11 de outubro de 2015 | Ano 2, Edição #19 | Texto: | Ilustração: Bia Quadros
Eu não sou grande, eu sou gorda!

– Eu quero falar com aquela menina ali.
– Quem?
– A grande, fortinha, a gordinha…
– Ah, a Dani!

Eu ouvi esse diálogo a minha vida inteira. Meias palavras, rodeios, tudo que era possível dizer para evitar a maldita palavra: “gorda”. Ela só vinha em forma de julgamento, de humilhação, de xingamento, sendo dita com todas as letras: G-O-R-D-A. Eu realmente não sei o que era pior: a ofensa, a agressão clara ou esses rodeios com a palavra não dita, obviamente pesando no ar. Quando você cresce para os lados, quando você não se encaixa na ditadura da magreza, sua mera existência é um problema. Quando uma característica física sua é tão torturante que não pode nem ser verbalizada (tipo Voldemort), a vida é muito difícil. Já falei sobre várias coisas relacionadas à gordofobia aqui na Capitolina, mas hoje vou falar sobre um dos momentos mais difíceis do meu processo de aceitação: tirar o peso dessa palavra e coloca-la no lugar em que ela deve estar, ou seja, que é ser uma das minhas características físicas.

Quando a gente cresce gorda, automaticamente crescemos achando que isso é errado, que precisamos mudar. Daí começam as fantasias: eu fantasiava o tempo todo o mundo mágico onde eu seria magra, um mundo que existiria quando eu emagrecesse. Aí a comida vira inimiga, o corpo vira inimigo, começam as dietas loucas, as lágrimas, o desespero, o sofrimento. Olhar para o espelho parece a coisa mais difícil a ser feita. Eu realmente acreditava que nunca seria bonita até eu emagrecer, que no máximo eu tinha um rosto bonito, mas esse corpo aqui, grande, imenso, ele não era bonito. Então eu construí um mantra, uma autodefesa que dizia que beleza não importava mesmo, e que tudo bem eu não ser bonita, eu era inteligente, divertida, engraçada e isso bastava. Só que não adiantava, todo mundo ao meu redor fazia sempre eu me lembrar que, enquanto eu não fizesse parte do mundo mágico dos magros, eu nunca seria plenamente feliz. Meu corpo não pertencia a mim, ele era dos outros. Todos os outros opinavam sobre ele e ditavam como ele deveria ser, e eu ouvia calada, sofrendo, afinal, se todo mundo está dizendo, eles devem estar certos – e por “todo mundo” eu quero dizer a minha família, os meus amigos, a escola, o vizinho, o motorista do ônibus, a mídia. Ser gorda é errado, eu preciso consertar e não importa o quanto eu sofra para isso; essa era a mensagem transmitida por todo mundo, no olhar de desprezo, na piada, no comentário maldoso, na conversa de falsa preocupação com minha saúde, na inexistência de outras iguais a mim, nos filmes, séries e livros. A mensagem estava bem clara a minha volta.

Até que, de repente, com muita ajuda de várias outras mulheres, eu comecei a pegar esse corpo de volta para mim, afinal de contas, ele é meu e só meu. Ele é único, ele está aqui comigo desde sempre, me protegendo, fazendo o máximo que ele pode para fazer eu continuar existindo. Por que eu trato ele tão mal? Por que eu o odeio tanto? Ele é um pouco maior do que os moldes sim, e tudo bem. Ele é especial, ele faz de mim essa pessoa aqui, essa pessoa que é bem legal. Então olhar no espelho passou a ser uma aventura! Cada dia eu descobria uma parte do meu corpo que era incrível e linda da sua própria forma. Primeiro meu sorriso: meu sorriso é fofo. Minhas coxas, olha como elas são grandes e lindas. Minha bunda, gente, cheia de buraquinhos, toda cheia de celulite, linda. Meus peitos não tão grandes como eu queria, mas tudo bem, e com essas estrias todas que parecem raios de sol, lindos. Até que eu me olhei nua e sorri, e me achei linda assim, exatamente como eu sou, e entendi que só isso bastava. Só eu preciso me achar linda e amar meu corpo.

Tá, ok. Eu me acho linda, estou feliz, só isso importa, mas por que ainda me dói tanto ouvir a fulana me chamar de cheinha? Por que eu não consigo dizer em voz alta “eu sou gorda”? Quando você cresce temendo essa palavra, se odiando porque ela pode ser dita a qualquer momento, e só de ouvir você sabe que vai ser como levar um soco no estômago, fica difícil desatrelar essas memórias dela. Foi necessária muita força para tirar todo esse peso, para fazer minha cabeça entender que tudo bem ser chamada de gorda, que isso não significa mais um soco no estômago, não significa mais que eu sou um monstro, é apenas a constatação de um fato. Na verdade, significa mais; significa que esse é o meu corpo, o corpo que eu escolhi aceitar e amar do jeito que ele é. No momento que eu assumi essa palavra eu descobri outra coisa: descobri que aquilo que eu falava para mim mesma, que ser bonita não importava, tem um certo sentido. Na real, o que me fazia sofrer, não me achar bonita, e por isso criar uma lógica maluca que eu compensaria sendo legal, engraçada e inteligente, era muito mais o fato de acreditar que os outros não poderiam me achar bonita. Quando só eu tenho que me achar bonita é melhor, pois não consigo controlar o olhar do outro. Eu não tenho que forçar nenhuma outra característica para fazer as pessoas gostarem de mim, eu tenho que ser eu e acreditar que eu sou uma pessoa legal e que vão ter pessoas que vão gostar de mim por isso e outras que não, e assim é a vida.

Ser gorda e feliz é quase uma ofensa para o mundo, um abuso. Sabe aquele mundo mágico dos magros? Todo mundo está na fila para entrar nele, até os magros, porque ninguém nunca acredita que é magro o suficiente. Então se você chega gorda e formosa e diz “errr, não prefiro ficar aqui com meu sorvete, pode ir lá ficar paranoico com seu corpo, quero não, estou bem assim” é um insulto a todos eles. Então vai todo mundo massacrar, tentar deslegitimar toda sua conquista e fazer você voltar atrás, usar o argumento da saúde (argumento que eu não vou nem me dar ao trabalho de rebater nesse texto. Minha saúde deixe que cuido eu, não fique preocupado com ela, fique preocupada com a sua) à exaustão até você querer voltar para a fila do mundo mágico com ele.

Por isso que se manter empoderada e feliz o tempo todo é muito difícil. Sempre vai ter aquele dia que a vida está particularmente complicada, e só um chocolate para nos dar forças para terminar o dia, mas a gente hesita na hora de comer, ou pior, se sente culpada. Sempre vai ter aquele dia que o mino ou mina gatinho(a) não dá bola pra gente, mas curte foto de um monte de minas magras no Instagram e a gente imediatamente acha que é porque elas são magras. Sempre vai ter aquele dia que o vestido lindo não tem o seu tamanho. Sempre vai ter aquele dia que seu namorado ou namorada termina com você e você acha que nunca mais vai encontrar outro alguém porque é gorda. Eu sei exatamente como essas situações podem ser cruéis porque já passei por cada uma delas. Justo eu que estou aqui escrevendo esse texto todo empoderado. Mas está tudo bem gente, é uma batalha diária mesmo, e vão ter dias que não vamos ter forças para lutar. Nessas horas, na hora do aperto, minha dica é: chama as migas. Um inbox, uma mensagem no WhatsApp, um post no grupo da Capitolina sempre funcionam comigo. Porque elas sempre me lembram que eu posso ter perdido essa batalha, mas eu ainda tenho muita força em mim para lutar e que eu definitivamente não estou sozinha nessa luta.

Dani Feno
  • Coordenadora de Audiovisual
  • Colaboradora de Cinema & TV
  • Colaboradora de Música

Dani Feno, 26 anos. Quando era criança foi ao cinema ver Rei Leão a primeira vez e se apaixonou por essa coisa de ver filmes. Mais velha viu um seriado chamado Clarissa e pronto, a paixão passou para seriados também. Foi tão forte que agora trabalha em uma finalizadora de filmes e programas de TV, mas o que gosta mesmo é de editar vídeos para Capitolina. Gorda e feminista desde criança também (apesar de só saber que é esse o nome há pouco tempo). Acha que a melhor banda do universo é Arcade Fire e pode ficar horas te convencendo disso. Em Hogwarts é 70% Corvinal e 30% Grifinória.

  • Paac Rodrigues

    já passei e ainda passo por isso, e aprender a me amar foi libertador, mas realmente tem dias que ainda é bem complicado…

  • Olga Roschel

    miga <3
    obrigada pelo texto! eu me pego muito nesses momentos de não ter coragem de dizer "sou gorda", mas é isso, perdemos algumas batalhas, mas a guerra nós que venceremos (:

  • Lua Morena Rocha

    Lindo texto.

    “Quando só eu tenho que me achar bonita é melhor, pois não consigo controlar o olhar do outro. Eu não tenho que forçar nenhuma outra característica para fazer as pessoas gostarem de mim, eu tenho que ser eu e acreditar que eu sou uma pessoa legal e que vão ter pessoas que vão gostar de mim por isso e outras que não, e assim é a vida.”

    Preciso me lembrar disso. Nunca fui gorda, mas precisei ler isso pq acho que nunca acharei ninguém não pelo peso, mas pela minha altura, ausência de corpo (a.k.a sem peito, sem bunda, sem cintura, sem nada). Isso sempre fui um problema pra mim, nunca gostei de ser baixa demais. E também nem uso maquiagem sempre, aí já viu.

    Acho que preciso mudar isso, né? Começar a lembrar desse trecho que destaquei 😀

  • Pati

    Rpz, um dia desses eu tava conversando com painho e ficamos quase 20 minutos com ele criando arrodeios pra palavra gorda e eu dizendo: chama de gorda pai, eu sou gorda, pode dizer.

    E ele não conseguiu dizer. Parece que é o pior xingamento do mundo, e na nossa sociedade ainda é um dos mais ofensivos.
    É foda!

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A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

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