26 de janeiro de 2015 | Cinema & TV | Texto: | Ilustração: Beatriz Leite
Faça Seu Próprio Filme #4 Direção de Som e Direção de Arte

 

 

Na nossa maravilhosa coluna Faça Seu Próprio Filme até agora, já falamos de uma porção de coisas e eu espero que as leitoras se sintam mais aptas a, no fim das contas, fazerem seus próprios filmes. Hoje vamos pisar em terras menos exploradas para quem não faz filmes profissionalmente, mas nada que te exija algo além de intuição e um pouquinho mais de atenção. Vai ser divertido!

Direção de Som

O som sincronizado com a imagem só surgiu anos depois que o filme foi inventado, depois de uma busca incessante por parte dos estúdios, e os boatos contam que O cantor de jazz (The Jazz Singer, 1927) foi o primeiro longa-metragem com som sincronizado. Mas o cinema nunca foi exatamente mudo. Antigamente, muito dos filmes eram acompanhados por música ou dublagem ao vivo, em alguns países como o Japão, por “comentadores” que explicavam cenas do filme (os benshis), por equipes que criavam “efeitos sonoros” ali na hora mesmo, etc. Isso só serve pra dar uma ideia do quanto o som pode ser potente em termos de narrativa e pode até res-sig-ni-fi-car as imagens da tela.

Quando gravamos cotidianamente vídeos caseiros, dos amigos, para a escola, costumamos nos preocupar um montão com a imagem, o que se vê na tela e bem, o som pode estar somente razoável, audível ao menos. Mas por que não aproveitar mais essa possibilidade para enriquecer o seu filme? Se você prestar atenção em algumas coisinhas antes de gravar, o seu som vai ser bem mais limpo e brilhante.

No vocabulário do cinema, chamamos de “diegético” tudo que faz parte do universo do filme. Então existem duas possibilidades de som: o som diegético, aquele que vem do próprio filme: as falas dos personagens, os ruídos de carros, pássaros, movimentos; o som não-diegético: a voz do narrador, a trilha musical, etc. Esses últimos normalmente são adicionados depois, na edição, mas é bacana você já ter tudo planejado antes de gravar. Quantas vezes uma cena não te emocionou (mais ainda) por causa da trilha sonora? De repente uma amiga sua manja de música e poderia compor algo pra você. Um narrador provavelmente é mais bacana se ele adicionar informações novas ao filme do que se ele só falar sobre o que todo mundo já está vendo, por exemplo. São coisas a se pensar antes.

Quanto aos sons diegéticos, normalmente são gravados ao vivo, principalmente as falas. A gravação dos sons durante a gravação é o que chamamos de som direto. A primeira coisa a se fazer para não comprometer o seu som direto é bem simples: pedir silêncio para o resto da sua equipe, haha. Você também pode pedir para os seus atores ou as pessoas que estão no seu filme falarem alto e claramente.

Preste atenção em volta: o lugar onde você está filmando é muito barulhento, passam muitos carros? É o caso de pensar em mudar de lugar? Fechar as portas e as janelas às vezes já adianta. Mas daí, elas têm que estar fechadas durante todo o tempo da cena, ou você vai ter um problema de continuidade. O som também é um dos grandes responsáveis por ajudar a manter a continuidade. Depois de terminar de gravar as cenas, você pode gravar alguns minutos do som do lugar em que você filmou. Isso se chama ambiência e pode te ajudar a não ficar com silêncios estranhos entre os cortes das cenas.

A maioria das câmeras semiprofissionais e mesmo a câmera dos celulares vêm com um pequeno microfone embutido que grava o som sincronizadamente. Não é o melhor equipamento do mundo, mas é ao que você provavelmente tem acesso. Na dúvida, faça um pequeno take teste antes para checar se está tudo ok com o som. Em algumas câmeras, dá pra você ligar um fone (sugiro headphone) e ouvir como o som está ficando no vídeo, que é diferente de como ele soa ao vivo.

Ouvir melhor é um exercício constante e as recompensas são ótimas. Feche os olhos e perceba as camadas de som ao seu redor, faça isso em casa, no metrô, preste atenção nos sons do próximo filme que você assistir. O mundo está aí para ser escutado também.

 

Direção de Arte

Direção de arte nos filmes é algo que eu sempre gostei inconscientemente (claro, minha Vênus é em Touro), mas demorei algum tempo até descobrir exatamente que era uma “coisa” e qual era o nome dessa “coisa”. Só na faculdade enfim que eu descobri que tem pessoas que realmente trabalham com isso. Mas quem é responsável pela direção de arte faz o quê? A concepção visual, o design do filme: quais são as cores principais, quais os figurinos, a cenografia, os objetos, a maquiagem.

Em alguns filmes, a direção de arte é meticulosíssima e dá pra perceber só de bater o olho. É o caso dos filmes do Wes Anderson e do trabalho da Milena Caronero, sobre quem já falamos. Em outros filmes, a direção de arte é essencial: sempre penso no quão bacana deve ser ter trabalhado na direção de arte de filmes como Harry Potter ou Os Flinstones (The Flinstones, 1994) e criar um universo praticamente do zero. Mas mesmo se o tom do filme for naturalista, despretensioso, a direção de arte pode ajudar em muitas coisas.

Untitled

(Croquis de figurnio de O Auto da Compadecida)

Se pergunte qual atmosfera você quer criar no seu filme. De que forma você pode usar as cores, os objetos e o espaço para isso? E como isso conversa com a fotografia, o som, a atuação? Cores frias e escuras tendem a criar um clima mais sombrio e cores quentes fazem o contrário, por exemplo. A internet (o Tumblr e o Instagram!) e os filmes que você já viu são ótimas fontes de inspiração, mas a vida real também é! Preste atenção nos espaços, nas texturas, na arquitetura da sua cidade. Uma vez uma diretora de arte disse, em uma palestra em que eu fui, que é importante para qualquer artista aprender a roubar: roube ideias o tempo todo, anote, tire fotos.

Depois de toda a parte da inspiração, comece a planejar. Crie uma paleta de cores que você imaginou que tem a ver com seu filme, você pode usar ferramentas na internet (http://paletton.com/) pra isso. Pense no figurino e nos objetos e mais do que isso, vá atrás deles, essa é uma das partes mais difíceis. Você pode pegar roupas emprestadas de amigas, usar as suas próprias. Brechós e antiquários têm objetos e roupas diferentes difíceis de se encontrar em outro lugar, mas isso pode sair caro, então por que não dar aquela fuçada na casa da sua vó?

A verdade é que na maioria das vezes (ouso dizer todas), as coisas não vão sair exatamente como você planejou, mas isso não é motivo para desespero. Além de roubar, também é importante aprender a improvisar. Se você não pode pintar uma parede da cor ideal maravilhosa perfeita que você imaginou, talvez você possa pelo menos colar cartazes bonitos nela. Às vezes, menos também é mais. Uma peça que chame atenção na cena toda pode ser mais legal do que milhares de objetos calculadíssimos. Direção de arte pode ser muito divertido, saiba ser perfeccionista até o ponto certo, mas não deixe de se divertir.

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Isadora Maldonado
  • Colaboradora de Cinema & TV
  • Ilustradora
  • Audiovisual

Isadora N., 21.

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