25 de julho de 2015 | Relacionamentos & Sexo | Texto: | Ilustração: Helena Zelic
Eu não quero ser pupilo de ninguém

É normal que a gente incorpore hábitos dos nossos pais conforme a gente cresce. Isso é papo até de especialistas em crianças, que sempre falam que os pais têm que comer bem, porque as crianças imitam os hábitos alimentares dos pais e que se eles querem que os filhos tenham o hábito da leitura e do estudo, precisam ler e estudar também. O famoso teor pedagógico do exemplo. Eu mesma sou super fã disso, até porque é bem hipócrita cobrar dos filhos que façam coisas que eles nem sabem fazer, porque provavelmente nunca viram ninguém fazendo.

Mas, por mais que filhos aprendam a fazer coisas do mesmo jeito que os pais fazem, isso não vale para todos os aspectos da nossa vida. Provas disso são que a maioria das pessoas segue caminhos profissionais diferentes dos pais, que não é incomum que tenham religiões ou opiniões políticas diferentes, que filhos expansivos nasçam de pais introspectivos etc. Nós não somos cópias dos nossos pais, porque muita coisa –até coisas que a gente ainda não tem conhecimento – está envolvida na construção da personalidade humana. Enfim, às vezes “filho de peixe, peixinho é” mas, às vezes, “em casa de ferreiro, o espeto é de pau”.

Mas este texto fala, principalmente, sobre o primeiro ditado. Fala sobre quando, por um acaso do destino, você decide fazer e-x-a-t-a-m-e-n-t-e o que seus pais fazem. E isso pode significar estudar juntos, trabalhar juntos, militar politicamente juntos, ou fazer qualquer outra coisa juntos que tenha um potencial de gerar irritações e crises de personalidade.

Não é incomum vermos pais e filhos ativos na militância política, estando ou não na mesma organização. Eu consigo me lembrar de 4 casos só de pensar um minuto na esquerda brasileira. E, sempre que tem um caso desses, todo mundo começa a romantizar a relação e a transformar toda a família em uma entidade política – ainda que eles não conheçam 95% da família. Isso é um enorme desserviço porque, a partir dessa perspectiva, nós só conseguimos ver essa relação como uma relação de cobrança e de continuidade de uma trajetória política, nunca a construção de trajetórias paralelas. Perdemos assim a capacidade de ver o legado de uma pessoa como um bem de toda a população (como deveria ser qualquer forma de conhecimento), e começamos a vê-lo como algo que pertence ao filho, que vai dar continuidade a uma construção que já existe, e nunca começar a sua própria trajetória.

Quando pais e filhos trabalham ou estudam juntos, a relação também tende a ser cheia de cobranças de perfeição. Quem nunca brigou com a mãe porque ela não sabia operar alguma função do computador? E quem nunca levou bronca porque não sabia alguma coisa que o colégio cobrava que você soubesse? O problema maior é que perfeição, nesse caso, é igual a “faça exatamente da forma que eu faço”, o que cerceia a possibilidade de criar novas formas de realizar as coisas e descobrir o jeito que você aprende melhor.

Enfim, se a relação entre pais e filhos dentro de casa já tende a ser conturbada em certos aspectos, isso costuma se agravar quando a relação se estende a outros ambientes também. Mas o que a gente, enquanto filhos, pode fazer em relação a isso? Já que xingar os pais, culpar a sociedade e ficar de cara emburrada não funciona, nós precisamos aprender a lidar com isso, e com “nós”, eu estou tratando das duas partes da relação.

É muito difícil nós não nos compararmos com nossos pais em quase todos os aspectos. Quase todo mundo sente aquele peso nada invisível que é o “te criei, troquei suas fraldas, fiz de tudo para você ter uma vida boa, não me vai fazer merda por aí”. Esse peso existe, não adianta a gente fingir que não e viver nossa vida ignorando-o. Aliás, isso seria bem mesquinho porque, por mais que ter sempre que se adequar a expectativas seja frustrante, eles têm algum nível de razão em esperar certas coisas da gente, e também é preciso ter calma para ver que nem tudo o que eles dizem não serve para gente.

Eu acho que o perigo e a frustração maior aparecem quando a gente renuncia a nossa personalidade para ser uma cópia (e uma cópia torta, diga-se de passagem, porque não tem como ser uma cópia exata) de outra pessoa, em nome da aceitação deles. Por mais que eles mesmos sejam relutantes à ideia de você fazer ou pensar sobre as coisas de um jeito diferente, é preciso que você se mantenha firme nas suas convicções, porque é só com diferentes pensamentos que a história avança. Sério, imagina se a pessoa que inventou, sei lá, a internet, desistisse da ideia dela porque o pai ou a mãe dissera que era uma bobeira? Confiar no próprio taco é uma coisa fundamental nesses momentos. A gente precisa assumir a nossa individualidade e a nossa originalidade para podermos extrair o melhor de nós. Isso não quer dizer que devemos jogar a experiência e a trajetória dos nossos pais na lata do lixo, nem que nada do que eles acreditam serve para nós. Só quer dizer que precisamos ter discernimento para ver criticamente no que concordamos e no que discordamos, serenidade para lidar com as discordâncias e criar experiências boas a partir das concordâncias.

Vamos nos lembrar sempre (e eu digo vamos porque este é um esforço que eu também preciso fazer) que nós, como mulheres fortes que somos, não estamos nesse mundo para cumprir expectativas, não importa de onde elas venham. Precisamos sim tomar cuidado para que a nossa originalidade não pareça teimosia para os nossos pais, e ter paciência com eles, caso eles não entendam que “uma coisa é uma coisa e outra coisa é outra coisa” de primeira. Gritar e ficar emburrada não vai ajudar a eles entenderem isso, por mais que, às vezes, seja inevitável. Mas, tomando os devidos cuidados para que ninguém se machuque sem motivo, o nosso potencial criativo e a nossa capacidade de formular pensamentos novos devem estar sempre ativos e operantes. Eles são algumas das nossas maiores ferramentas para mudar o mundo e, por mais que, ocasionalmente, o reprimam, é nossa tarefa fazer com que eles resistam e se sobressaiam, para que nossas vozes ecoem cada vez mais por esse mundo.

Natália Lobo
  • Coordenadora de Ciência
  • Colaboradora de Culinária & FVM

Natália tem 20 anos, casa em dois lugares (ou em lugar nenhum, depende do ponto de vista), gosta de fazer e de falar sobre comida, é feminista desde que se entende por gente.

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A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

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