23 de fevereiro de 2015 | Cinema & TV | Texto: | Ilustração: Mazô
Faça Seu Próprio Filme #5: Pós-Produção

 

MONTAGEM / EDIÇÃO

Quero começar esse texto contando uma historinha. Era uma vez uma editora (assistente de edição na verdade) que foi para um bar com amigas, também editoras, depois de um dia de trabalho. No bar, uns meninos vieram conversar e na onda do flerte um deles perguntou o que elas faziam, “trabalhamos com cinema”, “mas com quê? Vocês escrevem ou filmam?”. Essa editora era eu e nesses cinco anos (já tem tudo isso!) que trabalho com edição sempre tenho que explicar que existe todo um mundo de coisas a fazer em um filme depois que você desliga a câmera.

Se o menino do bar não fazia ideia do que era edição, vocês imaginem minha avó? Tanto pro menino do bar, quanto para minha avó, quanto para vocês agora eu sempre falo que edição é quase como um grande quebra-cabeça. Você tem as peças (os planos que foram gravados) e o guia da imagem que você quer ter no final (o roteiro e a decupagem), grande parte do processo de edição é montar esse quebra-cabeça, achar a melhor forma de contar a história, o melhor plano para a fala x e o melhor take que ele foi feito e montar todos esses “melhores planos” da melhor forma, para dar o ritmo que você quer para sua história.

Agora vamos complicar um pouco essa história do quebra-cabeça. O primeiro momento da edição é ver tudo que foi gravado e jogar fora o que você não quer e organizar o que você quer. Sim, nem sempre as coisas dão certo na gravação, vai ter muita câmera tremida, ator que esqueceu a fala ou começou a rir, ou uma ambulância que apareceu e estragou o som daquele take. Então você vai ver tudo o que gravou e começar a separar o “joio do trigo” em busca dos melhores planos. Aqui é importante também você organizar todo o seu material e anotar tudo que você achou que está melhor, para na hora de montar ficar mais fácil de localizar. Por exemplo, a cena x foi gravada em quatro planos diferentes e você gostou da primeira fala no plano 01, mas da segunda no plano 03, não precisa montar agora, mas já anota isso. Em grandes produções, geralmente, quem faz isso é o assistente, mas no seu filme quem vai fazer é você, então é preciso bastante paciência pra essa etapa.

Depois dessa primeira fase feita, agora vamos olhar material selecionado e já ir escolhendo os “melhores planos” e cortando e colocando um atrás do outro, nesse primeiro corte é muito bom ter o roteiro ao lado servindo como guia pro que vai ser feito. Depois, você vai assistir e, com certeza, vão ter coisas que ficarão estranhas e você não vai gostar, por mais que você tenha escolhido os “melhores planos”. O problema é o ritmo. Uma mesma cena pode durar trinta segundos ou um minuto tudo depende do tempo entre uma fala e outra e só você assistindo a uma, duas, vinte vezes vai saber qual é o tempo certo que melhor vai passar a ideia que o diretor(a) quer passar com aquela cena. Esse pensamento vale pro filme como um todo. Nós editores assistimos ao filme inúmeras vezes e inúmeras versões, procurando qual a versão que melhor vai funcionar. É importante lembrar também que seu filme não precisa ficar preso no roteiro. Nem tudo que é escrito vai ser passado para tela bem ou da mesma forma. Falas ou até cenas inteiras podem ser cortadas ou mudadas de lugar, inclusive aprendi desde cedo que editor(a) não deve ir para gravações, não pode criar “apego” com nada gravado, nem que tenha demorado horas gravando aquela cena, dinheiro tenha sido gasto, não importa, se não funciona é lixo.

Outra coisa que ajuda a edição é o som. Isso pode ser feito de mil formas. O som ambiente pode suavizar um corte rápido ou preencher um espaço de um tempo a mais que você quer dar entre um corte e outro. Efeitos sonoros ajudam também a pontuar algumas ações. Por exemplo, em uma cena de piada o som de uma buzina ou o famoso rufar de tambores para alguma notícia, ou um vidro que se quebra ou uma porta que range em uma cena de suspense. Além disso, temos a trilha sonora. A trilha mais do que ritmo, traz toda uma emoção para uma cena e pode mudar tudo. Aqui abaixo tem um trailer reeditado que muda todo o sentido do filme. O Iluminado (The Shining, 1980) um filme de terror clássico vira uma comédia com uma música animada e um narrador falando coisas felizes.

Quando você estiver editando seu filme você também deve pensar em linguagem. D. W. Griffith foi o primeiro cineasta a montar um longa com uma narrativa. Em 1915, seu filme O nascimento de uma nação (The Birth of a Nation) – um filme muito racista por sinal! – mudou o cinema e virou a base da linguagem cinematográfica clássica. Se você vir esse filme agora não vai entender por que estou falando que ele é tão inovador assim, mas é porque antes dele, os filmes não contavam histórias e ali está o primeiro exemplo de linguagem clássica de edição: a edição invisível que ninguém percebe que está ali só para contar a história. Essa é a maior parte da linha de edição que você já viu, porém você pode seguir outro caminho, como a escola soviética. Cineastas como Serguei Eisenstein e Dziga Vertov acreditavam em um cinema forte e impactante, então cada corte é um choque para o espectador. Assim, a edição é muito mais marcada e a história em si perde um pouco da importância. O que importa aqui é a sensação que as imagens vão causar. Aqui embaixo deixo uma cena do filme de Vertov Um homem com uma câmera (Chelovek s Kino-Apparatom, 1929) que explica melhor o que estou falando:

Agora que você entendeu como pensar toda a edição para o seu próximo filme. Onde você pode fazê-la? Quando eu tinha quinze anos, dei de presente para uma amiga uma fita VHS (se você não sabe o que é, pense que é uma espécie de DVD) com as cenas favoritas dos filmes que ela mais gostava. Fiz isso juntando dois vídeo cassetes (o aparelho onde a gente via as fitas), um passava os filmes e no outro tinha uma fita virgem onde eu ia gravando as cenas que queria na fita dela. Não fazia ideia de que isso já era edição. Isso é a edição linear, que era feita antes dos computadores, em que você ia montando o filme plano a plano, como diz o nome linearmente. Como era muito difícil você voltar ao início e apagar, você tinha que ir editando na ordem que ia ficar no filme.

Com os computadores surgiram vários programas de edição e com eles a edição “não-linear”, que é muito mais maleável, você pode editar as cenas na ordem que quiser e no final é só juntar tudo e colocar na ordem que vai aparecer no filme.

Vou citar aqui alguns para vocês poderem aplicar tudo que falamos. Todo Windows já vem com o Windows Movie Maker e no Mac também tem o iMovie, os dois são programas básicos de edição, sem muitas ferramentas específicas, mas já dá para vocês praticarem. Além desses, temos o Lightworks e Kadenlive que são grátis e um pouco mais profissionais, cheios de tutoriais no YouTube para vocês aprenderem a mexer. Ainda, se você tem Linux, temos o Cinelerra, também grátis, porém todos esses programas estão em inglês. Agora é só começar a montar seu quebra-cabeça, ops filme.

PÓS-PRODUÇÃO

Na verdade, a edição também está incluída na pós, mas separei essas outras funções, porque elas são mais desconhecidas ainda do grande público (mas não menos importantes). Essas outras áreas são encontradas em praticamente toda obra audiovisual profissional, mas são mais difíceis de fazermos em casa. Porém, vamos conhecê-las, entender e, de repente, achar o que pode ser feito em casa.

COLOR GRADING OU AJUSTE DE COR

Nos textos sobre direção de fotografia e direção de arte vocês aprenderam que um filme pode ter diversas cores. Quando pensamos a ideia e emoção que queremos passar com uma cena, a luz e cor podem nos ajudar muito com isso. Os coloristas são a última ponta dessa área. Trabalhando sempre com o fotógrafo(a) eles podem seguir tudo que foi pensando no set e só intensificar ou diminuir ou mudar tudo completamente. Podem criar todo um “look” e até transformar algo que foi gravado de dia em noite. Outra coisa importante é que quando gravamos com mais de uma câmera elas nunca vão reproduzir a mesma cor de imagem e é aqui que se ajustam essas diferenças e mantém tudo com a mesma luz, isso é feito principalmente para programas de televisão e documentários, que não necessariamente tem um look, mas precisam desse ajuste.

Nos programas de edição, a parte superior sempre vem com um filtro de cor que você pode aplicar em seus planos e começar a se aventurar por esses caminhos. Se realmente quiser tentar mexer na cor do seu filme o programa DaVinci Resolve tem uma versão light grátis, mas ele é um programa profissional e você pode quebrar a cabeça um pouco até aprender a mexer. Outra coisa, ele puxa muito a placa de vídeo do seu computador, para você rodar precisa de uma placa muito boa e ele também é em inglês.

EDIÇÃO E MIXAGEM DE SOM

Como vimos, o montador(a) utiliza muito do áudio para suavizar cortes ou criar emoções, porém no mundo profissional, ele só coloca indicações do que ele acha que vai funcionar. Muitas vezes, existe um profissional responsável em editar somente o som e criar todo um desenho de som, colocar mais efeitos, melhorar um ou outro corte de fala, entre outras coisas. Junto com ele (muitas vezes a mesma pessoa faz as duas funções) trabalha o mixador(a), ele cuida dos níveis de volume, de fade, às vezes tem que resolver algum problema técnico que tenha acontecido na gravação. Para você entender melhor, pense em uma cena com dialogo que tenha uma trilha sonora. Se ela ficar muito baixa, você não entende, parece barulho. E, se ela ficar muito alta, você não ouve o que os atores dizem. É aqui na mixagem que vamos achar o ponto correto. É importante também manter uma unidade no áudio, uma constância. Às vezes, algumas cenas estão baixas e outras mais altas e o mixador que vai garantir que o filme tente se manter mais ou menos no mesmo nível. Nessa área também temos o “folley”, esses são efeitos sonoros adicionais para o filme. O editor(a) ou o mixador(a), trabalhando em uma cena, pode achar a necessidade de ter barulhos de passos que por alguma razão não foram captados no set, por exemplo. Então, ele(a) entra em contato com o pessoal do folley que pode procurar esse som em algum banco de dados ou gravar alguém caminhando somente para o filme em questão.

Novamente você em casa dentro do seu programa de edição já pode olhar para o áudio e pensar em controlar o volume, pensar na unidade do som. E para a maioria deles temos também filtros de áudio, se você quiser tentar algum efeito específico. No site https://www.freesound.org/, com um registro rápido e gratuito, você tem acesso a uma infinidade de sons de efeito: sirenes, buzinas, choros, gritos, o que você quiser. Porém, o site está em inglês. Se você quiser se aprofundar mais na edição e mixagem de som, pode-se usar o programa Audacity. Ele é gratuito e muito bom para iniciantes, também em inglês.

FINALIZAÇÃO

O finalizador(a) e seus assistentes são os responsáveis por coordenar toda essa área. Hoje em dia, temos diversas câmeras e diversos formatos de vídeos diferentes. Um mesmo filme pode conter material gravado, por exemplo, de três câmeras diferentes. É o finalizador(a) que vai cuidar para que esses formatos diferentes não se choquem e não deem maiores problemas. Além disso, como vimos, um filme, além de editado, é colorido e mixado e cada uma dessas áreas recebe o material de uma forma. Por exemplo, os editores vão receber o material bruto (é assim que chamamos tudo que foi gravado sem edição nenhuma) inteiro, vai ser longo e pesado, eles realmente precisam receber em melhor qualidade de imagem? Já o colorista vai mexer e mudar a imagem, ele precisa sim da imagem na melhor qualidade possível, mas não do filme todo, então ele vai trabalhar só depois da edição, no corte final. Mas como só vai trabalhar na imagem, não precisa do áudio. Já o mixador(a) também vai trabalhar no corte final, mas precisa receber tudo que foi gravado de áudio para inserir um efeito aqui ou ali, se achar necessário. Ele(a) precisa da imagem só como referência, pois vai mesmo trabalhar no áudio, então a qualidade de imagem pode ser inferior. O finalizador(a) é a pessoa que vai cuidar dessa galera toda, vai preparar e mandar o filme do modo correto para cada um e depois vai receber e juntar tudo para sair então o filme que você vai ver na tela do cinema. É preciso muita atenção e cuidado. Um deslize nessa área (mandar a versão errada do filme para o áudio, por exemplo) pode dar muita dor de cabeça.

CRÉDITOS FINAIS

Agora que você conheceu diversas funções, não só da área de pós, mas de todos os momentos na preparação de um filme, é bom se lembrar de creditar essas pessoas. Como já falamos, cinema é um trabalho em equipe que juntos, cada um fazendo o que sabe melhor, realizarão um filme e devemos sempre creditar e reconhecer o trabalho de cada um deles. Por mais que a maioria das pessoas levante na hora que os créditos começam a aparecer, é importante para o profissional ver seu nome na tela, pois é o reconhecimento do seu trabalho. Portanto, não se esqueça de creditar sua equipe no final do seu filme.

Os profissionais que ficam responsáveis por essas últimas etapas normalmente são pessoas bem cuidadosas e que prestam atenção em tudo. Às vezes, na emoção e correria do set, a equipe pode deixar passar alguma coisa na imagem ou na lente, alguma palavra ou expressão que não deve ser usada. Importante lembrar que a pós-produção não faz milagre, muitos diretores e produtores, deixam a correria tomar conta e esquecem de coisas simples no set, confiando na pós e nem sempre se consegue resolver em tempo hábil.

Temos diversos outros profissionais no mundo da pós, o compositor de efeitos especiais, a pessoa que compõe a trilha sonora, quem legenda, quem faz as artes gráficas, uma infinidade de profissionais que não temos mais espaço para falar aqui. Me mantive nos básicos e espero que vocês tenham compreendido que terminar de gravar um filme é apenas o começo de outra etapa.

Depois de todas essas etapas e as etapas mostradas nos posts anteriores, seu filme finalmente estará pronto. Quer saber o que fazer com ele além de mostrar para família e amigos? Veremos isso no próximo mês.

Dani Feno
  • Coordenadora de Audiovisual
  • Colaboradora de Cinema & TV
  • Colaboradora de Música

Dani Feno, 26 anos. Quando era criança foi ao cinema ver Rei Leão a primeira vez e se apaixonou por essa coisa de ver filmes. Mais velha viu um seriado chamado Clarissa e pronto, a paixão passou para seriados também. Foi tão forte que agora trabalha em uma finalizadora de filmes e programas de TV, mas o que gosta mesmo é de editar vídeos para Capitolina. Gorda e feminista desde criança também (apesar de só saber que é esse o nome há pouco tempo). Acha que a melhor banda do universo é Arcade Fire e pode ficar horas te convencendo disso. Em Hogwarts é 70% Corvinal e 30% Grifinória.

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A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

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