

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A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

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