19 de junho de 2014 | Música | Texto: | Ilustração:
Eu não quero ir à escola nunca mais – Trilha sonora da vida: The Donnas
Ilustração: Isadora M.

Ilustração: Isadora M.

Apesar de sempre ter sido boa aluna, quando eu estava naquela fase de transição entre o ensino fundamental e médio, a minha vontade era a de não ir à escola nunca mais. Achava tudo muito chato, os professores me davam preguiça e eu queria mesmo era ficar em casa vendo filmes e na internet. Bom, apesar desse ser meu grande desejo na época, havia coisas na escola que eu gostava, no caso minhas amigas. Como vocês já devem ter concluído, eu continuei estudando, enfrentando toda a minha mínima vontade de levantar e ir para aquele lugar que supostamente me incentivaria a estar lá e aprender, o que não foi nada fácil. Eu tinha a autoestima muito baixa e me sentia completamente péssima saindo de casa e tendo que conviver com pessoas – muitas pessoas – diferentes de mim.

Eu e meu grupo de amigas fazíamos tudo juntas: desde trabalhos escolares a reuniões para vermos filmes de comédias românticas clichês e comer besteira. Porém, a única coisa que nos diferenciava era o nosso gosto musical. Enquanto eu gostava mais de rock alternativo, algumas preferiam aquele pop mais romântico, mas isso em si não me incomodava tanto, pois eu até gostava de alguns artistas que elas ouviam. O problema era que, por mais que as músicas fossem legais, alguma coisa ali não me prendia tanta atenção e eu não conseguia me identificar com certas letras e ritmos. Foi aí que um belo dia eu descobri o The Donnas.

Eu não me lembro exatamente onde eu escutei algo delas, mas sei que imediatamente achei legal, mas depois procurei na internet e encontrei fóruns e outros sites onde pude conhecer mais sobre a banda e simplesmente adorei. O fato de que a banda era formada só por meninas foi o que me chamou mais atenção, porque até aquele momento eu não conhecia algo assim (e daí em diante eu comecei a procurar e achar mais bandas só de garotas). Eu comecei a escutar aos álbuns, ver os clipes, pesquisar sobre a vida delas e de como montaram a banda, e até fiz amizade pela internet com muitas meninas que também gostavam de The Donnas.

Capa do álbum "Spend The Night"

Capa do álbum “Spend The Night”

Como a banda foi formada enquanto todas as integrantes (Brett Anderson, Allison Robertson, Maya Ford e Torry Castellano) eram adolescentes, as letras de suas músicas abordavam justamente essa temática do mundo jovem, mas dessa vez cantadas por garotas. Uma das músicas se chama “I Don’t Wanna Go To School No More”, que em português significa justamente o que? “Eu não quero ir à escola nunca mais”. Nem preciso dizer que essa música era meio que um hino para mim quando eu me sentia totalmente indisposta para ir à aula né? Não só essa música especificadamente, mas muitas outras. Ouvir The Donnas para mim era uma espécie de terapia onde eu me imaginava como uma das integrantes, dizendo para os outros que alguma coisa me incomodava, que eu gostava de alguém mas não era correspondida, que eu podia ser diferente e me sentir poderosa sem precisar de ninguém.

Uma das coisas interessantes é que o primeiro álbum delas é de 1997, quando tinham 18 anos, mas desde os 14 elas já tocavam juntas sob o nome de Ragady Anne, depois posteriormente The Electrocutes e finalmente, The Donnas. Brett Anderson tornou-se a Donna A., Allison Robertson a Donna R., Maya Ford a Donna F., e Torry Castellano a Donna C., e elas já lançaram 8 álbuns como The Donnas, variando bastante os estilos.

A cada álbum é possível perceber o seu crescimento como mulheres e a forma como traduziam seus sentimentos em músicas,  nunca fugindo da proposta de fazer uma música de garotas para garotas. O seu último só com inéditas é de 2007, e elas tinhas em torno de 28 anos.

Pode ser que você nunca tenha ouvido falar de The Donnas, mas pode ser que tenha ouvido em alguma trilha sonora de filme por aí. Muitas músicas e covers delas estão em vários filmes, olha só: O cover de “Dancing With Myself”, original de Billy Idol, está na trilha sonora de “Meninas Malvadas”; o cover de “Roll On Down The HighWay” do Bachman Turner Overdrive no filme “Herbie: meu fusca turbinado”. Em “Um crime entre amigas” elas até fazem uma participação no baile que acontece no filme, e tocam “Checkin’ It Out” e “Rock ’N’ Roll Machine”. Outros filmes que elas aparecem na trilha sonora: “Se Beber, Não Case!”, “Sexta-Feira Muito Louca”, “No Pique de Nova York” e muitos outros listados aqui.

Infelizmente, a banda não dá as caras há um bom tempo. Talvez seja porque a baterista Torry Castellano decidiu dedicar-se aos estudos na Universidade de Stanford e afastar -se da banda por causa de uma tendinite, ou talvez não. Mas o importante é que elas sempre vão ser parte do cenário de rock feminino, seja com seus clipes irônicos,  letras engraçadas ou o mais importante, sua amizade. A banda manteve a mesma formação até 2010, e sempre quis passar a imagem de que garotas podem ser fortes, independentes, inteligentes e mais que tudo, que garotas unidas são muito poderosas.

Se você achou interessante, aqui vai um clipe delas:

Isadora M.
  • Coordenadora de Ilustração
  • Colaboradora de Artes
  • Colaboradora de Estilo
  • Ilustradora

Isadora Maríllia, 1992. Entre suas paixões estão: Cookie Monster, doces, histórias de espiãs (como Harriet The Spy e Veronica Mars), gatos e glitter. No entanto, detesta bombom de abacaxi e frutas cristalizadas.

  • Raisa Reis

    Elas fizeram a trilha sonora da minha adolescência também <3
    Foi doído quando elas foram pro Brasil e o show teve censura de 18 anos, na época eu tinha 17. Ainda tenho esperança de vê-las ao vivo, hahaha

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A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

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