20 de julho de 2014 | Ano 1, Edição #4 | Texto: | Ilustração:
Tanto mais vivo de vida mais vivida, dividida pra lá e pra cá: o exílio durante a ditadura
Ilustração: Mariana Paraizo.

Ilustração: Mariana Paraizo.

Que o Brasil passou por uma ditadura militar, você já deve saber, ou pelo menos já deve ter ouvido falar. Esse regime de governo começou em 1º de abril de 1964, quando militares que eram contrários ao governo do então presidente João Goulart (o Jango) aplicaram um golpe de Estado e tomaram o poder do Brasil.

Esta ditadura, que vigorou até 1985, restringiu o direito ao voto das pessoas, reprimiu muito violentamente os movimentos de oposição (ou seja, que se opunham à ditadura), tendo torturado e até matado muita gente. Além disso, a postura econômica do governo era desenvolvimentista (isso quer dizer que se valorizava muito o crescimento econômico e industrial, mesmo que eles não significassem uma melhora na qualidade de vida da maioria das pessoas). Se você quiser saber mais sobre a ditadura, tem um jogo aqui que, além de falar mais sobre o regime, tem muitas fotos e músicas bonitas da época.

Entender o básico sobre a ditadura é fundamental para que você entenda direito o que é realmente o tema desta matéria: exílio. Exílio é o nome que a gente dá para a expulsão e saída voluntária de pessoas do país durante regimes autoritários. Assim como torturar e matar pessoas, exilá-las foi uma estratégia para mantê-las afastadas do Brasil. Por que elas precisavam ficar afastadas? Geralmente, porque representavam alguma ameaça ao regime. É que os exilados normalmente eram intelectuais que tinham ideias bem sólidas contra o regime, e tinham certa influência dentro do país, o que representava risco à ditadura. Também houveram pessoas que saíram do país voluntariamente, geralmente por suas posições políticas.

Os lugares mais procurados pelos exilados no início da ditadura foram o Uruguai e o Chile, que são vizinhos do Brasil, como vocês podem ver neste mapa ilustrativo que eu carinhosamente montei.

fig1

A ditadura foi se consolidando mais e mais e a volta para o Brasil também foi se distanciando mais e mais da realidade dos exilados, a luta armada contra a ditadura começou a se intensificar e os militantes de esquerda que participavam deste tipo de iniciativa começaram a ser presos e exilados. Muitos deles começaram a preferir ir para o Chile a ir para o Uruguai, pois a experiência socialista de Salvador Allende (que aconteceu no Chile até 1973) era muito atrativa para eles.

fig2

No entanto, em 1973 o Chile também sofreu um golpe de Estado, e uma ditadura também se instaurou no país. O mesmo ocorreu no Uruguai. A partir de documentos históricos, descobriram que as ditaduras na América do Sul nessa época estavam conectadas e compartilhavam dados sobre militantes de esquerda. Na realidade, houve uma aliança entre todas as ditaduras da América Latina – à essa aliança, damos o nome de Operação Condor. Os países que estão marcados com uma estrela vermelha no mapa participaram dessa operação, que foi liderada pelo governo chileno de Augusto Pinochet, e teve como objetivo repreender os adversários políticos da ditadura.

Já que ficar na América Latina não era mais politicamente seguro – exceto em Cuba –, muitos exilados começaram a ir para países de outros continentes, principalmente França, Suécia, Portugal, Inglaterra e União Soviética.

fig3

Caetano Veloso e Gilberto Gil são exemplos de exilados pela ditadura que foram para a Europa (mais especificamente, para Londres). Eles eram os pilares do Tropicalismo na parte musical do movimento e produziram coisas importantíssimas para a música brasileira no início da ditadura, quando ainda estavam no Brasil.

Na minha (humilde) opinião, Caetano compôs dois de seus melhores álbuns quando estava no exílio, o Transa e o Caetano Veloso. Gilberto Gil também lançou nessa época o álbum que leva o seu nome.

Sobre a composição do Transa em Londres, Caetano ja disse em entrevista: “Foi Transa que me deu coragem de fazer os trabalhos com A Outra Banda da Terra. Tem a Nine out of Ten, a minha melhor música em inglês. É histórica. É a primeira vez que uma música brasileira toca alguns compassos de reggae, uma vinheta no começo e no fim. Muito antes de John Lennon, de Mick Jagger e até de Paul McCartney. Eu e o Péricles Cavalcanti descobrimos o reggae em Portobelo Road e me encantou logo. Bob Marley e The Wailers foram a melhor coisa dos anos 70. Gosto do disco todo. Como gravação, a melhor é Triste Bahia. Tem o Mora na Filosofia, que é um grande samba, uma grande letra e o Monsueto é um gênio. Me orgulho imensamente deste som que a gente tirou em grupo.”

?Na foto, Jards Macalé, que Caetano cita na entrevista, em Londres, durante as gravações do álbum.

Na foto, Jards Macalé, que Caetano cita na entrevista, em Londres, durante as gravações do álbum.

Pra finalizar, Back in Bahia que novamente na minha (humilde) opinião, é uma das  músicas mais lindas do Gil, e fala, mais claramente do que qualquer outra música, sobre seu exílio.

Natália Lobo
  • Coordenadora de Ciência
  • Colaboradora de Culinária & FVM

Natália tem 20 anos, casa em dois lugares (ou em lugar nenhum, depende do ponto de vista), gosta de fazer e de falar sobre comida, é feminista desde que se entende por gente.

Sobre

A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

Arquivos