6 de fevereiro de 2016 | Artes, Colunas, Literatura | Texto: | Ilustração: Gabriela Sakata
Explorando as fanfics: histórias sobre histórias

Sabe quando você ama tanto um livro ou um filme que não consegue deixar de pensar no que acontece depois do final? Ou fica imaginando como seria a mesma história num contexto totalmente diferente? Ou gosta tanto de um personagem secundário que quer saber mais sobre ele?

Foi assim que surgiu a ficção criada por fãs – a fanfiction.

Fanfic, ou até fic para os mais íntimos, é exatamente isso: uma história escrita por um fã baseada na obra original. Essa obra pode ser livro, filme, série de TV, videogame… qualquer coisa. Existem até fics sobre celebridades. Uma rápida busca em sites como Wattpad ou Fanfiction.net mostra que provavelmente há fanfics de tudo o que se possa imaginar.

Para construir a história basta libertar a imaginação: pode usar os mesmos personagens em outro universo, pode manter o mesmo universo e criar personagens novos, pode escrever um final alternativo… O céu é o limite.

Mas escrever algo baseado no que outra pessoa criou não seria plágio ou, no mínimo, falta de originalidade?

Bem, não.

Autores de fanfiction deixam claro desde o início que não são donos do universo nem dos personagens sobre os quais escrevem. Quanto à falta de originalidade, os gregos da antiguidade já consideravam que o conceito de arte estava intrinsecamente ligado à imitação.

Se você parar para pensar, existe realmente alguma obra que seja totalmente original? Totalmente pura, sem nenhuma influência externa?

Desde que histórias começaram a ser escritas, já existiam pessoas escrevendo outras histórias sobre elas. Considere as peças de Shakespeare, por exemplo. E nem estou falando só das históricas como Henrique V ou Ricardo III (que seriam as versões dele sobre acontecimentos reais), mas tragédias e comédias como Romeu e Julieta, Hamlet, Macbeth ou Sonho de uma noite de verão, que foram total ou parcialmente inspiradas em lendas e contos já existentes na tradição oral de vários povos.

Esse é um padrão que se repetiu ao longo de toda a história da literatura. Autores escreviam se inspirando naquilo que já haviam lido e vivido.

Na literatura brasileira, por exemplo, os autores românticos basicamente imitavam os europeus. Lucíola, de José de Alencar, nada mais é do que uma versão de A Dama das Camélias, de Alexandre Dumas Filho, que por sua vez é inspirada na relação do escritor com a cortesã Marie Duplessis!

O surgimento de fóruns e comunidades online facilitou o encontro entre indivíduos com vontade de ler e escrever novas versões das obras que amavam. A partir daí surgiu o nome fanfiction para designar esse tipo de história e com ele todo um novo vocabulário relacionado, com termos como canon e ship (você pode ler mais sobre aqui).

A maioria das pessoas que escreve fanfics faz pelo puro prazer de compartilhar suas histórias com outros fãs. Mas algumas fics ficaram tão famosas online que chegaram a ser publicadas, com algumas alterações por conta dos direitos autorais.

É o caso da trilogia Cinquenta tons de cinza (fanfic de Crepúsculo), da série Instrumentos mortais (fanfic de Harry Potter) e da série After (fanfic da banda One Direction). No caso de obras em domínio público, as fics podem ser publicadas sem modificações, como O diário de Mr. Darcy (fanfic de Orgulho e Preconceito) e Vasto mar de sargaços (fanfic de Jane Eyre).

Autores têm posições diversas a respeito de fanfics. Existem alguns (poucos), como Meg Cabot e Bernard Cornwell, que chegam a encorajá-las. A maioria, como Neil Gaiman e J. K. Rowling, simplesmente não se incomoda. E há ainda alguns, como Diana Gabaldon e George R. R. Martin, que já se declararam radicalmente contra.

O fato é que, quando somos fãs de alguma coisa, ler e escrever fanfics é uma delícia. É divertido, é de graça, exercita a criatividade e ainda faz com que você conheça pessoas com gostos semelhantes aos seus sem nem precisar sair da sua casa.

Se você ama fanfics, continue sem culpa. E se você nunca leu uma, está esperando o que?

Mariana Fonseca
  • Coordenadora de Saúde
  • Colaboradora de Literatura e do Leitura das Minas

Mariana tem 25 e se formou em medicina. Carioca, ama viver no Rio de Janeiro, mas sonha em voltar para a Escócia. É feminista deboísta e acredita que todo mundo merece chá.

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A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

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