17 de setembro de 2015 | Ano 2, Edição #18, Textos Favoritos | Texto: | Ilustração: Jordana Andrade
A face misógina do “Fora, Dilma!”
conquista_feminina_espacosdepoder

Misoginia
s.f. Sentimento de repulsa e/ou aversão às mulheres.
(Etm. do grego: misogynia, pelo francês: misogynie)

Antes de mais nada, isso não é um texto de cunho político, não é um texto para falarmos de corrupção, nem de posicionamento partidário. Aqui não é um depósito de ódio ao governo, ao PT, ou a Dilma, presidente do nosso país que devemos sempre lembrar, antes de ser presidente, é uma mulher, assim como eu que escrevo e tantas outras que possam estar lendo. Foram noites pensando em como abordar esse tema tão importante e que atualmente tem sido tão evidenciado na política do nosso país, a princípio quis falar de maneira política e imparcial. Mas como ser imparcial em relação a algo que atinge uma mulher? Onde estaria minha consciência, onde estaria o meu feminismo e minha sororidade se apenas lhes escrevesse “Ei, xingar uma mulher de puta não é legal!”?

Que xingar uma mulher não é legal, todos sabemos, ou pelo menos deveríamos saber. Mas alguns xingamentos necessitam ser problematizados. “Nossa, não posso nem ficar mais revoltado em paz!”. Pode sim, claro que pode, inclusive eu também estou revoltada, sou estudante de uma universidade pública e a situação nunca esteve tão sombria, mas mesmo no auge da minha revolta jamais tive uma atitude misógina durante minhas manifestações. Nunca evoquei um grito de ódio a uma mulher, alguém igual a mim em tantas formas, mas principalmente na vontade mútua de ser respeitada.

Usar os termos “puta”, “vadia”, “piranha” como xingamento ao meu ver já não faz lá muito sentido, a começar pela conotação negativa que damos a essas palavras. Afinal se formos parar para pensar um pouco… O que exatamente é uma “puta”? Uma mulher que faz sexo frequentemente? Uma mulher que recebe dinheiro para fazer sexo? E isso é ruim? Isso realmente deve ser usado como ofensa? Mulheres devem se sentir ofendidas? Mas principalmente, será que se fosse um homem na maior posição de poder de um país, seria diferente? Sim, seria.

Por que disseminar ódio a uma mulher e tentar destruí-la? Se podemos ajudá-la a mudar o país? Misoginia não, revolta sim.

Por que disseminar ódio a uma mulher e tentar destruí-la? Se podemos ajudá-la a mudar o país? Misoginia não, revolta sim.

Imaginem a seguinte situação: uma manifestação de inconformados com o atual governo na rua, caminhando e gritando palavras de ordem, e no meio daquela gritaria, alguém grita: “Dilma, sua mulher com vida sexual ativa!” Epa! Faz sentido? Nossa, que ofensivo! Uau! Que revolta!
Agora vamos tentar imaginar um homem nessa posição de poder, será que o ódio ao governo ou como vemos, a uma única representante de um governo seria igual? Será que haveria adesivos de carro incitando um estupro a esse homem? Haveria tanto ódio? Podemos responder essas perguntas recordando a história do nosso país, e lembrarmos como Fernando Collor podia até ter sido alvo de insultos, mas o ódio, aquele ódio que uma sociedade machista e patriarcal sente ao ver uma mulher no poder, ele não sofreu.

O que acontece infelizmente, não apenas no Brasil, e não apenas na política, é uma forte resistência popular à conquista feminina em espaços de poder. Desde uma mulher presidente de uma multinacional, até a reitoria de uma universidade ou, então, no mais alto cargo possível, a presidência de um país. A Débora falou aqui um pouco sobre a importância da representatividade feminina em espaços como esse, para nós, mulheres. Nunca fui exatamente uma pessoa politizada e poucas vezes acompanhei pronunciamentos, mas com um dos poucos que vi, me alegrei e talvez tenha me sentido (finalmente) representada. Foi quando a atual presidente falou a respeito de agressores de mulheres e da Lei Maria da Penha em 2013, no Dia Internacional de Mulher:

“Se é por falta de amor e compaixão que vocês agem assim, peço que pensem no amor, no sacrifício e na dedicação que receberam de suas queridas mães. Mas se vocês agem assim por falta de respeito ou por falta de temor, não esqueçam jamais que a maior autoridade deste país é uma mulher, uma mulher que não tem medo de enfrentar os injustos nem a injustiça, esteja onde estiverem”
– Dilma Roussef

Por fim, ainda que estejamos insatisfeitos com uma gestão, seja de um condomínio, uma universidade ou um país, não existe apenas um responsável por aquilo, não existe apenas um governante, mas sim um representante, e ainda que se trate de uma mulher, a insatisfação deve gritar e ecoar pelas ruas sempre, junto com a democracia que nos foi conquistada. Mas as palavras de ódio e misoginia, essas nós não devemos deixar passar jamais.

Fabiana Pinto
  • Colaboradora de FVM & Culinária

Fabiana Pinto, negra e carioca. Graduanda em Nutrição na Universidade Federal do Rio de Janeiro em tempo integral e, escritora de suas percepções e experimentações do mundo em seu tempo livre.

  • Daiane Cardoso

    Que texto maravilhoso! <3

    • Fabiana Pinto

      Obrigada miga! <3

  • Priscylla Piucco

    Que texto necessário! Parabéns, lacrou.

  • Marilia

    Belas palavras. Infelizmente é notório que os ataques a nossa presidenta são por ela ser mulher, como se isso fizesse dela menos capaz. Triste realidade, e mais triste é ver mulheres compactuando com essa onda de ódio

    • Fabiana Pinto

      Obrigada querida! Vamos seguindo juntas conscientizando umas as outras, para que esse ódio contra mulheres acabe!

  • Noemia Pavan

    Parabéns, perfeito!!! Compactuo com suas palavras e pensamento. O que me deixa mais triste é ver esses insultos vindo de mulheres.

  • Juliana Brandão

    Parabéns pela iniciativa de abordar um tema tão delicado atualmente, o machismo e a violência contra a mulher fere a todas nós mulheres independente de preferências partidárias.

  • Lorena Ferreira

    Olá! Respeito muito o blog de vocês, adoro a abordagem que fazem e acredito que engrandecem a luta pelo feminismo. Parabéns pelo artigo, também me sinto ultrajada quando se referem à presidente desta maneira, independente de posições políticas, como mulher, ela não merece os xingamentos, antes de mais nada é necessário respeito. Gostaria tb, sem qualquer partidarismo de saber de vocês o que acham dessa frase:”A Clara Ant acordou com 5 policiais no quarto e achou q era um presente de Deus”

  • Terezinha Vicente

    Muito bom! mas é um texto de cunho político sim, o feminismo é político, é contra cultura, é revolucionário e precisamos ressignificar o fazer político, as mulheres querem outra forma, mas precisam fazer mais Política!

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