13 de setembro de 2014 | Relacionamentos & Sexo | Texto: | Ilustração:
Expectativa x realidade: pornografia
Ilustração da Dora Leroy

*Aqui vou tratar de relações heterossexuais, porque a indústria pornográfica é majoritariamente hétero e eu realmente não tenho propriedade para falar sobre outros nichos.

O assunto de hoje é muito complicado. Confesso que fiquei vários dias pensando em como iniciar a discussão e, principalmente, em como prosseguir com ela de maneira que as pessoas que forem ler o texto, não fechem a página na metade da leitura pensando “que besteira…”. Porque é sempre muito difícil tratar de preferências e isso se torna uma tarefa ainda mais complicada quando o campo é a sexualidade. Isso posto, eu faço a pergunta “vocês já pararam para pensar de onde vêm suas preferências sexuais?”, não só o que se aplica à heterossexualidade ou homossexualidade ou qualquer que seja o exercício dela, o que já foi tratado na Capitolina, mas o foco aqui é no questionamento sobre a prática sexual.

É importante relembrar que a maioria de nós, garotas, por diversas questões sociais, não somos muito encorajadas a iniciar nossa vida sexual de maneira autônoma. O primeiro contato que, em geral, temos com o assunto vêm muito tardio, no colégio, nas matérias de biologia, muitas vezes tratado com mera abordagem fisiológica ou, pior ainda, com uma carga extremamente pesada de moralismo e cercado de tabu. Em casa, nenhum familiar se sente confortável de falar abertamente sobre sexo, contracepção e, sobretudo, te avisar que ele pode e deve ser prazeroso. Dessa forma, crescemos achando que o universo do sexo não nos pertence.

Isso influencia toda a postura que temos diante do sexo: o nojo do próprio corpo, o desconhecimento do nosso prazer (a masturbação), a submissão nas relações sexuais e assim por diante. Nossa postura é moldada pela maneira como a sociedade enxerga a sexualidade feminina: um mero caminho para a satisfação masculina. Fruto bem direto disso é a indústria pornográfica.

Quantas vezes você parou para assistir a um filme pornô sozinha? E quantas vezes você sentiu prazer fazendo isso? Quantas vezes as cenas corresponderam à sua realidade sexual? Aliás, com que frequência você se sente obrigada a tentar reproduzir algo que viu em um filme pornô com seu parceiro, somente para agradá-lo?

A maioria dos filmes pornôs tem como protagonistas homens, as mulheres estão ali somente para servirem como um meio para obtenção de prazer. Isso provoca duas coisas extremamente problemáticas nas relações sexuais reais, que é o fato de os homens se importarem somente com seu próprio prazer, de um lado, e por outro, as mulheres aceitarem ser meras coadjuvantes no sexo. Não que isso seja proposital, mas a própria concepção de sexo criada pela influência da indústria pornográfica afeta nossas relações pessoais. Pela falta de costume de explorarem sua própria sexualidade e pela ausência de incentivos que recebem, as mulheres desconhecem suas próprias preferências e aceitam se submeter às práticas (em muitos aspectos, abusivas: lembre-se da erotização de situações não consensuais, você já deve ter visto muito por aí) que seus parceiros aprenderam assistindo pornô.

Mas você deve estar me perguntando “Ai, qual o problema se eu gosto de ______ (insira aqui qualquer prática sexual típica de pornô)?” Não tem nenhum. Por isso falei no começo que seria difícil escrever esse texto, porque a gente nunca sabe até onde a indústria pornográfica afeta mesmo nossas preferências reais. A ideia é que você passe a refletir se a postura que toma em suas relações sexuais é autônoma e persegue verdadeiramente o prazer ou apenas reproduz, por ter como obrigação ou hábito, coisas que, no fundo, não te agradariam. E mesmo que seja para agradar seu parceiro, não tem problema, mas é importante repensar suas preferências para ver se a origem delas não remete ao papel coadjuvante a que somos relegadas no sexo. A ideia é refletir para poder ter certa segurança de afirmar “Eu faço ________ (insira aqui qualquer prática sexual típica de pornô) porque EU gosto, ME dá prazer e NÃO me faz mal”. Porque nem sempre é fácil saber se estamos ou não gostando de uma coisa, já que não exploramos coisas diferentes; tomamos coisas como dadas (por exemplo, a penetração compulsória dos filmes: muitas mulheres nem sentem orgasmos com penetração) e não buscamos nosso próprio prazer. A Capitolina, pelo contrário, é a favor de que você explore seu corpo, descubra o que verdadeiramente te agrada e que você tenha muito prazer em suas relações sexuais.

PS.: Há, paralelamente a isso, todo um debate sobre a indústria pornográfica em si, o quanto ela pode ser machista, insalubre e abusiva. E também a iniciativa de produzir um nicho de filmes pornôs mais voltados ao prazer feminino, que é o que a Erika Lust está fazendo.

Para ler +

A pornografia e o feminismo
Entrevista: Márcia Imperator
Whose porn, whose feminism? (em inglês)

Gabriella Beira
  • Coordenadora de Escola, Vestibular & Profissão
  • Colaboradora de Relacionamentos & Sexo

Gabriella Beira é formada em Relações Internacionais e, como qualquer "internacionalista" (é assim que se chama a pessoa que estuda RI), quer conhecer o mundo todo e, se possível, mudar o mundo. Gosta muito de falar sobre educação, cultura, sociedade e feminismo, mas seu hobby mesmo é jogar Plants vs Zombies. É impaciente, procrastinadora, irmã mais velha e aluna mediana.

  • Verônica Vilela

    Sempre me incomodou muito como é a disposição das câmeras em um filme/video porno, porque é absurdo o quanto que o corpo da mulher é objetificado (oq não seria algo exatamente negativo, porque num porno é fato q vc ta lidando com os atores como objetos de desejo e pa, mas o corpo do homem NUNCA é posto como objeto!!) E ai voce fica só vendo mil angulos e meio do corpo da mulher e de posiçoes que são esteticamente atraentes pro homem ht e nenhum angulo de camera pega o homem de um jeito massa, sempre lida com o corpo masculino como o que pratica a açao, o q deseja, e nunca como o objeto de desejo. Você pode até curtir um porno tradicional, mas acho importante no minimo assumir que esses filmes giram em volta do olhar masculino ht.

    • Frienly

      Por isso eu adoro pornô gay kkkkk não existe maneira de o foco não ser nos rapazes! kkk

  • Daniela

    Eu sou contra a indústria da pornografia por n motivos. Não se trata apenas do prazer, disposição da câmera ou o prazer voltado pra mulher. Quantas atrizes pornôs já não foram machucadas por essa indústria? Há vários relatos de violências contras as atrizes e também há tanto diretor machista que faz apologia a estupro e misoginia! :(

Sobre

A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

Arquivos