27 de outubro de 2014 | Cinema & TV | Texto: | Ilustração: Clara Rende
Faça Seu Próprio Filme #2

Dando continuidade à nossa sessão especial Faça Seu Próprio Filme – que tem como intenção ser uma introdução sobre a produção audiovisual e incentivar nossas leitoras a fazerem seus próprios filmes, hoje tenho um apanhado de algumas funções importantes e uma leve explicação de como elas funcionam.

Vale lembrar que grandes produções têm equipes gigantes e dezenas de funções específicas. Selecionamos algumas funções essenciais e que podem ser consideradas mínimas em pequenas produções. Em seguida, vamos falar um pouco de roteiro e como colocar no papel todas aquelas histórias, para depois gravá-las.

Fazer um filme não é uma tarefa tão simples e logo as funções podem ser um pouco mais complexas que descritas embaixo, mas vamos tentar em poucas linhas ter uma ideia geral de cada ocupação.

Produção

A produção é responsável por achar meio de viabilizar o filme. Existem diversos tipos de produção: produção executiva, direção de produção, produção de set, produção de locação, produção de animais, produção de alimentação, entre outras. Mas todas essas funções tentam achar meio de conseguir o que é necessário para fazer o filme. Produtores são também de certo modo, responsável pelas pessoas e pelo bem estar do set, além de sua logística. É também aquela pessoa que vai estar 24/7 disponível para resolver quase qualquer coisa.

Produção também ajuda a criar intermediação com quem não é da produção, como por exemplo: querem gravar numa padaria. A produção vai entrar em contato com o dono da padaria, explicar a situação e pedir autorização (que tem que ser formalizada por meio de um documento onde o proprietário assine autorizando a gravação) para gravar, explicando sempre de maneira honesta o que será feito e os locais que querem ser usados. Qualquer problema que o dono vir, ele recorrerá ao produtor, pois foi essa pessoa que fez a ponte entre a gravação e o local escolhido. É prescindível que sempre se entregue o que foi pego emprestado do mesmo jeito que o dono lhe deu.

A produção tem que sempre estar preparada para o pior, por isso sempre carrega uma caixa com milhões de fitas, cortas, prendedores e coisas afins. Vocês não têm ideia do poder que uma fita tape tem numa filmagem. Além disso, deve sempre ter um plano B para gravações externas em caso de chuva, ou quando dependem de alguma essencial que pode não acontecer, como por exemplo ter cachorros no set e ter um em casa de sob aviso.

Direção

O diretor é a pessoa responsável junto aos outros departamentos, por pensar em todo o filme. Ele vai pegar o roteiro (que pode ser dele ou não) e pensar em como contar essa história. Juntamente os chefes de cada departamento ele vai decidir como contar a narrativa esteticamente, como deve ser a arte, a foto, a montagem… Tudo para tentar chegar mais próximo dos sentimentos que ele quer passar aos espectadores.

Outra parte muito importante do trabalho do diretor é o trabalho com os atores. Os atores vão recorrer ao diretor em caso de dúvidas sobre seus personagens e interpretação. Cada diretor tem um jeito de trabalhar com seu elenco, uns gostam de ter muitas conversas e ensaios, outros deixam os atores mais livre. Isso pode depender também do tipo de filme que se faz e os atores com quem se trabalha. Atores novos podem precisar de mais instrução, já que fazer cinema é ter que repetir o mesmo take várias vezes e gravar tudo em pedaços espalhados. Alguns diretores gostam de trabalhar com o que chamamos de “não atores”, que são pessoas comuns e sem experiência que acabam trabalhando em filmes por diversas razões. Ladrões de Bicicleta (Ladri di Biciclette, 1948) de Vittorio de Sica é um famoso exemplo de uso de não atores, a jornada de um trabalhador pobre da Itália pós-guerra e seu filho atrás de uma bicicleta roubada. O protagonista do filme, Lamberto Maggiorani, era um simples operário de uma fábrica, que voltou ao seu emprego depois do filme, sem fazer o sucesso que o mesmo faria. Mais tarde fez vários outros filmes, mas nenhum de sucesso como Ladrões de Bicicleta.

Diretor também é responsável pela decupagem do filme, que são os planos que vão ser gravados, que compostos formam as cenas do filme. Para poder fazer isso, ele precisa saber qual é a prioridade do filme: contar a história de forma clara e precisa, trabalhar com a montagem, trabalhar com uma certa arte. Basicamente, o que ele quer mostrar ou não. Pegamos exemplos filmes de terror: alguns escolhem mostrar os monstros da história ou não, esse tipo de decisão vem do diretor (ou da produção, que vai depender do nível de dificuldade). Para ilustrar o exemplo melhor, temos o filme Tubarão (Jaws, 1975) de Steven Spielberg. Inicialmente, o tubarão iria aparecer em diversos momentos do filme, mas depois de gravadas algumas cenas perceberam que ele parecia falso demais e não funcionava muito bem, o que pra produção foi bom, pois quanto menos ele aparece no filme, mais suspense cria. Esse é o tipo de decisão que é tomada em conjunto, pois ainda que o filme tenha um diretor – a grande cabeça pensante da estética -, fazer um filme é um grande trabalho em equipe onde todos caminham juntos para fazer o que é melhor para obter os resultados desejados.

Diretor de fotografia

Uma vez decidido com o diretor o tipo de fotografia que será usada no filme, o diretor de fotografia fica responsável por construir essa luz no set. Se preparando antes com a lista de equipamentos necessários e muitas vezes fazendo testes para saber se conseguirão chegar ao resultado esperado.

Diretor de Arte

O Diretor, o Diretor de Fotografia e Direção de Arte trabalham sempre junto. Uma decisão influencia o trabalho do outro. Tendo decido a estética do filme, a arte se encarrega de conseguir o que foi necessário para cenários, figurinos e objetos. Uma boa arte não é só a escolha de bons objetos, mas de significados e pesquisas por parte daqueles que a constroem. Objetos muitas vezes não são apenas objetos nos filmes, mas agregam significados aos personagens e à narrativa.

Diretor de Som

Pode ser dividido entre a pessoa que vai ao set captar o som e aquele que depois do filme montado mixa o som. Muitas vezes esquecidos e subestimados (muita gente acha que tendo uma câmera é suficiente para fazer entrevistas, vídeos, filmes…) o som é parte essencial da produção. Um bom design de som faz toda a diferença quando paramos para ver o filme.

Montagem

Depois do filme feito e os arquivos das gravações organizados, o montador vai pegar tudo e começar a montar o filme. Antes dessa etapa ele já teve discussões com o diretor sobre como o filme vai ficar depois de pronto e que tipo de montagem ele quer. O montador também vem com bastantes sugestões na sua etapa, já que ele é a pessoa que vai colocar cola em todos os planos gravados e ver o que funciona melhor. Filmes podem ter diversos cortes, vai depender do material que o montador recebe e a intenção do filme. O trabalho de montagem é um trabalho que exige bastante atenção e uma certa dose de perfeccionismo.

Finalização

Uma das últimas etapas do filme é a finalização. Depois de montado e som mixado, o finalizador tem como missão arrumar a cor do filme – deixar os planos mais parecidos ou mais perto da estética desejada. O finalizador pode também fazer efeitos especiais ou tirar e pôr coisas nas cenas – sem assim deseja a produção. Outro trabalho que assim como a montagem exige paciência e perfeccionismo.

Assistente de Direção

O assistente de direção tem um trabalho muito importante, que é dar a dinâmica do set. É a pessoa que vai organizar a ordem do dia – que é a ordem em que as coisas vão ser gravadas, e fazer com que tudo ande dentro dos conformes e dos horários. No set, ele também faz a ponte entre os outros departamentos e equipe e o diretor – que na hora tem a maior preocupação com o trabalho com os atores. O assistente também tem que ficar por dentro de tudo que acontece no set e o andamento das coisas.

Roteiro

Um filme pode nascer de diferentes intenções: fazer uma montagem diferente, trabalhar com cores na fotografia, usar figurinos diferentes ou contar alguma história. Mas todo filme começa com uma ideia e é preciso trabalhar nela antes de começar a filmar. Vamos agora falar nas ideias narrativas. Quem nunca teve vontade de contar uma história ou imaginou uma grande aventura de uma personagem? Assim como contos e crônicas têm suas diferenças, o roteiro também tem suas especificidades.

É preciso antes de tudo entender que o roteiro não é o fim, é um guia. É um guia para equipe toda, para ajudar a imaginar aquilo que irá ser projetado na tela, para imaginar o resultado final. O roteirista não necessariamente é o diretor ou tem algum tipo de voz na produção. Uma vez o roteiro feito e entregue, ele é colocado nas mãos do diretor e é, de certo modo, reinterpretado. Mas tudo isso não significa que o roteiro não tem seu próprio glamour. Um roteiro consistente e bem feito é um grande atrativo e corre mais chances de ter gente interessada nele. Todos gostamos de boas histórias.

Vamos dar algumas dicas de escrita e de personagens agora.

Sempre aprendemos que toda história tem começo, meio e fim. Bom, não necessariamente. Sabe aquele filme que tu achou sem final? É o que chamamos de final aberto. Mais importante do que esses três blocos é a necessidade de que alguma coisa aconteça na tela. Não precisamos estar engessados nesses módulos, mas pra quem está começando a escrever roteiros é importante exercitar a estrutura mais clássica. Como muito se diz por aí, é preciso conhecer as regras muito bem para transgredi-las. Pensemos em uma história que começa, que tem meio e que termina de outra maneira.

Podemos fazer roteiros sem finais, sem falas, com muitos ou poucos personagens, muitas sequências ou apenas um grande plano, mas precisamos fazer duas coisas muito importantes quando estamos escrevendo:

– sempre escrevemos no presente

“Joana anda pela rua quando vê um homem do outro lado da rua passeando com um cachorro. O cachorro parece animado, mas o homem tem feições duras e fechadas. Joana caminha distraída olhando os dois, quando uma mulher esbarra nela sem querer. Joana se assusta e pede desculpas para a mulher. Quando ela olha do outro lado da rua, não vê mais o homem nem o cachorro.”

– só escrevemos o que podemos ver

“Joana sente saudades do verão passado.”

A frase acima é muito vaga, como exatamente vamos saber que Joana sente saudades? Temos que lembrar de nunca escrever sentimentos, mas pensar em imagens que possam expressar o que os personagens sentem.

“Joana caminha até o armário e tira uma caixa com adesivos colados. Ela volta para sua cama e se senta. Uma vez confortável, ela abre a caixa e fica olhando o seu conteúdo. Dentro da caixa há várias fotos de Joana e seus amigos. Eles usam roupas de verão e parecem se divertir.”

Agora conseguimos pensar melhor em imagens, não?

Todas as cenas do filme são numeradas em sequência. Em seguida precisamos localizar onde está se passando a ação do filme. Depois em que parte do dia ela acontece, se é interna (dentro de algum lugar) ou externa (na rua).

CENA 1 – LOCAL – INT ou EXT / DIA ou NOITE

JOANA caminha até o armário e tira uma caixa com adesivos colados. Ela volta para sua cama e se senta. Uma vez confortável, ela abre a caixa e fica olhando o seu conteúdo. Dentro da caixa há várias fotos de Joana e seus amigos. Eles usam roupas de verão e parecem se divertir. De repente, uma MULHER abre a porta, para na frente dela.

MULHER

Tu não vai sair?

Joana fecha a caixa.

JOANA

Me dá uns minutos e eu já desço.

A mulher sai e fecha a porta atrás dela. Joana guarda a caixa no mesmo lugar que tirou e calça os sapatos. Ela sai do quarto.

De um certo modo, escrevemos imagens. Temos que ser claras no que queremos mostrar e indicar isso no roteiro.

Esperamos que o texto tenha sido instrutivo e claro para vocês. Como essa é uma coluna especial que ainda tem vários textos a serem feitos pedimos que não se acanhem e qualquer dúvida podem deixar comentários ou mandar mensagens que vamos responder. Entendemos que num primeiro momento pode ser meio difícil de conseguir visualizar as funções e a arte de escrever histórias em forma de roteiro, mas ninguém disse que seria fácil, é, sem dúvida, uma arte trabalhosa e bem divertida.

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Natasha Ferla
  • Coordenadora de Cinema & TV
  • Colaboradora de Estilo
  • Audiovisual

Natasha Ferla tem 25 anos e se formou em cinema e trabalha principalmente com produção. Gosta de cachorro, comprar livros e de roupas cinza. Gosta também de escrever, de falar sobre o que escreve porque escreve melhor assim. Apesar de amar a Scully de Arquivo X sabe que no fundo é o Mulder.

  • Verônica

    Que linda, você cursou cinema <3
    Na minha cidade tem um instituto que dá um curso profissionalizante de cinema, fiz a turma básica ano passado e to na avançada desse ano, lá produzimos filmes e mandamos para festivais.To achando uma belezura essa sessão pra ensinar as moças a fazerem seus próprios filmes <3

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